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Protestos contra a fraude eleitoral nas Honduras voltam às ruas, uma morte confirmada

Manifestantes responderam ao apelo da Aliança da Oposição que deu início a uma semana de mobilização nacional, entre 20 e 27 de Janeiro, contra a «fraude eleitoral» –  apesar do forte dispositivo policial.

Manifestantes cortam estrada e estendem uma faixa com a bandeira das Honduras, durante a greve nacional iniciada no dia 20 de Janeiro
Manifestantes cortam estrada e estendem uma faixa com a bandeira das Honduras, durante a greve nacional iniciada no dia 20 de JaneiroCréditos / El Libertador./Facebook

Nas Honduras «continuam os protestos contra a anunciada tomada de posse do presidente do país, Juan Orlando Hernandez, cuja reeleição contestam» apesar dos «milhares de militares e polícias» colocados na rua pelo Governo desde sexta-feira passada, «para dissuadir os manifestantes» – segundo a AFP.

Os apoiantes da Aliança da Oposição contra a Ditadura saíram à rua no sábado, dia 20, em defesa do reconhecimento da vitória do seu candidato, Salvador Nasralla, nas passadas eleições de 26 de Novembro, em protesto contra a «fraude eleitoral» nessas eleições e contra o clima de violência e terror desencadeado para conter a indignação popular.

Os manifestantes bloquearam diversas estradas com veículos, pedras e pneus queimados. Na capital, Tegucigalpa, tentaram bloquear as saídas da cidade. Inicialmente dispersos pelo dispositivo policial, regressaram pouco depois. Atacados com bombas de gases lacrimógenos responderam atirando pedras, reagrupando-se e sendo reatacados sem tréguas de parte a parte, como descreve o correspondente local do colombiano El Espectador.

Declarações à AFP do porta-voz da Força de Segurança Interinstitucional Nacional (FUSINA), que agrupa polícias, militares e oficiais de justiça, em como os bloqueios de estrada estariam a ser removidos pelas autoridades «de forma pacífica» são desmentidas pelas notícias e imagens veiculadas pela imprensa local e estrangeira. 

A imagem de uma morte que se tornou na imagem das Honduras

Anselmo Villareal foi assassinado pela polícia na localidade de Sabá, departamento de Colón, no nordeste do país. Depois de recorrer sem êxito a gás lacrimogéneo para remover as barricadas os polícias dispararam directamente sobre os manifestantes «à altura da cabeça».

O idoso atravessava a estrada, quando foi atingido. «Ajuda-me, companheiro» – foram as suas últimas palavras antes de tombar, tendo morrido a caminho do hospital, segundo o ConfidencialHN.

Gilda Silvestrucci, correspondente nas Honduras do canal Telesur e da TVGlobo, afirma que Villareal morreu já no hospital, o qual acusa de não dispor do necessário para o conseguir salvar.

Outra fonte, o El Libertador, denuncia o assassinato como tendo sido cometido pelo esquadrão especial anti-motim (os «Cobras»), ao verem-se forçados a recuar face aos manifestantes.

Antes desta morte, a polícia reconhecia apenas a existência de três mortos nas manifestações que desde Novembro assolam as Honduras em protesto contra a «fraude eleitoral». No entanto o reconhecidamente imparcial ConfidencialHN, que noticiou o crime, contabiliza 35 vítimas mortais causadas pela repressão policial, no mesmo período.

A imagem de Anselmo Villareal, sangrando e tombando lentamente, tornou-se viral e levou o artista Daniel Valladares, que tem acompanhado graficamente os protestos dos hondurenhos e denunciado a violência da repressão policial, a recriá-la num desenho que, como refere Gilda Silvestrucci, «é a imagem do que se passa no nosso país. Pouco a pouco vai caindo, sangrando-se mas, dessa tragédia, fortalecer-se-á um processo de mudança para o bem de todos e todas».

Organizações internacionais e oposição denunciam violações dos Direitos Humanos. Os protestos vão prosseguir.

O Alto-comissário das Nações Unidas para as Honduras (OACNUDH-Oficina del Alto Comisionado de las Naciones Unidas para los Derechos Humanos en Honduras) pediu às autoridades uma investigação à morte de Anselmo Villareal e medidas para prevenir a violência. Mostrou-se igualmente preocupado com a liberdade de expressão no país e, em particular, com os ferimentos infligidos por agentes da polícia ao correspondente da iraniana HispanTV, Dassaev Aguilar, quando cobria os protestos, segundo a Telesur.

O ex-presidente Manuel Zelaya, deposto em 2009 por um golpe palaciano e hoje um dos líderes da oposição democrática, alertou «militares e polícias que violam os DDHH» para que «o protesto é um direito do povo e que impedi-lo é um delito pelo qual poderão em breve vir a ser julgados» – é referido na mesma notícia.

Breve histórico

A Aliança da Oposição (AO) e as suas principais figuras – Manuel Zelaya e Salvador Nasralla, candidato «derrotado» – apelaram a uma «mobilização nacional» consecutiva entre 20 e 27 de Janeiro, data para a qual o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) tem anunciada a investidura do ex-presidente Juan Orlando Hernández, candidato do Partido Nacional, de direita, acusado de pretender eternizar-se no poder mediante uma «fraude eleitoral».

Nas eleições presidenciais nas Honduras, em 26 de Novembro de 2017, a publicação dos resultados parciais, quando estavam contados 57% dos votos, dava uma vantagem clara ao candidato da oposição, mas, dois dias volvidos, depois de alguns «problemas técnicos» na página do TSE, já era Orlando Hernández que estava à frente – e nunca mais deixou de estar.

Em 17 de Dezembro o TSE declarou Hernández como presidente eleito, depois de divulgar os «resultados oficiais», de acordo com os quais Juan Orlando Hernández obteve 42,95% dos votos e Salvador Nasralla 41,42%.

Em 19 de Janeiro o TSE entregou a Juan Orlando Hernández as credenciais para um novo mandato de quatro anos na Presidência das Honduras e marcou para 27 de Janeiro a tomada de posse.

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