|Manuel Augusto Araújo

A hipocrisia nos seus labirintos

A trupe mercenária ao serviço do consenso neoliberal mente indecorosamente quando confunde aleivosamente «direito internacional» e «mundo baseado em regras», porque o primeiro soçobra e é submergido pelo segundo.

«Labirinto», de Bartolomeu Cid dos Santos
«Labirinto», de Bartolomeu Cid dos SantosCréditos

É notável o farisaísmo do discurso do recém e parcialmente arrependido Mark Carney em Davos,  que refere que «sabíamos que a narrativa da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes furtar-se-iam a ela quando lhes conviesse. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era aplicado com um rigor variável, consoante a identidade do acusado ou da vítima», sublinhando que «países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos a ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios, beneficiámos da sua previsibilidade. E, por causa disso, pudemos prosseguir políticas externas baseadas em valores sob a sua protecção».

O que é dito é que os países na órbita imperial dos EUA, como o Canadá e todos os países do Jardim do Borrell, aderiram, elogiaram e beneficiaram da brutal hipocrisia da «ordem internacional baseada em regras» que torpedeou o Direito Internacional que emana de instituições como a Organização das Nações Unidas e outras relacionadas. É a resultante da reorganização do mundo em 1945, na sequência da Segunda Guerra Mundial, em que houve um derrotado, a Alemanha nazi e os seus aliados – Itália e Japão –, e vários vencedores, com concepções políticas opostas: os EUA os seus aliados na Europa ocidental, em particular o Reino Unido e a União Soviética). Quando a União Soviética implode, o Direito Internacional começa imediatamente a ser subvertido pelas regras impostas pela hegemonia norte-americana, a chamada pax americana, que o tem sistemática e permanentemente destruído enquanto regulador das relações entre Estados soberanos e organizações internacionais que tinham de algum modo assegurado uma paz ainda que frágil, a estabilidade, a cooperação e uma segurança jurídica possível.  

A trupe mercenária ao serviço do consenso neoliberal mente indecorosamente quando confunde aleivosamente «direito internacional» e «mundo baseado em regras», porque o primeiro soçobra e é submergido pelo segundo. Esses submetidos, ou  mesmo vendidos, ao imperialismo norte-americano, alguns até pagos directamente por ele, chegam ao descaramento de afirmar que o «direito internacional» existe por via da hegemonia dos EUA, que é quem na prática progressivamente o tem aniquilado e tenta afundar definitivamente. Essa gente são os alcouceiros que, com contumácia, propalam mentiras para que a realidade se submeta aos ditames do pensamento dominante, contaminando o sentido crítico. Têm presença assegurada e vastos tempos de antena nos meios da comunicação social mercenária pelo que burlam sistematicamente e sem contraditório, miscigenando dois conceitos completamente opostos, «direito internacional» e «mundo baseado em regras». Não são nem nunca serão a mesma coisa. As «regras» são a lei do mais forte, as imposições do polícia do mundo em que se vive, sobretudo desde 1991. Como é habitual e é uma quase normalidade, adulteram a efectividade da realidade:  o facto de o «direito internacional» ser contrário aos interesses dos EUA, razão pela qual o foram corroendo com as «regras». Muito menos é verdade, o que para eles é completamente indiferente, que alguma vez os EUA fossem defensores do «direito internacional». Só o utilizavam quando servia os seus interesses, quando não eram potência hegemónica e ainda eram travados pela URSS, e sempre que podiam encontravam processos de o contornar, muitas das vezes de forma violenta,  seja directa ou indirectamente, através dos seus sicários. Lembre-se que os EUA são  responsáveis por cerca de 20 a 30 milhões de mortes desde 19451 e isto sem contar com os efeitos mortíferos das sanções económicas: mais de 5 milhões de mortos só nas décadas desde 2010. 

Carney descobre agora, sem apontar directamente ao seu principal actor, que o mundo das «regras» em que se vive desde a queda do Muro de Berlim é uma «ficção» que foi «útil» para todos aqueles que «aderiram, elogiaram, e beneficiaram da sua protecção». Pode-se legitimamente concluir que, se era tudo  mentira, essa gente que nos governou nas últimas décadas, que ainda nos governa, era e é toda hipócrita. Mark Carney ajoelha-se no confessionário, faz mea culpa e aponta «as grandes potências que começaram a usar a integração económica como arma. As tarifas como alavanca.

«Carney descobre agora, sem apontar directamente ao seu principal actor, que o mundo das "regras" em que se vive desde a queda do Muro de Berlim é uma "ficção" que foi "útil" para todos aqueles que "aderiram, elogiaram, e beneficiaram da sua protecção".»

 

As infra-estruturas financeiras como meio de coerção. As cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar. Não se pode viver dentro da mentira do benefício mútuo através da integração, quando é essa mesma integração que se torna a fonte da sua subordinação». Relembre-se que este Mark Carney é o mesmo que, entre outros silêncios comprometedores, não teve uma palavra de condenação do sequestro de Maduro, que foi banqueiro, que esteve 13 anos na Goldman Sachs antes de ser primeiro-ministro do Canadá, que congelou 5 mil milhões de dólares do Estado venezuelano durante a pandemia do Covid-19, quando era gestor do Banco de Inglaterra; que é um assumido neoliberal que ainda há uns dias ponderou aceitar o convite de Donald Trump para o «Conselho de Paz» em Gaza, ao lado de vários criminosos como Tony Blair e Marco Rubio, o recuperado do negócio do narcotráfico ramo em que trabalhou com seu cunhado Orlando Cicilia um reconhecido narcotraficante2, mais um arco-íris de políticos e empresários defensores desse «mundo baseado em regras» comandado por um presidente dos EUA que tem comportamentos dignos de um gangster, que está à frente de um império em decadência que tem um brutal poder militar.

No Jardim do Borrell, os activos palradores deslumbraram-se com o discurso de Carney, com este a meter a mão na consciência para se confessar à espera de um perdão de quem não colhe flores nesse quintal explorado pelas potências de média e pequena dimensão que orbitam em volta do sol enganador dos EUA. O truque de Carney, tão apreciado por todos os que carregam a canga dos «valores ocidentais», é não designar claramente a única potência, os Estados Unidos, que usa a integração económica como arma e as tarifas como alavanca. Os outros países, União Europeia, Canadá, Austrália, são sujeitos às imposições norte-americanas que os trata com arrogante desprezo, Os BRICS, resistindo e rejeitando as retaliações, vão sofrendo com as sanções que lhe são impostas.

O discurso de Carney, que muitos dentro do mesmo labirinto, do qual não conseguem sair, consideram revolucionário por referir que as «instituições multilaterais» que procuram entricheirar-se no que ainda subsiste de «direito internacional» estão sob ameaça, é tão «revolucionário» que não se atreve a culpabilizar directamente os  EUA por violarem descaradamente a Carta das Nações Unidas, por cometerem todos os abusos, todas as mudanças de regime, todas as operações secretas, todos os bombardeamentos, como na Jugoslávia, Líbia, Iraque, Irão e muitos outros, toda a cumplicidade nos crimes de Israel em Gaza. Sobressalta-se, sobressaltam-se agora e redescobrem o «direito internacional» porque um dos seus territórios, a Gronelândia, estar a ser ameaçado. Não tem limites a doblez dessa gente, até agora cúmplice de todos os desmandos enquanto eram seus beneficiários, bem expressa no cínico revolucionarismo do discurso desse banqueiro, agora primeiro-ministro do Canadá, que estava com o seu país, os seus aliados da NATO e UE a apoiar as inúmeras sanções dos EUA contra  a «soberania, a «autonomia» dos povos que não tinham a solidariedade dessa tropa de vassalos sem princípios.   

«O truque de Carney, tão apreciado por todos os que carregam a canga dos "valores ocidentais", é não designar claramente a única potência, os Estados Unidos, que usa a integração económica como arma e as tarifas como alavanca.»

 

O problema do diagnóstico de Carney é que ele, dentro desse regime que nos governa e de que faz intrinsecamente parte, não tem qualquer alternativa e solução para apresentar. É o discurso de quem está dentro de um labirinto onde não encontra um caminho para a saída porque, como todos os pares que o aplaudiram, continua refém das chantagens do imperialismo norte-americano, das proclamações das coligações das vontades e de todo o imenso catálogo que, dito pelo próprio Carney, é «aplicado com um rigor variável, consoante a identidade do acusado e da vítima». Labirinto esse que acaba por ser um espaço de conforto e de defesa nos impasses que encontra, impossibilitando-os de libertar-se do Minotauro.

O diagnóstico de Carney é certeiro. Pouco ou muito o diferencia dos discursos marxistas que muitos Partidos Comunistas fazem há muitos e muitos anos e que sempre foram subalternizados ou ocultados. O que os diferencia é que Carney e os seus comparsas continuam reféns das chantagens do imperialismo norte-americano  a que sempre aderiram por dele beneficiarem. Os exemplos são tão extensos e evidentes que nem sequer é necessário referi-los, são impartíveis do quotidiano. A grande ilusão, ou o que nos querem fazer passar por grande ilusão, é que estamos a assistir a uma doutrina Trump como qualquer coisa nova ou inesperada, quando se trata apenas de uma sequência, mais brutal e agressiva mas até lógica, da desde sempre doutrina do imperialismo norte-americano de Reagan a Biden, passando por Clinton ou Obama. As únicas alterações são as provocadas pelas contingências das crises do capitalismo, que os seus arautos difundem ou mesmo enunciam nos meios da comunicação social e nas redes sociais. Eles tornaram-se mais audíveis dado o estado da arte, mas estiveram e estão sempre a trabalhar para o mesmo objectivo: fazer sobreviver o neoliberalismo recorrendo tanto aos neo-fascistas, como aos demoliberais, aos socialistas-democráticos, aos socialistas em liberdade e mesmo às esquerdas vacilantes, tão acarinhadas pelas direitas. O único objectivo é a sobrevivência do capitalismo, hoje como ontem. 

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