|E o mundo é a nossa tarefa

Segundo dos Poemas da Infância

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

Os sonhos, Teresa Balthus
Os sonhos, Teresa BalthusCréditosTeresa Balthus

Segundo dos Poemas da Infância

Quando foi que demorei os olhos 
sobre os seios nascendo debaixo das blusas, 
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta 
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso 
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas. 
Quando, não sei ao certo. 

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas, 
foi um grande mistério. 
Tão grande 
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar, 
corno sejam os pássaros quando passam voando. 

E desafiava, 
sem razão aparente, 
rapazes muito mais velhos e fortes! 
E uma vez, 
de cima de um telhado, 
joguei uma pedrada tão certeira, 
que levou o chapéu do Senhor Administrador! 
Em toda a vila 
se falou logo num caso de política; 
o Senhor Administrador 
mandou vir da cidade uma pistola, 
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver; 
e os do partido contrário 
deixaram crescer o musgo nos telhados 
com medo daquela raiva de tiros para o céu…

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas! 
 

Manuel da Fonseca

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