Manuel Sérgio – 40 anos de motricidade humana

«O desporto pelo qual me bato é um factor de libertação e emancipação do ser humano»

«Para perceber o desporto eu leio o Jornal de Letras. Quem só sabe de desporto, nem de desporto sabe». Entrevista a Manuel Sérgio, conduzida por João Vasco Fagundes e com fotografia de Luís Miguel Correia.

Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia e doutorado em Motricidade Humana pela Universidade de Lisboa, onde é professor catedrático
Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia e doutorado em Motricidade Humana pela Universidade de Lisboa, onde é professor catedráticoCréditos / Luís Miguel Correia

No espaço mediático, o nome de Manuel Sérgio aparece hoje quase exclusivamente ligado ao futebol. José Mourinho foi seu aluno na faculdade e refere-se com frequência à importância que teve o magistério do professor. Jorge Jesus chamou-o há anos para seu conselheiro no Benfica e nas suas declarações à imprensa passou a citar Edmund Husserl, Lénine ou Ernst Bloch. Mas Manuel Sérgio, licenciado em filosofia e doutorado em motricidade humana, é muito mais do que isso. Pelas perspectivas novas que abre, pelo substracto filosófico e científico que contém, pelo diálogo fecundo que estabelece com a literatura e com as artes, a sua vasta produção teórica de mais de 30 títulos sobre motricidade humana e desporto ocupa um lugar de relevo no conjunto da cultura portuguesa. Há 40 anos, Manuel Sérgio publicava pela primeira vez o livro «Para uma Nova Dimensão do Desporto», onde lançava as bases do corte epistemológico com a educação física e da correlativa afirmação da motricidade humana como ciência. Com esta entrevista, quisemos assinalar este percurso de quatro décadas. Encontrámos um Manuel Sérgio jovial nos seus 81 anos. A ler jornais desportivos, diários generalistas, semanários brasileiros e o Jornal de Letras. «Para perceber o desporto eu leio o Jornal de Letras. Quem só sabe de desporto, nem de desporto sabe», explicou.

Tomada no seu conjunto, a sua obra apresenta dois traços muito marcantes: rebela-se contra o dualismo corpo-alma (dualismo que tem uma fortíssima tradição na filosofia ocidental) e, por essa via, visa uma valorização do corpo. Entre 1952 e 1965, dos 19 aos 32 anos, foi funcionário do Arsenal do Alfeite. Esse contacto directo com o trabalho manual de milhares de pessoas influenciou o desenvolvimento das suas concepções anti-dualistas?

Vou dizer-lhe uma coisa. Eu era filho de gente pobre, muito pobre, gente católica e conservadora. Estive quatro anos no seminário e, como éramos pobres, a minha mãe tinha uma certa esperança de que eu fosse para padre. Ora, para mim o seminário… era como se me faltasse o ar dentro daquilo. Não se dava comigo. Eu sabia que estava a agradar à minha mãe, fui aguentando aquilo uns anos, mas cheguei ao quarto ano e vim-me embora. Quando saí de lá tinha o terceiro ano, mas não havia equivalência com o ensino oficial. Até aos 22 anos, quando me caso com a mulher que tenho (e a quem muito devo), tinha apenas a quarta classe.

Aos 19 anos entra então no Arsenal do Alfeite com os três anos do seminário.

Sim. E entro acreditando no Salazar, acreditando naquilo que ouvia em casa. O meu pai era praça da GNR [Guarda Nacional Republicana]. Nem o meu pai nem a minha mãe chegaram a tirar a instrução primária: a minha mãe era analfabeta e o meu pai tirou a terceira classe na Guarda Republicana. É assim que eu ingresso no Arsenal do Alfeite.

E o que é que vai encontrar?

O Arsenal do Alfeite tinha muita gente ligada ao Partido Comunista, entre a qual alguns operários com quem eu convivi. O Arsenal do Alfeite era uma casa de operários. É preciso passar pelo que eu passei para perceber como a classe operária já tinha consciência… tinha consciência de classe. Isto é uma coisa extraordinária. Eu senti isso dentro do Arsenal do Alfeite. É lá que eu começo a ler o Jorge Amado, o Ferreira de Castro, o Alves Redol porque esses operários me diziam para ler, porque achavam que eu era um tipo que tinha inclinação para a leitura uma vez que já trazia uns rudimentozinhos de latim do seminário, umas coisinhas assim… já ouvia falar de um ou outro escritor, o Eça de Queirós por exemplo. Eu começo então a ler os grandes escritores progressistas no Arsenal do Alfeite a conselho de alguns operários. O Arsenal do Alfeite é a minha primeira escola política. Eu assistia a indivíduos a falarem uns com os outros às escondidas. Chegava-se ao 1º de Maio e uma série de operários era sempre presa.

E isso tudo vai influenciar a sua concepção de corpo?

Antes de mais, isso estimulou-me, motivou-me a que estudasse. A atenção ao corpo vem mais tarde. No entanto, eu sou filho de um pai que era Belenenses. Como morava na Ajuda, desde miúdo que ia para a bola, que andava dentro do campo das Salésias.

Também era praticante?

Dava uns chutinhos, mas nunca fui praticante. E tinha um defeito: como convivia com tipos muito bons e não era como eles ficava com complexos.

O desporto está presente na sua vida desde a infância.

Sim. Mas só começo a ouvir falar de corpo talvez em 1980, porque o próprio INEF [Instituto Nacional de Educação Física (1940-1975), depois ISEF – Instituto Superior de Educação Física (1975-1989) e a partir de 1989, por influência de Manuel Sérgio, FMH – Faculdade de Motricidade Humana] não falava de corpo, falava de físico. Aquilo era cartesiano. A educação física é cartesiana, é o reino do orgânico: faz do teu corpo uma máquina para teres saúde. Isto é cartesiano.

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O corpo que valoriza não é, portanto, o corpo que, no âmbito do dualismo, é considerado coisa, máquina. É outro o corpo de que fala nas suas obras.

O corpo de que falo é como elemento de um ser humano. Quando faço a minha tese de doutoramento, em 1986, eu falo do chamado método integrativo, que é igual àquilo a que mais tarde o Edgar Morin chamaria de método da complexidade. Ou seja, eu tinha uma visão holística do ser humano, proporcionada também, ao contrário de minha casa, por uma forte consciência política. Eu tinha essa consciência. Sabia que estava a ser explorado, que era alienado, sabia uma série de coisas. Em todos os livros que eu escrevo sobre desporto a dimensão política está lá. Até há um, «Algumas Teses Sobre o Desporto» [Compendium, Lisboa, 2010, 102 pp.], que é prefaciado pelo Francisco Louçã. Estávamos os dois num congresso promovido pelo Boaventura de Sousa Santos, em Coimbra, eu ia entregar o texto ao editor e perguntei-lhe se ele o queria ler. Ele leu, ficou todo entusiasmado e disse: isto é novo em Portugal, é uma coisa nova. Eu fiquei muito satisfeito e pedi-lhe para fazer o prefácio.

Como é que entende essa presença da dimensão política no desporto?

Do seguinte modo: eu digo – e também nesse livro – que o desporto é a expressão corporal do desenvolvimento sócio-económico de um povo. Portanto, o desporto só numa sociedade democrática pode progredir. Porquê? Porque para mim o desporto só tem valor se a um campeão no desporto corresponder um campeão nas artes, nas ciências e nas letras. Essa coisa de que todos têm que fazer desporto – não, não, não, não. Cada qual tem as suas aptidões, nem todos nasceram para serem campeões do desporto. Um tipo que nasceu para tocar piano deve tocar piano, um tipo que nasceu para escrever deve escrever. Claro, é preciso um movimentozito como base, como actividade salutar, mas uma sociedade democrática deve ter espaço para eu desenvolver aquilo, digamos, em que sou potência de forma a poder ser verdadeiramente acto. Por exemplo, ele até era alto, mas eu não posso exigir ao Saramago que seja um grande jogador de basquete…

Atendendo aos «Cadernos de Lanzarote», ele gostaria mais de jogar ténis…

Mas naturalmente não devia jogar muito bem… Ele era de facto um grande escritor. Eu estive com ele na célula dos escritores do Partido Comunista Português. Era de uma engenhosidade extraordinária, era um criativo extraordinário. Dos indivíduos que foram meus camaradas lá, cultura literária tinha o Urbano Tavares Rodrigues. O José Saramago não tinha, o José Saramago era criativo. Eu às vezes pensava: este tipo, por que é que não inventa romances? Afinal de contas, mais tarde…

Deixe-me pegar na literatura, uma vez que já lhe fez várias referências desde que começámos a falar dos tempos do Arsenal do Alfeite. É notória a importância que ela tem não só na sua vida, mas também na sua obra…

…eu quando chego à Faculdade de Letras [de Lisboa] tenho uma cadeira com o professor mais engraçado que encontrei: o Vitorino Nemésio. O Vitorino Nemésio era um homem de uma cultura! Meu Deus, uma coisa extraordinária! Extraordinária! Uma vez ele fez-me um exame, perguntou-me se eu era de filosofia e depois pôs-se a relatar um encontro que teve com o Bergson. Eu gostei, mas não disse nada. Deu-me uma nota boa, já não sei quanto é que foi. Eu não abri a boca. Era assim.

Já agora, quem eram os seus amigos mais chegados na Faculdade de Letras de Lisboa?

Tive tipos que foram muito meus amigos, todos eles anti-situacionistas. O José Medeiros Ferreira, um democrata no sentido clássico do termo, um tipo de esquerda, era quase meu irmão. Outro colega de quem era, e sou, muito amigo é o António Borges Coelho. Estamos numa aula de teoria da história, era professora a Virgínia Rau e assistente o Borges de Macedo, e ele diz-me que é comunista.

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Voltando então à literatura. Na sua obra é bem visível a ligação que tem com ela. E não estou a falar da sua obra poética (que também a tem), mas na sua produção teórica sobre desporto, sobre motricidade humana, sobre filosofia das actividades corporais. Por exemplo, nos seus ensaios sobre «Os Lusíadas» e o desporto, ou sobre «Os Maias» e a educação física, faz uma leitura desses clássicos do ponto de vista de como é que o desporto está presente neles. Ainda tem essa preocupação? Ainda faz isso hoje com algum escritor?

É interessante, não há nenhum escritor hoje que manifeste sobre isso o conhecimento que o Eça de Queirós tinha. O Eça de Queirós é de facto um fora de série. É um tipo superior, o Eça de Queirós. Claro, burguês e tal… O Eça de Queirós tem conhecimento – eu investiguei isso – das grandes escolas de educação física do tempo: a francesa, do Amoros, a alemã, do Jahn, e a sueca, do Ling. E também a do Demenÿ, mais fisiologista. O tipo fala disso n’«Os Maias», é uma coisa extraordinária! Nunca mais um escritor português manifestou o conhecimento que o Eça de Queirós tinha sobre o assunto. Aquela geração de 70! Eu tenho uma admiração muito grande por aquela geração de 70, sabe? O Antero de Quental, o Guerra Junqueiro, o Eça de Queirós, o Ramalho Ortigão…

… o Ramalho Ortigão, de resto, também era um homem ligado ao desporto, era um grande defensor das actividades corporais.

Há um trabalho do Augusto de Castro (ele foi salazarista, mas tem estas coisas engraçadas) no qual ele conta que encontra um dia o Ramalho Ortigão e o Ramalho Ortigão diz-lhe: «Eh pá, endireite-me as costas, vai todo torto». Então o Augusto de Castro termina assim: este homem, o Ramalho Ortigão, passou a vida toda a dizer às pessoas «barriga para dentro e costas direitas». Desse ponto de vista, é uma crónica engraçada do encontro que ele teve com o Ramalho Ortigão.

Mas estava a referir-se à excepcionalidade do Eça de Queirós.

Sim, nunca mais vi igual. Mas, por exemplo, o Gonçalo M. Tavares…

… o Gonçalo M. Tavares foi seu colega na Faculdade de Motricidade Humana, não foi?

Foi meu assistente. Eu era o professor da cadeira de Epistemologia da Motricidade Humana e ele era meu assistente. Aliás, eu fui o orientador da tese de doutoramento dele. Mas quero confessar aqui uma coisa: houve uma altura em que eu reconheci que devia calar-me. Eu voltei-me para ele e disse: a partir de agora, eu calo-me, você faz a tese sozinho e depois traga-me isso para eu ler e para aprender consigo. O Gonçalo M. Tavares é um tipo genial, é um fora de série a escrever, a inventar. Não lhe chamarei nefelibata porque não é isso, mas é um criador, é um criativo. Ele publicou recentemente a tese de doutoramento, «Atlas do Corpo e da Imaginação» [Caminho, Lisboa, 2013, 640 pp.]. Na minha passagem pelo INEF, pelo ISEF e pela FMH, ele e o José Mourinho foram os dois tipos que eu encontrei de maior nível intelectual. São dois tipos geniais, embora o Mourinho não tenha a cultura do Gonçalo M. Tavares.

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Nos seus textos teóricos revela-se um conhecedor e um frequentador da história da literatura, de Píndaro e de Homero aos principais romancistas e poetas do século XX. Chega mesmo a propor, nalguns livros, que a motricidade humana e o desporto assimilem os adquiridos da arte e da literatura…

…absolutamente.

Quer desenvolver um pouco essa ideia?

Vamos começar pela base. Eu considero que uma sociedade tem de preparar pessoas para tudo aquilo que elas nasceram. Por isso eu repito isto: numa sociedade em que eu acredito – veja aquilo que eu digo –, a um campeão do desporto tem de corresponder um campeão da arte. O que significa que na sociedade há espaço para as pessoas desenvolverem aquilo que trazem como sua qualidade primeira, digamos assim. Quando eu entro no INEF, em 1968, já pensava desta maneira. Num livro intitulado «Para uma Nova Dimensão do Desporto» [Direcção Geral do Desporto, Lisboa, 1974, 275 pp.], que reúne um conjunto de artigos meus anteriores ao 25 de Abril, eu já dizia: ciência do movimento humano não, ciência do homem em movimento. A meu ver, nós não somos livres para deixar de lutar, cada qual à sua maneira, por um mundo melhor: mais fraterno, mais justo, mais igual. Eu não posso estar no desporto sem pensar nisto. Para mim, que não acredito em dogmas, olhe, é um dogma, isso para mim é um dogma. Eu sempre fiz do desporto um meio, um factor de criação de uma sociedade nova, de criação de uma sociedade diferente.

É a esse nível que o desporto e a arte se podem enlaçar?

Sim. Porque eu, no fundo, o que quero atingir é outro tipo de sociedade – esse é o meu objectivo primeiro. E as pessoas ainda não descobriram, mas o desporto, com a popularidade toda que tem, é um factor extraordinário, se nós quisermos, de, entre aspas, catequização política e ética. Se nós quisermos, o companheirismo, a fraternidade, o respeito pelos outros e por nós próprios são temas que podem ser tocados em qualquer aula de desporto, coisa que se torna muitas vezes difícil numa aula, por exemplo, de matemática ou de físico-química.

Por que é que, para si, o desporto pode desempenhar de forma relevante esse papel?

Porque é uma actividade humana, não é uma actividade física. Sabe?, o Mourinho é um tipo que me apanhou muito bem. Depois levou as coisas para o lado dele, mas apanhou-me muito bem: «Professor, o senhor ensinou-me a base». E qual é a base? É que aquilo é humano. A diferença entre o Mourinho e os outros é só esta, não há mais nenhuma. Tinha ele 19 anos quando eu lhe digo isto – e ele apanhou logo; outros tipos ouviram e não perceberam, ou não ligaram. Ele apanhou logo: olhem que aquilo não é uma actividade física, é uma actividade humana; habituem-se a descobrir a sociedade do desporto que fazem.

Vou citar um excerto de um texto seu de 1979 [«Prolegómenos a uma Ciência do Homem», in «Filosofia das Actividades Corporais», Compendium, Lisboa, p. 124]: «o desportista do futuro não vai ser aquele que pratica tão-só, mas aquele que compreende a profunda significação das práticas corporais como formas universais de inteligibilidade». Considera que hoje em dia as coisas já são assim?

O nosso tempo está a fazer uma travessia do deserto axiológica. É uma coisa trágica. E por que é que isto acontece? Devido ao neoliberalismo que nos comanda. Quando oiço a antiga ministra das Finanças [Maria Luís Albuquerque]… é um sacerdote (não lhe chamo bispo) da religião neoliberal. E a partir daí todos os diáconos e sacristães começaram a reproduzir e a multiplicar aquilo que ela disse. E durante quantos dias a gente vai ouvir aquela conversa toda? O que é que isso significa? Significa que, do ponto de vista ético e político (bem sei que a política não é a ética, mas a política sem a ética também não vale), estamos mal. Quem nos comanda é, de facto, uma ideologia que tem um objectivo primeiro: tirar ao trabalho para dar ao capital. E com isto respondo, com isto digo tudo.

Vou pegar num conceito que lhe é bastante caro: motricidade humana. O movimento que este conceito traduz é meramente a deslocação no espaço?

Não. É um movimento que expressa, que tem intenção, que tem objectivos. É, como eu costumo dizer, o movimento intencional da transcendência. Para mim, a transcendência é o sentido da vida.

Transcendência no sentido de ir além do estabelecido…

Transcendência do ponto de vista físico, ético, moral, político, etc.. Para mim, o político não está separado, nunca está separado. O social e o político são a base.

Portanto, não usa o conceito de transcendência numa acepção religiosa, mas antes no sentido de uma ultrapassagem de um dado estado de coisas (social, político, físico, moral, etc.).

Como lhe digo, a base é o social e o político, não andamos cá para outra coisa, mesmo que a gente acredite que há outra vida. Eu sou um agnóstico devoto, ou seja, não sei se há Deus, mas vivo como se o conhecesse. Para mim, Cristo e Marx são as duas grandes figuras da história. Cristo porquê? Cristo tem uma passagem no Evangelho [Mateus 25:35, 36 e 40] que eu considero também um corte epistemológico: «Vinde, benditos de meu pai, tinha fome e destes-me de comer, tinha sede e destes-me de beber, estava nu e vestistes-me, estava encarcerado e fostes visitar-me. Todas as vezes que fizestes isso ao vosso irmão mais necessitado a mim o fizestes». O que é que eu depreendi disto? Que Deus está em quem precisa de mim. Não sei se isto está no sacrário, mas o que está no Evangelho é que Deus está em quem precisa de mim. O pobre é uma figura de Deus que está ao meu lado – esta é a grande mensagem do Evangelho. Isto é revolucionário para o tempo, para uma sociedade escravocrata em que tudo o que o César diz e faz é lei. Vem um homem e diz: há um pai e de resto somos todos iguais. Para mim, portanto, Cristo é um revolucionário. A mensagem de Cristo é política. Quanto a Marx, pelo menos tenho que dizer isto no século XXI: ele tem a maior e mais fundamentada crítica que se conhece ao capitalismo. Isso é indiscutível.

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A Faculdade de Motricidade Humana, ex-INEF e ex-ISEF, recebe a designação actual com base numa proposta que apresenta na sua tese de doutoramento. Quer explicar esse processo?

Eu já falava da motricidade humana, da ciência do homem em movimento, antes do 25 de Abril. Está escrito no já referido livro «Para uma Nova Dimensão do Desporto», que é o primeiro livro editado pela Direcção Geral do Desporto depois do 25 de Abril. O livro já estava na mão do director-geral dos desportos antes do 25 de Abril, mas ele não podia publicá-lo porque eu dizia no prefácio que não acreditava na ideologia vigente. Mas é efectivamente na minha tese de doutoramento que eu proponho que seja criado um instituto superior de motricidade humana, ou uma faculdade de motricidade humana. Porquê? Precisamente porque o ISEF ia ter dança, ia ter ergonomia, ia ter reabilitação, ia ter as actividades chamadas físicas para doentes.

O contexto era favorável para acolher a sua proposta?

Da parte do presidente do conselho científico do ISEF, o Melo Barreiros, a proposta foi bem recebida. Difícil foi depois convencer a maioria das pessoas influenciadas pelos mais antigos, que queriam que a faculdade mantivesse a menção à educação física. Há coisa de um ano ou dois, eu ainda perguntei ao Moniz Pereira: ouça lá, qual era o nome que o senhor queria para a FMH? Ele respondeu: Instituto Nacional de Educação Física. Os mais velhos consideram-me uma pessoa inimiga da educação física. (Pausa) Eu via o homem todo – e por isso dizia que o treino estava errado.

Como era o treino?

Estava errado. Andava-se oito dias a correr sem bola. Mas porquê?! Eu dizia uma coisa nas aulas que o José Mourinho apanhou bem: um tipo para aprender a tocar piano toca piano, se anda às voltas ao piano nunca mais aprende a tocar.

O treino físico autonomizado, fora do treino técnico e do treino táctico, não tem para si qualquer sentido.

Absolutamente. Estou a escrever um artigo para «A Bola on line» exactamente sobre isso. É um ser humano que eu trabalho. Se é um ser humano que eu trabalho, o próprio treino tem de ser holístico. A preparação física não tem que ser à parte, a não ser para os doentes, para quem tenha problemas específicos. No desporto, o importante não é a preparação física por si. É ter atenção ao físico, mas ter em primeiro lugar atenção ao todo, à complexidade do humano. Para mim, o treinador do futuro é um homem de cultura, é um intelectual.

Quer dizer, os detractores da motricidade humana, os defensores da educação física, defendem que a preparação física é uma base comum a qualquer desporto e a qualquer pessoa, independentemente das características específicas de cada desporto e de cada pessoa.

Exacto. É a base, começa tudo da mesma maneira. Consideram que a prática do desporto tem como base a preparação física porque se eu tiver uma boa preparação física posso praticar desporto. O mal daquilo é chamar-se aulas de educação física, eu chamava-lhe educação desportiva e aquilo imediatamente tinha outra orientação. Mas ainda não se pode, ainda há muita gente antiga que olha para mim com olhar lateral e suspeitoso. A realidade é que não há educação física, há educação de pessoas no movimento intencional da transcendência. A gente tem que olhar para a pessoa e não para o físico.

Mais uma vez a crítica ao dualismo.

O Descartes dividia a pessoa em duas substâncias. O espírito era trabalhado pelos padres e para o físico nascia então a educação física. Ah!, outra coisa que eu disse que foi mais um escândalo… Dizia-se que a educação física era grega. Ora, a educação física é cartesiana. O grego tinha uma visão diferente do ser humano. Era a música e a ginástica. Eu tinha que ter um corpo belo de acordo com o conceito de belo que eu tinha tido lá no mundo das Ideias. Era assim que pensavam os gregos. Agora a divisão – em que estou a trabalhar duas substâncias, uma para um lado, outra para o outro – é cartesiana. O Descartes é a sombra tutelar da educação física. Ouça: é um escândalo quando eu começo a dizer isto. Eu começo a dizer isto de caras na década de 70. É um escândalo. Mais: eu apareço como inimigo da educação física, da classe dos profissionais da educação física.

Essa reacção é curiosa, porque os seus textos dos finais dos anos 70 ao mesmo tempo que apontam as limitações da educação física também a valorizam do ponto de vista histórico. O seu aparecimento histórico é visto como um progresso, como um avanço em relação ao passado.

Absolutamente. Só que eu tenho logo aquele pecado original, digamos assim, de defender o fim da educação física. Ainda lhe digo mais: quanto mais física for a educação, mais acéfala e mais apolítica.

Cria bestas esplêndidas, como costuma dizer?

Cria bestas esplêndidas. É pouco. É pouco para uma aula de grandes características pedagógicas.

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Como é que olha para a evolução do desporto nacional?

A equipa do Benfica que foi campeã da Europa foi a melhor equipa portuguesa de todos os tempos. Eu estou à vontade para dizer isto porque vejo futebol, que me lembre, desde 1939. Uma equipa cheia de indivíduos que vieram das então colónias: Costa Pereira, moçambicano; Santana, angolano; Águas, angolano; Coluna, moçambicano; Eusébio, moçambicano. Assim de repente são cinco, mas ainda havia mais. Ora, isso faz com que Portugal tenha aquela que foi a melhor equipa do campeonato do mundo de 66. De resto a gente não tem nada. Em regime democrático, a gente tem um Carlos Lopes e um Mamede que o Moniz Pereira pode desenvolver – não me tomem por vaidoso – como resultado da minha luta. Podem faltar-lhe leituras, mas o Moniz Pereira é um artista e isso enriquece-o como treinador. Eu várias vezes lhe disse: o senhor é um grande treinador porque é simultaneamente fadista, porque toca piano.

Acha que isso dá ao treinador uma sensibilidade maior para perceber os atletas?

Uma sensibilidade diferente, claro. Uma sensibilidade para tornar o ambiente agradável e para os atletas o admirarem. Porque o importante na liderança é o atleta admirar o treinador. Na altura em que ele o admira, o treinador pode ser líder.

É importante que o treino seja estimulante para o atleta?

Sim. Veja, por exemplo, o Jorge Jesus, que tem facetas de grande treinador. O treino dele, o ritmo, a intensidade – é extraordinário, eu nunca vi igual e já conheci vários treinadores. Pelo José Maria Pedroto eu tenho um grande respeito porque era um homem da procura. Uma vez ouviu-me fazer uma palestra num congresso de medicina desportiva, onde eu dizia algumas destas coisas, e veio logo ter comigo: ouça, o senhor disse coisas que eu não entendi bem, não é capaz de me esclarecer algumas? Portanto, o que aconteceu no Porto – eu já escrevi isto – não foi só pelos árbitros, não, não. Através do Pedroto, há uma revolução científica, uma revolução ao nível do conhecimento do futebol. Não pensando como eu, o Pedroto merece no entanto o meu respeito, eu tenho que o admirar pela sua ânsia de saber, que não era uma coisa muito vulgar, e o novo Porto nasce daí, não nasce dos árbitros. Eu sou testemunha. Já o Mário Wilson ganhava pelo porreirismo, era muito amigo dos jogadores. O Shéu ainda outro dia me dizia: eu dava a vida por aquele homem, ele é tão bom! O Pedroto podia não ser tão bom, mas era um tipo que queria saber por que é que fazia assim e não fazia de outra maneira.

Como é que vê a nova vaga de treinadores, alguns deles já formados nas universidades?

São indivíduos que passaram pela universidade e que adquiriram saber. Depois, eles e a universidade tiveram influência nos cursos de treinador. É gente que traz um saber novo para o mundo do futebol. O Carlos Queiroz, que acompanhei nos primeiros anos. O José Mourinho… o José Mourinho é um rapaz muito esperto, sabe? É a maneira que encontro de classificá-lo. É um tipo perspicaz, que percebe rapidamente aquilo que a gente lhe diz, que apanha logo. O Mourinho não sabe mais de futebol do que os outros, é mais inteligente do que os outros. É aquilo que me parece. Há outro indivíduo que sabia muito de treino desportivo e que foi meu mestre, David Monge da Silva. Ele sabia mesmo muito do ponto de vista fisiológico. Nesse tempo, eu ia ter com ele para me dar explicações. Tudo junto, eu estou convencido de que não é por acaso que a gente tem bons treinadores, sabe?

E em relação aos praticantes das modalidades, há uma evolução semelhante?

Os próprios jogadores já são diferentes. Há quem leia. Estou a lembrar-me do Luisão…

Mas de que maneira é que acha que começar a ler e a alargar o leque de interesses enriquece os praticantes no plano do jogo?

Na medida em que quando o praticante é mais culto percebe melhor o que faz, compreende melhor as reacções que tem. O que é que o desporto pode ensinar à filosofia? Que ela não seja uma filosofia do ser e do logos, mas que seja uma filosofia do acto e da relação. O desporto diz-nos imediatamente aquilo que filósofos como o Marx, o Martin Buber com o tema do «eu-tu», o Levinas, cada um deles à sua maneira, nos disseram: que o ser é relação. O ser é eminentemente relação – e isso é tão visível no desporto! Ora, saber estas coisas dá-me uma determinada postura diante do desporto, designadamente diante do desporto de alta competição. A cultura é a mola do desenvolvimento. O desporto actual está errado porque é pouco culto. Há ainda muito cartesianismo nele, muito cartesianismo, demais, está muito inquinado pela medicina. A gente precisa da medicina, eu vou ao médico, mas é preciso ter em conta uma frase do Viktor Frankl que eu li uma vez. O Viktor Frankl era um grande neurologista, um judeu, esteve em Auschwitz preso, mas não morreu, não foi lá cremado porque era um grande médico. Os tipos das SS pensaram que ele podia fazer-lhes falta e então ele não continuou na bicha para os fornos crematórios. Safou-se por ser um grande médico. Ele tem uma frase que eu posso dizer aqui e que a sigo inteiramente: nós, médicos, passamos a vida a dizer aos doentes «faça exercício físico», «não coma açúcar», «não coma sal» e esquecemo-nos de lhes dizer que o primeiro factor de saúde é que a vida tenha sentido para nós. É evidente que o exercício físico, ou não comer açúcar, são factores de saúde, mas ser feliz é o primeiro factor de saúde e o médico nunca diz isto às pessoas. A vida ter sentido para nós é o primeiro factor de saúde – e as pessoas não tocam nisto. A gente não tem saúde, unicamente, por não comer isto ou aquilo; a gente também tem saúde, a gente vive, quando acredita no que faz, quando sente que a vida precisa de nós. Um tipo que acredite na vida… veja um tipo como o Álvaro Cunhal, a vida que teve. E morreu com 91 anos. Concordemos ou não com esse sentido, ele tinha o sentido da vida, e esse era o primeiro factor de saúde, ele tinha um compromisso com a vida.

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Retomando a questão da preparação cultural do praticante. O jogo desportivo tem uma lógica específica. Não acha que há uma inteligência específica do futebol, do basquete, do andebol, etc.?

Há, há, há. É aquilo que se chama a inteligência quinestésico-corporal.

Ou seja, uma pessoa pode ser analfabeta, ou pode possuir pouca instrução formal, e ter uma fina inteligência do jogo, das suas dinâmicas, das suas movimentações, das suas lógicas particulares.

No Belenenses, no tempo em que eu por lá andei, havia um tipo que era um fenómeno, um fenómeno, seria hoje um dos melhores jogadores do mundo. Estou a falar do Matateu. Sempre jogou no Belenenses, nunca teve a fama que poderia ter porque era do Belenenses. Estabelecendo uma comparação, o Eusébio tinha outra amplitude de movimentos, estendia-se mais pelo campo todo. O Matateu, a partir da entrada da grande área, eu nunca vi, eu nunca vi! Era um fenómeno. Às vezes, fora de campo, parecia não perceber o que se lhe dizia; em campo era o mais inteligente. Repare: isto acontece muito. Ainda outro dia estive a ler um livro, «Filosofia e Futebol: Troca de Passes» [Editora Sulina, Porto Alegre, 2012, 278 pp.], de uns autores brasileiros [Luiz Rohden, Marco Antonio Azevedo, Celso Cândido de Azambuja] no qual eles citam o caso do argentino Ariel Ortega. O próprio treinador, pelas costas, chamava-lhe El Burrito, mas depois dizia: eu não sei, ele tem que jogar, o tipo nunca percebe o que eu digo, mas é o melhor em campo. De maneira que essa inteligência existe, há indivíduos que nasceram para a prática do futebol, do basquete, etc..

Que desportos é que o atraem, é que o emocionam?

Eu sou um ser humano, também eu sou eu e a minha circunstância. O que me atrai é o futebol, o andebol, o basquetebol, um bocadinho o rugby. Porque quando eu andava lá nas Salésias eu tinha muito contacto com o futebol, com o andebol e com o basquetebol. Eu era muito amigo do Acácio Rosa, que foi o primeiro treinador de andebol do Belenenses e o primeiro seleccionador nacional de andebol. E no Belenenses os que jogavam andebol também jogavam basquete. Por exemplo, eles iam jogar basquete ao Porto num sábado à noite, regressavam num comboio da noite, chegavam cá de manhã e iam jogar andebol de 11. Mas o futebol vem em primeiro lugar. O meu pai levava-me ao futebol, eu vejo futebol, que me lembre, desde 1939, há mais de setenta anos. Em minha casa, eu ia à missa com a minha mãe todos os domingos de manhã e à tarde ia ao futebol com o meu pai. E quando não havia jogo nas Salésias o meu pai ia ao futebol à Tapadinha, ali ao pé, porque o Atlético estava na primeira divisão. Também me lembro dos jogos internacionais serem nas Salésias. Portanto, desde miúdo que eu gosto de futebol.

Quais são as transformações no desporto pelas quais ainda hoje se bate?

O desporto pelo qual eu me bato é um factor de libertação e de emancipação do ser humano. Isto não é conversa, eu ando a dizer isto há uma série de anos. O desporto é o fenómeno cultural de maior magia do mundo contemporâneo, e o fenómeno cultural de maior magia tem que estar ao serviço de um mundo diferente. Eu só acredito no atleta que seja um atleta do músculo, um atleta do espírito e um atleta da política. É por isso que eu digo que as aulas devem ser politizadas, não partidarizadas. Não é obrigar a pessoa a pensar como eu, a ser deste ou daquele partido – eu não estou a defender partido nenhum. Mas há valores sem os quais impossível se torna viver humanamente. Esses valores têm que estar presentes nas aulas, têm que estar presentes no desporto, têm que estar presentes em todo o lugar onde haja um ser humano. Cada um à sua maneira, nós temos que construir um mundo diferente. Eu tenho uma vida inteira a conversar com tipos muito bem feitos do ponto de vista anatomo-fisiológico. É curto, sabe? Nem sequer vivem mais tempo que os outros. A saúde é o ser humano, a saúde é o Homem. Quem encontrou o tal sentido da vida é como quem toma um comprimido que simultaneamente faz bem a tudo. Os médicos nunca falam disto.