Zeca Couto, teclista e director musical da mítica banca cabo-verdiana, e o guitarrista Israel Silva falavam à agência Lusa momentos antes do espectáculo que domingo encheu o espaço Lisboa Ao Vivo (LAV) e que foi «um regresso a casa».
A primeira vez em que o grupo esteve em Portugal foi há 45 anos, na Festa do Avante!, quando encontraram no Alto da Ajuda um público maior do que a população em Cabo Verde, que os acolheu de tal forma que ainda hoje esse momento é recordado por elementos da banda, principalmente os mais antigos.
«O tratamento, o som, tudo foi uma maravilha», afirmou Zeca Couto, contando como ficaram surpreendidos quando souberam que o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, os queria cumprimentar. E foi então que, durante o encontro, Cunhal «chamou uma senhora, que trouxe uma bandeja e começou a distribuir envelopes». Nos envelopes havia dinheiro para pagar os músicos pela actuação na Festa do Avante!, mas o grupo não aceitou.
«Isso foi uma surpresa, porque nós aceitámos o convite do Partido Comunista, quisemos fazer o trabalho, numa base de militância, porque nós somos pela liberdade primeiro, José Afonso e tudo isso, somos pela liberdade», disse o teclista.
O grupo viu nesta festa uma oportunidade para conhecer Portugal, o que aconteceu, de Norte a Sul, com os Trovante, com quem partilharam os palcos.
Passaram 45 anos desde esse episódio, 50 desde a independência de Cabo Verde, e Os Tubarões continuam «na mesma linha».
«Temos um esqueleto, só que o corpo é que vai se modificando, mas a nossa linha dorsal continua a mesma, o DNA continua o mesmo», acrescentou, referindo que «o público vai-se adaptando».
«Temos muita juventude que actualmente abraça Os Tubarões com um certo calor e até nos perguntam: Vocês faziam isto há 40 anos atrás, em termos musicais?», disse.
Israel Silva não encontra grandes diferenças entre o público em Cabo Verde e Portugal. «Vejo uma adesão grande do público. O cabo-verdiano que está cá [em Portugal] vem matar saudades, mas Lisboa é uma cidade muito africana, que resultou de todo esse processo das independências e de todo mundo que veio de lá para cá», disse.
O guitarrista sublinha a forma calorosa como o grupo é sempre recebido em Portugal, onde se sente em casa, com um público a vibrar com as suas músicas, sobretudo a morna, a coladeira e o funaná.
E foi isso mesmo que aconteceu domingo no LAV, uma casa cheia com um público de várias gerações, sempre a dançar ao som de algumas das músicas mais conhecidas do grupo, como «Djonsinho Cabral», «Tabanka» e «Porton di Nos Ilha», canções imortalizadas pela voz de Ildo Lobo, que morreu em 2004, e que continuam agora com o vocalista Albertino Évora.
Prometido está um novo álbum, no qual o grupo está a trabalhar, com temas novos de um compositor da nova geração.
«Um dia desses vamos entrar no estúdio e gravar uma obra», disse Zeca Couto.
Ismael Silva deixa apenas uma condição: «O fundamental é que o próximo trabalho seja, no mínimo, igual ao último, em termos de qualidade; o mínimo. Agora, nós vamos primar por melhorar».
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