|Sugestões culturais

O carácter transformador e até libertador da arte

«O grotesco e o absurdo, muito por protesto...». Museu Graça Morais em Bragança, Vicarte e Imargem em Almada, Margens e Motivos e João Teixeira em Santiago do Cacém e Julião Sarmento em Aveiro.

Graça Morais, «Metamorfoses Da Humanidade», séries VII, 2018, Grafite em papel 42x59,4cm. Exposição «Pinturas e Desenhos (1993/2018)», no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, até 20 setembro
Graça Morais, «Metamorfoses Da Humanidade», séries VII, 2018, Grafite em papel 42x59,4cm. Exposição «Pinturas e Desenhos (1993/2018)», no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, até 20 setembro Créditos / CACGM

O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais[fn]Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. Rua Abílio Beça, n.º 105, 5300-011 Bragança. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 18h30., em Bragança, foi instalado num edifício apalaçado setecentista, conhecido como «Solar dos Vargas», cujo projeto de recuperação e ampliação é da autoria do arquiteto Eduardo Souto Moura. As obras tiveram início em outubro de 2004 e prolongaram-se até junho de 2008, tendo celebrado recentemente as comemorações do seu 12.º aniversário. O Centro Graça Morais tem como missão «sensibilizar e promover o conhecimento da arte contemporânea, nacional e internacional, em geral, e da obra da pintora Graça Morais, em particular», realizando um programa de exposições temporárias, coletivas e individuais, assim como programas pedagógicos, a fim de fidelizar públicos interessados na arte contemporânea e de originar uma relação estreita com a comunidade local. Neste momento, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, encontram-se duas exposições com a curadoria de Jorge da Costa.

Vista da Exposição «Uma Hora Vi» de Túlia Saldanha, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, até 27 setembro Créditos

A exposição «Pinturas e Desenhos (1993/2018)» de Graça Morais1 (Vieiro, Trás-os-Montes, 1948), até 20 setembro, que integra trabalhos e séries de referência no período entre 1983 e 2018, «particularmente um núcleo forte de obras realizadas na década de 1990 (como Maria e Delmina, séries como As Escolhidas ou A Caça) ou ainda do seu trabalho mais recente, Metamorfoses da Humanidade». Num texto para a exposição «Metamorfoses da Humanidade», Valter Hugo Mãe escreveu que «nunca saberemos o suficiente para acabar com o sofrimento. Nunca saberemos o suficiente para curar ausências e mortes, as incompletudes constantes, infinitas, as distâncias, a antiguidade da infância que apenas aumenta, o fim do sentido começador das coisas. O trabalho de Graça Morais é um modo de fúria. Sua elegância é indefesa em relação a certa corrupção que a vida impõe, é indefesa contra a fúria. Talvez a arte seja sobretudo corrupção do real, um modo de obrigar a ver e pensar uma fantasia tremenda. Algo que se faz pelos nervos crescentes, um inelutável compromisso que não se confina aos limites da razão e medra num gesto urgente, mais informal, sem total controlo. No percurso da artista verificamos como contundentes se fazem suas imagens, assumindo o grotesco, o absurdo, muito por protesto, mas também por assunção. Esta arte assume o fracasso perante a natureza torpe, perante o torpe destino de cada um.»2

Outra das exposições no Centro Graça Morais é de Túlia Saldanha3 (Peredo, Macedo de Cavaleiros, 1930-1988), tem como título «Uma Hora Vi», decorre até 27 de setembro e, sobre esta artista, o texto de apresentação refere: «a sua criação artística, que muitas vezes se confunde com a própria vida, alicerça-se em marcas autorais muito vincadas e inscreve-se, de certo modo, num carácter transformador e até libertador. O uso da cor preta e dos objetos queimados ou carbonizados, das caixas e das assemblages em malas de viagem, das pinturas de fundo negro ou as instalações-ambiente construídas em torno de refeições, são alguns dos traços dominantes da sua gramática artística.»

Exposição Internacional Vicarte «Quente-Frio-Quente» Cerâmica e Vidro, na Galeria de Arte Imargem em Almada, até 29 de setembro Créditos

A Galeria de Arte Imargem4, em Almada, um projeto artístico da Imargem-Associação dos Artistas Plásticos do Concelho de Almada, apresenta novamente a Exposição Internacional VICARTE «Quente-Frio-Quente» Cerâmica e Vidro, até 29 de setembro. Esta exposição internacional mostra uma seleção de obras de arte realizadas por alunos, ex-alunos e professores da VICARTE, unidade de investigação da FCT-NOVA, com os artistas Elmire Albohasani, Emma Haase, Fernanda Guerreiro, Kojiro Toyoda, Lola Sementsova, Maria Bezuglaya, Marika Brandt, Nadia Frolova, Robert Wiley, oriundos de vários países, como Finlândia, Irão, Japão, Portugal, Rússia e EUA. A histórica parceria entre a IMARGEM e a VICARTE promete apresentar mais uma vez a primeira linha da produção artística em vidro e cerâmica realizada em Portugal, entre os materiais e técnicas utilizadas encontramos grés, vidro fundido, pasta de vidro, ardósia e vidro de borossilicato trabalhado com chama.

Referir ainda que a associação Imargem tem também disponível para ser visitada, em Almada, a Exposição coletiva dos artistas da Imargem «Pluralidades 2020» na Oficina de Cultura5, até 26 de setembro. Nesta exposição participam 22 artistas da Imargem e dois artistas da Associação Cultural do Seixal – Artes, como associação convidada.

Manuela Marques, «Os Potes», acrílico sobre tela, 80x100cm. «Exposição Coletiva Belas Artes – Associação Margens e Motivos»no Museu Municipal de Santiago do Cacém, até 30 de setembro Créditos

A Margens e Motivos6 é uma associação cultural sem fins lucrativos, tem como objetivos o apoio às artes plásticas e desenvolver ações de carácter cultural, artístico, educativo e social, entre outras, está sediada em Vila Nova de Santo André, concelho de Santiago do Cacém, foi fundada em 2018 e teve como fonte inspiradora o legado do artista Carlos Sena (Kamané), que viveu no litoral alentejano por mais de 43 anos.

O Museu Municipal de Santiago do Cacém apresenta atualmente a «Exposição Coletiva Belas Artes – Associação Margens e Motivos», para ver até 30 de setembro. Nesta exposição participam os artistas plásticos: Salvado Canaria, Ana Paula Angélico, Vera Touslesvents, Aires Oliveira Andrade, V. Pinto, Graça Viveiro, Vitor Oliveira, Ivo Pereira, Manuela Marques, Ana Paula Palhas, Zel Torres, Nídia Rejane Urpia, Silvia Parreira, Duartina Brissos e Paulo Botelho.

Ainda em Santiago do Cacém, no Auditório Municipal António Chainho7, poderá ver a exposição de pintura em madeira «Woods Got Colors» de João Teixeira Aka Bruto, até 27 de setembro. Este projeto artístico pretende homenagear, através da pintura, diversas personagens da história portuguesa, desde Luís Vaz de Camões a Salgueiro Maia. João Teixeira é formado em Artes e Design e no seu percurso inclui diversos projetos individuais e de cooperação com outros artistas.

Julião Sarmento, «Dias de escuro e de luz - II (jarro)», 1990. Exposição «No Brilho da Pele» de Julião Sarmento, coleção da Fundação de Serralves, no Museu de Aveiro/Santa Joana, até 27 de setembro Créditos

Na sequência de mais uma exposição no âmbito do programa de apresentação da coleção da Fundação de Serralves por vários espaços e regiões do país, é apresentada no Museu de Aveiro / Santa Joana8, a exposição «No Brilho da Pele» com o trabalho de Julião Sarmento9 (Lisboa, 1948), comissariada por Joana Valsassina, até 27 de Setembro. Nesta exposição, Julião Sarmento apresenta uma seleção de trabalhos que se aproximam de temas como o desejo, o voyeurismo e a violência, incluindo obras realizadas desde a década de 1970 até à atualidade, em diferentes linguagens como a pintura, a escultura, o desenho, a fotografia e a instalação. O seu trabalho assenta «num território ambíguo de sedução e transgressão, a obra de Julião Sarmento sedimenta-se sobre si própria, tecendo uma rede de referências ao cinema, à literatura, à cultura popular, a episódios do quotidiano e, continuamente, à própria obra.»


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AE 1990)

  • 1. Graça Morais concluiu o Curso Superior de Pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, no período entre 1974 e 2018, realizou e participou em diversas exposições individuais e coletivas, no país e estrangeiro, destacando-se a sua presença na 17.ª Bienal de São Paulo(1983) e a exposição La Violence et la Grâce, na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris (2017). Foi membro do Grupo de intervenção artística «Puzzle» (1975-1981)
  • 2. Valter Hugo Mãe, «Graça Morais luta», in Jornal de Letras, Artes e Ideias n.º 1278 (25 de setembro/8 de outubro 2019), p. 35.
  • 3. Túlia Saldanha foi uma das artistas portuguesas pioneiras nas disciplinas da performance, da instalação e da criação de ambientes, desenvolvendo ainda trabalhos em desenho e pintura. A sua obra desenvolve-se intensamente entre os anos de 1967 e 1988 e é caraterizada por grande experimentalismo. Frequentou o meio artístico no Círculo de Arte Plásticas de Coimbra (CAPC) e teve uma relação de proximidade com o escultor alemão Robert Schad, com Ernesto de Sousa e com Wolf Vostell.
  • 4. Galeria de Arte Imargem. Rua Torcato José Clavine, n.º19 Piso 3, 2800-710 Almada. Horário: segunda-feira, das 10h às 14h; quarta-feira, das 10h às 16h; e quinta-feira, das 10h às 13h.
  • 5. Oficina de Cultura. Avenida D. Nuno Álvares Pereira, n.º 14M, 2800-174 Almada. Horário: 10h30 às 13.h e das 14h às 18h, de terça-feira a sábado.
  • 6. Margens e Motivos - Associação Cultural. Coletiva C4, Bairro Azul, 7500-100, Vila Nova de Santo André. A associação Margens e Motivos tem na sua sede uma exposição permanente com obras dos artistas associados.
  • 7. Auditório Municipal António Chainho. Rua Eng. Costa Serrão, n.º 38, Santiago do Cacém. Horário: todos os dias, das 12h às 23h59.
  • 8. Museu de Aveiro. Av. de Santa Joana, 3810-329 Aveiro. Horário: terça-feira a domingo, das 10h às 12h30 e das 13h30 às 18h. O Museu de Aveiro está instalado no antigo Convento de Jesus da Ordem Dominicana feminina, do século XV. Foi instalado no Convento de Jesus em 1911, tendo também disponível para ser visitada uma exposição permanente com um espólio significativo de obras de pintura, escultura, talha, azulejo ou ourivesaria.
  • 9. Julião Sarmento, além de artista plástico, trabalhou na Secretaria de Estado da Cultura em 1975 e desenvolveu diversos projetos como curador. É «um artista com cinco décadas de carreira, e talvez como nenhum outro em Portugal, com um percurso internacional reconhecido». Foram diversas as instituições internacionais de arte que organizaram exposições com a sua obra, destacando-se o Witte de With, Center for Contemporary Art (Roterdão, 1991), o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia (Madrid, 1999), a Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 1993, 2000), a Tate Modern, (Londres, 2010) e o Museu de Serralves, (Porto, 1992, 2012).

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