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Um lugar intermédio, um espaço desconfortável

A arte como «um lugar intermédio, um espaço desconfortável» e a « tensão entre construção e acaso». Exposições na Maumaus, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva e no C.A.S. de Sines.

Vista da Exposição «Não Estou Lá Em Baixo. Nem Lá Em Cima Estou» de  Tonio Kröner na Maumaus- Espaço Lumiar Cité, até 2 de Fevereiro de 2019
Vista da Exposição «Não Estou Lá Em Baixo. Nem Lá Em Cima Estou» de  Tonio Kröner na Maumaus- Espaço Lumiar Cité, até 2 de Fevereiro de 2019CréditosMaumaus

A Associação Maumaus - Centro de Contaminação Visual foi fundada em 1992 e é uma associação cultural sem fins lucrativos que promove o debate, o conhecimento e a difusão da arte contemporânea. Esta associação incluiu uma Escola de Artes Visuais, através da qual desenvolve um Programa Independente de Artes Visuais, com reconhecimento a nível internacional, que permite experiências em que se procura aliar, ao ensino, aspectos práticos da produção de exposições de arte contemporânea. Nos últimos anos, a associação fundou a Maumaus Publisher e inaugurou o espaço de exposição Lumiar Cité. Também começou a produção de filmes, seminários e conferências e implementou um Programa Internacional de Artistas em Residência. Alguns dos projectos artísticos co-produzidos pela Maumaus foram apresentados em importantes eventos internacionais de arte contemporânea, incluindo: 29.ª Bienal de S. Paulo (Maria Thereza Alves), 56.ª Bienal de Veneza (Harun Farocki), documenta 14 (Manthia Diawara) e 8.ª Göteborg Biennial (Ângela Ferreira).

No âmbito do programa internacional de residência artística da Maumaus, o artista alemão Tonio Kröner realiza, no espaço Lumiar Cité1, a exposição «Não Estou Lá Em Baixo. Nem Lá Em Cima Estou», que poderá ser visitada até dia 2 de Fevereiro. É a primeira exposição individual em Portugal da obra deste artista. Tonio Kröner tem vindo a apresentar trabalhos em pintura, escultura e instalação, numa linguagem com muita ironia e referências surrealistas, utilizando «modos de representação abstractos e concretos». Nesta exposição evoca o programa televisivo «Os Marretas», em cruzamento com a História da Arte recente.

O título da exposição faz referência a um poema publicado em 1924, «Halfway down», de Alan Alexander Milne, um dramaturgo britânico e autor de literatura infantil e poesia, mais conhecido por escrever uma série de livros sobre Winnie the Pooh.

Manuel Batista, Pintura – Objecto, 1995. Acrílico sobre tela sobre madeira. Exposição «Manuel Baptista. Sombras e Outras Cores» no Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, até 26 de Janeiro de 2019 CréditosFrancisco Palma /

No texto de apresentação da exposição refere-se que «no espaço expositivo apresentam-se várias pinturas evocando um autor do passado. A apropriação de um expressionismo gestual torna a tradução de Kröner numa pintura “tensa” e num não convencional conjunto de telas de juta. Nas pinturas predominam diferentes tons de vermelho, que combinam com as paredes de tijolo do Lumiar Cité, e os tamanhos dos “originais” evocados são ligeiramente corrigidos para se ajustarem ao espaço. O título demasiado longo pode ser entendido como um leitmotiv para as negociações de Kröner sobre as estratégias expositivas, a pintura, a escultura e as questões do próprio interior.

A tradução do expressionismo gestual para uma arte conceptual (desajeitada) sugere um lugar intermédio, um espaço desconfortável como uma mesa no meio de um restaurante onde ninguém se quer sentar. A equivoca falta de um fluxo livre de gestos e profundidades no expressionismo de Kröner permite-lhe contornar o problema da autenticidade, possibilitando que negoceie os seus termos relativamente a determinada época, quando o género masculino dominava a pintura de grande escala e o programa televisivo “Os Marretas”, aparentemente infantil mas dedicado a adultos, era transmitido. Dois bonecos referenciam o programa televisivo, como eventuais figurantes, sem o protagonismo de Cocas ou Miss Piggy. Um deles está instalado no espaço expositivo, enquanto o outro se apresenta no escritório da Maumaus no centro da cidade (Campo dos Mártires da Pátria, 100, 1 esq., segunda a sexta, das 10h às 13h e das 15h às 19h).»

Tonio Kröner (Alemanha, 1984), artista e curador, vive e trabalha em Berlim, recentemente realizou e participou em exposições em Viena, Bruxelas, Nova Iorque e Hamburgo. O artista assume toda a responsabilidade pela gestão do espaço dispositivo e decisões curatoriais nesta exposição. No âmbito desta exposição está ainda programado uma Conversa com o Artista, no espaço Lumiar Cité, para dia 25 de Janeiro, às 17 horas.

A Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva2 «tem por vocação a divulgação e o estudo da obra dos artistas plásticos Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva, bem como dos artistas, intelectuais e amigos, nacionais ou estrangeiros, seus contemporâneos», tendo sido criados um museu, em 1994, que acolhe e divulga a obra destes dois artistas, e um centro de documentação e investigação. A FASVS promove exposições, colóquios, conferências e a edição e publicação de obras no domínio da história e da crítica da arte do século XX.

Existe ainda, junto à Praça das Amoreiras, a Casa-Atelier Vieira da Silva3 a casa e «local de trabalho» da pintora e de Arpad Szenes, antes da partida para o Brasil (quando no contexto da Segunda Guerra Mundial tentaram voltar a Portugal e Salazar retirou a nacionalidade portuguesa à pintora e a Arpad, cidadão húngaro de ascendência judia). A sua antiga casa e atelier mantém-se associado à produção artística, com um programa aberto a todos os agentes culturais que pretendam promover actividades de arte contemporânea, e ligada à comunidade, acolhendo projectos e residências para artistas e investigadores.

Exposição «Clareira» de Inês Soares e Maria Ribeiro, Casa-Atelier Vieira da Silva, 18 a 26 de Janeiro de 2019 CréditosMuseu Arpad Szenes - Vieira da Silva /

Quanto à programação actual do Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, poderemos sugerir uma visita, para além da exposição permanente da Colecção do MASVS, poderemos ver duas exposições temporárias, que decorrem até 26 de Janeiro, «Por Dentro da Obra. A Técnica da Têmpera na Obra de Vieira Da Silva» e «Manuel Baptista. Sombras e Outras Cores». A exposição sobre a técnica da têmpera na obra de Vieira da Silva foi realizada «em estreita articulação com o Departamento de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, e numa colaboração com o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora», surgindo um interessante projecto de investigação interdisciplinar. Resulta, assim, uma exposição com algumas das pinturas a têmpera da colecção do Museu e diversas imagens, dados científicos e textos, tornando o contexto da utilização deste médium artístico compreensíveis para o público em geral. A exposição de Manuel Baptista (Faro, 1936), embora não sendo uma retrospectiva, apresenta obras entre 1963 e 2002, «uma escolha de momentos-chave da obra de Manuel Baptista através da qual percorremos seis décadas de trabalho intenso», como refere o curador João Pinharanda, salientando ainda que «o seu trabalho apresenta uma constante tensão entre construção e acaso, regra e indisciplina». Manuel Baptista apresenta nesta exposição diversas construções formais tridimensionais, que podemos aproximar de uma linguagem geométrica, abstracta ou matérica.

A Casa-Atelier vai agora apresentar duas exposições, a exposição de Gravura e Escultura «Lareira» de Inês Soares e Maria Ribeiro, de 18 de Janeiro (com inauguração às 17h30) a 26 de Janeiro e a exposição de Sofia Pidwell, que vai decorrer de 30 de Janeiro a 12 de Abril de 2020.

Vista da exposição «Mundividências», no Centro de Exposições do Centro de Artes de Sines, até 26 de Janeiro de 2019 CréditosCentro de Artes de Sines /

No Centro de Exposições do Centro de Artes de Sines4 decorre, até 26 de Janeiro, a exposição «Mundividências», em que participam seis fotógrafos de Sines, exposição integrada nas comemorações do Dia do Município. O convite lançado aos artistas foi que desenvolvessem um projecto que refletisse um momento do seu trabalho ou um conceito da sua obra. O resultado foi «Reflexos do Eu» de Jorge Custódio, «O Mundo a Preto e Branco Não é Cinzento» de Luís Magalhães, «Neste Dia de Mar e Nevoeiro» e «From Gagarin’s Point of View» de Rui Pereira, «In lumine» de Sofia Costa, «Maresias» de Tiago Canhoto e «Rostos de Sol e Sal» de Vítor Seromenho.

  • 1. Lumiar Cité - Rua Tomás del Negro, 8A, 1750-105 Lisboa. Horário: quarta-feira a domingo, das 15h às 19h ou através de marcação. Tel: + 351 217 551 570, 213 521 155.
  • 2. Fundação/Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva. Praça das Amoreiras, 56, 1250-020 Lisboa. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 18h; encerrado às segundas-feiras e feriados.
  • 3. Casa-Atelier Vieira da Silva - Alto de São Francisco, 3, 1250-028 Lisboa. Horário: pode ser visitada no horário do Museu, sempre que solicitado na recepção, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h; encerrado às segundas-feiras e feriados).
  • 4. CAS-Centro de Exposições – Rua Cândido dos Reis, 33, 7520-177 Sines. Horário: segunda-feira a sexta-feira, das 14h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 14h30 às 20h.

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