|Sugestões culturais

Teatro e muito mais, no início de um ano exigente

Começamos pelo teatro, neste início de um novo ano de luta das gentes das artes pela solução de muitos dos seus problemas, que continuam por resolver. Depois, concertos musicais, discos, cinema e novos livros – também infantis.

Cena de
Cena de "Alice no País das Maravilhas", pelo Teatro do Eléctrico, peça estreada no final de 2018 e com tournée em 2019. CréditosAlípio Padilha / Teatro do Eléctrico

2018 foi ano de luta das gentes do teatro e de outras artes. E essa luta é óbvio que não pára, porque muitos e muitos problemas continuam, como se sabe, por resolver, no domínio do apoio às artes. E há, por outro lado, uma exigência, clara, que na ordem do dia se mantém: 1% para a Cultura!

Comecemos, por isso, pelo teatro, neste início de um novo ano de luta.

Teatro e não só em Lisboa, Coimbra, Braga, Porto, Alcochete e noutros locais

Coisas que me escaparam: foi só até 6 de Janeiro de 2019, na sala Garrett do Teatro D. Maria II, o espectáculo Alice no País das Maravilhas, do Teatro do Eléctrico, baseado no clássico vitoriano de Lewis Carroll, publicado em 1865.

É uma encenação de Maria João Luís e de Ricardo Neves-Neves – e só podemos é lamentar que tão pouco dure no D. Maria II. Votos para 2019: que este belo e necessário espectáculo circule por aí e se apresente em muitos pontos do país. Mas parece que assim será. Os nossos adultos, jovens, crianças precisam de a ele assistir. Ah, e aproveite-se para conferir a programação do D. Maria II. Outras coisas há para ver, ouvir, pensar.

Em Coimbra, não perca o valioso trabalho do Teatrão, começando por consultar o belo site da companhia. A Grande Emissão do Mundo Português (até 20 de Janeiro); Sophia (de 26 de Janeiro a 16 de Fevereiro), reposição do belíssimo espectáculo de 2016, em ano do centenário do nascimento da autora de A Menina do Mar; e ainda as Oficinas de Teatro de Objetos são os grandes destaques deste princípio de 2019, na companhia coimbrã – uma das referências do nosso teatro para adultos, crianças e jovens.

Cito a informação sobre o primeiro dos espectáculos referidos: «A Grande Emissão do Mundo Português é o segundo capítulo da Casa Portuguesa do Teatrão, o conjunto de produções, debates e estudos que a companhia produz actualmente sobre o Estado Novo. Depois de Eu Salazar, o foco transfere-se agora para a Emissora Nacional (EN) e para o seu papel na difusão da ideologia do Estado Novo, especialmente no período em que António Ferro assume a sua direcção».

Em época de reacendimentos da chama tóxica do fascismo por esse mundo fora, o actual trabalho do Teatrão não se pode perder, verdade?

Atenção também à programação do Teatro Nacional de S. João, no Porto, onde, entre outras propostas, se regista a reposição de Otelo, de Shakespeare, com encenação, cenografia e figurinos, muito discutidos, de Nuno Carinhas. Lá ficará até 20 de Janeiro.

Teatro, cinema, música é o dia-a-dia do Theatro Circo de Braga. Consulte o site e experimente a peça A Antiga Mulher (8 a 10 de Janeiro), de Roland Schimmelpfennig, com encenação de Tony Cafiero, cenografia de Acácio de Carvalho, figurinos de Sandra Dekanic, desenho de luz de Jean Pascal Pracht e interpretação de André Laires, Carlos Feio, Eduarda Filipa, Solange Sá e Sílvia Brito. Uma peça onde «o equilíbrio do masculino e o feminino está em jogo».

Nomeada e bem para o Astrid Lindgren1 Memorial Award de 2019, enquanto estrutura teatral e de animação que desenvolve excepcional trabalho de promoção da leitura e da poesia, em suma, do literário, a Andante, de Alcochete, prossegue o seu caminho. Siga os passos desta gente por este país fora e não só. Gente que, entre outras coisas, quer «pôr a leitura em voz alta na ordem do dia».

Pois, a 1 de Fevereiro, poder-se-á assistir à apresentação de um espectáculo da Andante em conjunto com um grupo de alunos do ensino secundário. Comemorando-se em Portugal, nessa data, o Dia Mundial da Leitura em Voz Alta, o PNL (Plano Nacional de Leitura), para o celebrar, convidou a companhia a apresentar um espectáculo juntamente com um grupo de alunos.

A base de trabalho será o livro Clube Mediterrâneo: doze fotogramas e uma devoração, de Ana Biscaia, Joana Monteiro e João Pedro Mésseder, em torno da temática dos migrantes e refugiados do Mediterrâneo. A apresentação terá lugar na Escola Secundária de Alcochete, pelas 11 horas do dia 1 de Fevereiro, e promete.

Novos Mundos, na Casa da Música, no Porto

Atenção ao ciclo Dar Novos Mundos ao Mundo, na Casa da Música, no Porto. Os agrupamentos residentes da Casa levam o público «em viagem pelas Américas (…), desta vez não apenas um país, mas um lado inteiro do mundo – o Novo Mundo. Tudo começa com as grandes celebrações sinfónicas das identidades americanas: a dos Estados Unidos por Dvořák, a do mundo maia por Ginastera». Haverá ocasião para «conhecer os primeiros compositores naturais dos Estados Unidos, activos no tempo da independência, relembrar os incontornáveis Gershwin e Bernstein, ouvir obras de Claude Vivier e Steve Reich nunca antes tocadas em Portugal. Sem esquecer um clássico do modernismo americano, Amériques, a primeira obra do francês Varèse após chegar aos Estados Unidos». Assim reza a informação disponível. O programa é estimulante e poderá vê-lo em pormenor e apontar datas, recorrendo à página da Casa da Música.

Grande música ainda, em gravação

Deixo-lhe agora quatro sugestões de CD que me acompanharam e encantaram no passado mês de Dezembro. O primeiro é o álbum da grande Cecilia Bartoli, interpretando, uma vez mais, árias esquecidas das óperas de Vivaldi, com o Ensemble Matheus, sob a direcção de Jean-Cristophe Spinosi. E digo mais uma vez, porque, é sabido, o primeiro trabalho do género foi editado em 1999. Ora, o de 2018, com a chancela da Decca, surge quase duas décadas depois e, no entanto, a voz de Bartoli continua fresca, poderosíssima e esplendorosa. E há quem diga: pouco mudou, desde 1999.

Outra enorme figura actual da cultura europeia é a contralto francesa Nathalie Stutzmann que, simultaneamente maestrina, dirige o soberbo ensemble Orfeo 55. Experimente escutar o seu álbum Quella Fiamma: arie antiche (2017), chancela da Erato, e não se arrependerá com o sublime da proposta e da sua interpretação: árias e andamentos de diferentes concertos de Alessandro Scarlatti, Durante, Falconieri, Caccini, Händel, Cavalli, Paistello e muitos outros.

Retorne a um trabalho de 1981, com a marca da Deutsche Grammophon: refiro-me sobretudo à Sonata para Piano n.º 32, de Beetthoven e ainda aos Estudos Sinfónicos op. 13, de Schumann, a par de outras peças pianísticas deste compositor e de algumas mais, de Chopin, interpretados por esse prodígio croata do piano que à época, anos 80, se revelou e que dá pelo nome Ivo Pogorelich. Escute, discuta e ajuíze por si.

Por último, não deixe de escutar os Inéditos 1967-1999 (Warner Music/Parlophone), de José Mário Branco. É a arqueologia de algumas conhecidas canções em versões anteriores (por exemplo, «Ronda do soldadinho»), mas é sobretudo um lote considerável de outras cujas gravações estavam adormecidas ou nunca haviam saído em disco. Um destaque especial para o conjunto de cantigas de amor e de amigo trovadorescas dos primórdios da carreira de José Mário Branco, baseadas nas versões modernizadas dos poemas, da autoria de Natália Correia.

Cinema italiano e neo-realismo

O Museu do Neo-Realismo realiza, pelo terceiro ano, uma masterclass de cinema italiano ministrada pelo realizador, crítico e investigador Lauro António. Iniciando-se a 16 de Janeiro, a masterclass Um Novo Realismo (1960-1980), decorrerá até 17 de julho de 2019, todas as quartas-feiras, pelas 19h, num total de 26 sessões. As inscrições terminam a 14 de janeiro. Para mais informações poderá consultar o site do museu.

Novos e bons livros

Termino com um punhado de bons livros. E começo com o belo, poético e inclassificável texto, de ressonância autobiográfica, de Mahmoud Darwich (1941-2008), o grande poeta da Palestina. Leia Na Presença da Ausência, uma edição de 2018 que se saúda, com chancela da Livraria Flâneur, do Porto, e tradução de Manuel Alberto Vieira.

Notícia é também a bela versão portuguesa de A Balada de Amor e Morte do Porta-estandarte Christoph-Rilke (2018). A edição deste texto do superior poeta que foi Rainer Marie Rilke (1875-1926) é bilingue, sendo a tradução assinada por Bruno C. Duarte. Continuação de um belíssimo e cuidado trabalho editorial das Edições do Saguão.

O delicioso livro de viagens-e-paisagens De Lisboa a Mogadouro: De comboio, barco e diligência, de Trindade Coelho (1861-1908), é-nos trazido pela mão da Feitoria dos Livros, numa edição de 2018 e com esclarecedor prefácio de um bom conhecedor do escritor de Mogadouro: José-Viale Moutinho. Em suma, trata-se de uma reunião preciosa de «crónicas viajeiras» (p. 7).

Na poesia, merece destaque muito especial a publicação, pela Relógio d’Água, da antologia O Pangolim e Outros Poemas (2018), da norte-americana Marianne Moore (1887-1972), poeta vanguardista aqui admiravelmente vertida para Português (edição bilingue) por Margarida Vale de Gato, que também posfacia a obra.

Duas obras poéticas portuguesas a salientar. Os sempre cativantes haiku de Casimiro de Brito (n. 1938), em Memória do Paraíso (Licorne, 2018), na sua maioria de cunho erótico e amoroso, e sempre respeitadores da métrica tradicional do poema breve de origem japonesa. E ainda a inesquecível poesia de Albano Martins (1930-2018) na Pequena Antologia Poética / Petite Anthologie Poétique (A.23 Edições, 2018), com tradução para francês de Anne-Marie Quint. Uma poética da terra e do corpo, do desejo e do declínio, marcada pelas lições helénica e nipónica, e também ela seduzida pela brevidade. Quanto ao autor, trata-se de um poeta maior e tradutor igualmente notável, que em 2018 nos deixou.

...também infantis

Por último, dois livros infantis: Reis, Rainhas, Príncipes e Princesas (Canto das Cores Edições, 2018), textos em verso, não raro divertidos, mas simultaneamente educativos, sobre figuras e momentos marcantes da nossa História, como D. Afonso Henriques, D. Dinis, Inês de Castro, D. Carlota Joaquina, a República, etc.

A autoria dos textos, sempre de valia segura, é de Luísa Ducla Soares (n. 1939), figura marcante da nossa escrita para a infância e a juventude; as ilustrações são de Cristina Completo. O livro inclui um CD com sugestivas canções de Daniel Completo que têm os poemas de Luísa Ducla Soares como letras (uma parceria que aqui se renova). Em suma, um objecto interessante e educativo, sob vários pontos de vista, em que as expressões literária e musical, uma vez mais, se cruzam.

Finalmente, a edição francesa (Les Trois Pommes) de As Três Maçãs, um belíssimo e histórico albunzinho narrativo da notável pintora e ilustradora que foi Maria Keil (1914-2012), originalmente publicado em 1988. Uma sensível e delicada composição de protagonistas infantis, com alguma influência da banda desenhada, em torno da conflitualidade de posse resolvida, da partilha e da amizade. Vem agora a lume, numa bela e cuidada edição de capa dura, das Éditions Chandeigne, de Paris, com competentes tradução e posfácio de Mylène Contival.

Data de 2018 e é acompanhada, no final, e em ponto pequeno, pela reprodução do original português. Não perca, se puder, este lindíssimo objecto, e aprecie a beleza e aparente simplicidade do traço keiliano combinado aqui com a colagem das maçãs (recortes de fotografia, em ponto grande), num irrecusável vermelho vivo. Com este e outros livrinhos do mesmo tipo foi Maria Keil uma das precursoras do álbum narrativo para crianças, em Portugal – linha que viria a ter dignas continuadoras em Manuela Bacelar e, hoje em dia, nas propostas editoriais da Orfeu Negro e da Planeta Tangerina.

Em suma, muito para ver, ler e ouvir, neste início de 2019. Tenha um Bom Ano.

  • 1. Astrid Lindgren (1907-2002) foi uma das escritoras marcantes da literatura para a infância no século XX, criadora de populares personagens como a Pippi das meias-altas. O prémio que tem o seu nome é um dos mais prestigiados e ambicionados galardões da literatura infantil. É conhecido o profundo humanismo da autora, a sua preocupação com os direitos das crianças, com o ambiente, com os direitos dos animais. Menos conhecido é o facto de ter sido, desde cedo, uma anti-nazi convicta. A publicação póstuma, em 2015, dos seus Diários de Guerra (1939-1945) – não publicados em Portugal –, revela uma outra faceta da autora. «O que muitos não sabem», pode ler-se na apresentação dos Diários, é que ela foi, desde cedo, uma anti-nazi, e que durante toda a sua vida lutou contra a guerra e a violência. Humanista convicta, bateu-se pelas suas opiniões com coragem, humor e amor».

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