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Dino e o outro hino que Portugal cantaria

Tal como o músico, não queremos guerras, mas há uma luta a fazer neste País, a luta contra os «canhões» do racismo, das desigualdades, da intolerância e da injustiça social.

Créditos / Dino D'Santiago

«Vai mas é para a tua terra», «Pode ser que encontres uma vaga nas obras», «Muda o hino de Cabo Verde», «Não gostas do hino? Muda de país».

Estas insuportáveis frases são apenas algumas das centenas que lemos e que têm como destinatário Dino D'Santiago, multi-premiado músico, cúmplice artístico de Madonna quando a cantora norte-americana vivia em Portugal, criador do projecto de sucesso «Lisboa Criola», assente nas ideias de cruzamentos, mistura, miscigenação, do encontro entre as culturas portuguesa e africanas.

Um músico-estrela respeitado e aclamado de forma transversal na sociedade portuguesa, dos bairros sociais ao poder político, durante o tempo em que, no fundo, - preconceito e leitura minhas – foi reinventando uma espécie de lusotropicalismo urbano-lisboeta no século XXI.

Mas a linguagem discriminatória, racista e abusiva de que Dino D'Santiago tem sido alvo nos últimos tempos parece que o faz passar de «bestial a besta». Porquê?

«Xé menino não fala política», é o verso de uma música do angolano Waldemar Bastos. Dizia a canção que, enquanto a avó «Velha Chica» trabalhava para o patrão, as crianças perguntavam-lhe qual a razão da pobreza e do sofrimento de alguns, e a resposta da senhora surgia assim: «Xé menino, não fala política…não fala política».

Dino D'Santiago, músico português, de Quarteira, com origens familiares em Cabo Verde, está a ser alvo de ódio, insultos e ofensas porque se atreveu a «falar política».

Enquanto utilizava o microfone apenas para cantar e fazer música de fusão era «bestial». Mas Dino começou a usar o microfone como amplificador para outras causas, outras realidades, outras dores. As críticas, ferozes, começaram com a sua participação na Festa do Avante em 2022. Não lhe deram tréguas por se ter juntado à festa organizada pelos comunistas portugueses quando estes foram eleitos, por amplo consenso, saco de pancada nacional. Nessa altura, Dino contou que até na sua família o aconselharam a não ir ao Avante. Os mais velhos, lá está, que viveram outros tempos, tentam avisar e proteger os mais jovens, como naquela canção: «menino, não fala política».

Mas, Dino continuou a falar política. Utiliza o microfone, as redes sociais, o espaço mediático que conquistou para se posicionar, para falar sobre pobreza, exclusão e desigualdades, sobre crescer em bairros de lata, para denunciar o preconceito e o racismo na sociedade portuguesa, para tornar visível o encarceramento desproporcional de jovens negros e ciganos no sistema judicial português, para partilhar as suas reflexões e visões do país, para desafiar relações de poder. Fê-lo também em horário nobre na televisão pública portuguesa.

E isso tem um preço. Desafiar uma certa ordem implícita, questionar a norma vigente, tem um preço. E um preço ainda mais alto porque Dino é negro e uma parte de Portugal continua a ver uma pessoa negra como sendo de outro lugar, como não tendo legitimidade para falar sobre certos assuntos. Como o hino nacional.

Sobre esta recente polémica, Dino D'Santiago, diga-se, não cometeu nenhuma originalidade. Como tem sido lembrado por estes dias, o escritor e advogado António Alçada Baptista, na qualidade de Comissário das Comemorações do Dia de Portugal, defendeu em 1997: «A própria letra do hino nacional não me parece adequada à nossa civilização, não pode ter nenhum eco no coração da juventude evocar a vitalidade da Pátria, gritando “às armas” e propondo-nos “marchar contra os canhões”». Também Alçada Baptista recebeu, é certo, contestação à sua proposta mas, no entanto, ninguém o terá mandado para outra terra.

Em tempos idos, Fernando Pessoa, incontestável símbolo nacional, manifestou o seu desprezo pela conjugação entre o vermelho e verde da bandeira nacional, outro símbolo, à qual se referiu nestes termos: «ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional –  trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor». Símbolos nacionais sempre foram, assim, questionados por cidadãos interessados em lançar o debate sobre os mesmos. Mas nem todos os cidadãos portugueses são alvos de escrutínio cruel e linguagem racista.

Sobre o hino, Dino D'Santiago formulou a sua ideia da seguinte forma: «Este nosso tempo, já é um tempo de termos um hino menos bélico, que incentive menos às guerras. Não gritemos mais “às armas, às armas” e não marchemos mais “contra os canhões”. Os nossos filhos não precisam disso e a nossa emancipação não pode ser territorial. Que seja mental, espiritual, com amor».

«Desafiar uma certa ordem implícita, questionar a norma vigente, tem um preço. E um preço ainda mais alto porque Dino é negro e uma parte de Portugal continua a ver uma pessoa negra como sendo de outro lugar, como não tendo legitimidade para falar sobre certos assuntos. Como o hino nacional.»

A proposta é de Paz, mas foi recebida com guerra, com palavras ofensivas e violentas. O problema aqui não foi, por isso, querer mudar um símbolo nacional (outros, como vimos, já defenderam o mesmo sem grande celeuma), o problema, neste caso, é quem o sugeriu: um homem negro.

E é precisamente na forma de «acolhimento» da sugestão do músico que reside a questão principal. Será que, uma parte da nossa apregoada «identidade nacional», mais do que no hino, não se encontra bem refletida nas reacções contra o músico Dino D'Santiago?

Como se entende pelo nível de «argumentação», grande parte dos que o criticam de forma insultuosa e violenta fazem-no porque sentem que o músico não tem legitimidade para sugerir mudar o hino porque, sejamos honestos, não o consideram português. Parte da população portuguesa continua a ver a sua cor de pele e as suas origens familiares como factor de exclusão para o debate sobre o hino. É nestas descaradas «subtilezas» que, também, se manifesta o racismo em Portugal. Um músico bem-amado que passa a negro «ingrato» passível de ser recambiado para outro lugar a partir do momento em que questiona.

Enquanto cidadã portuguesa, apesar de não me identificar com a letra do hino, não sinto o apelo imediato ou prioritário da sua mudança, mas compreendo e vejo como necessário e, até reconfortante, que personalidades do meu país queiram pensar sobre o assunto e aproveitem a plataforma de que dispõe para, corajosamente, relançar este debate. Agradeço, por isso, que portugueses como Alçada Baptista em 1997, Dino D'Santiago em 2023 e muitos outros pelo meio nos façam pensar sobre assuntos que temos como «arrumados», resolvidos, sacralizados. Porque, ao mesmo tempo, fazem-nos reflectir sobre uma «identidade nacional» tão frágil e presa por arames que é capaz de atacar de forma vil quem propõe um repensar, uma reflexão sobre um «símbolo nacional» num sentido pacifista.

Acredito que Dino D'Santiago desafia a criação de um novo hino nacional porque imaginará, também, a criação de uma nova (e mais justa e mais amorosa) pátria. A forma como a sua proposta está a ser recebida pela opinião pública mostra-nos o longo caminho que temos a percorrer neste desígnio porque, ainda assim, mudar um hino será menos difícil do que mudar e emancipar a mentalidade de uma nação (como ele também, e bem, propõe).

Tal como o músico não queremos guerras, mas há uma luta a fazer neste país, a luta contra os «canhões» do racismo, das desigualdades, da intolerância e da injustiça social. E, nessa luta, as palavras e «a cantiga» de Dino D'Santiago continuarão a ser o que têm sido até aqui: uma arma. Obrigada, Dino!

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