Em causa estão comentários proferidos por Marco Serronha enquanto comentador militar da CNN Portugal, nos quais o responsável propôs o uso de armas nucleares contra o Irão. De acordo com a denúncia, a que o AbrilAbril teve acesso, Serronha afirmou que «mandar três bombas atómicas no sítio certo e a guerra acaba de um dia para o outro» e que o procedimento deveria ser repetido «a cada cinco anos», tendo ainda qualificado como «positivos para os EUA» os ataques deliberados contra civis iranianos, «porque mostram que o regime não consegue defender os seus cidadãos».
A APJD considera que estas declarações configuram uma violação «flagrante e simultânea» dos princípios fundamentais da Cruz Vermelha, «nomeadamente os princípios da Humanidade, Imparcialidade, Neutralidade e Independência», e constituem uma apologia de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, «incompatível com o exercício de funções numa organização humanitária de referência mundial».
Segundo a associação, a questão já havia sido denunciada à Cruz Vermelha Portuguesa, mas a instituição «nada fez, limitando-se a desvalorizar o comportamento do seu vice-presidente», que tutela a área da Emergência, «optando pelo silêncio institucional». Apesar disso, reconhece, as afirmações foram proferidas na CNN Portugal «sem qualquer distinção entre a sua função de comentador militar e a sua função de dirigente de uma organização humanitária».
Considerando que o «silêncio e a inacção da Cruz Vermelha Portuguesa são inadmissíveis», a APJD entendeu submeter a denúncia ao Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICR, no original), solicitando a abertura de um processo de averiguação sobre o comportamento público do tenente-general Marco Serronha. A associação reclama ainda que o CICR determine a incompatibilidade da manutenção do tenente-general nos quadros da organização e exija à Cruz Vermelha Portuguesa, liderada por António Saraiva, «uma posição pública de demarcação e a adopção de medidas disciplinares».
A APJD recorda que a proposta de uso de armas nucleares «constitui uma apologia de crimes de guerra e crimes contra a humanidade», e viola o artigo 6.º do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. Admite, ao mesmo tempo, que a «ausência de qualquer ressalva ética ou humanitária» nas declarações de Marco Serronha «demonstra uma desconexão total com a missão da Cruz Vermelha».
Neste sentido, insiste que «a presença de uma figura belicista e sectária na direcção de uma organização humanitária como a Cruz Vermelha compromete a confiança de todas as partes em conflito», salientando que «a inacção institucional não é neutralidade, mas cumplicidade com a violência e o horror».
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