Sem grande resistência e como um «remake acelerado da era Menem» – refere o Tiempo Argentino –, o executivo de La Libertad Avanza prossegue com o desmantelamento dos Correios, algo que se sente com mais intensidade no chamado «interior» do país, onde o serviço é essencial e se traduz na «imagem icónica de terras isoladas».
Num contexto marcado pelo encerramento de cerca de 300 instalações, incluindo escritórios e agências, e a destruição de mais de 7000 postos de trabalho, várias localidades estão a repensar os seus métodos de comunicação, com custos mais elevados para os governos locais, já com recursos insuficientes.
As populações são as mais prejudicadas, sendo que, nalguns sítios, os residentes são agora obrigados a deslocar-se mais de 100 quilómetros para enviar algo tão simples como uma carta registada.
«É a mesma situação que ocorreu nos anos 90, antes da privatização dos Correios no governo de Menem, quando o serviço foi “concessionado” às empresas de Macri. É exactamente a mesma coisa, só que agora é mais agressiva. A decisão política é muito forte, profunda», explicou ao Tiempo Argentino um dirigente regional da Associação Argentina dos Trabalhadores da Comunicação (AATRAC), que preferiu manter o anonimato.
«Despedimentos elegantes»: trabalhadores pressionados a aceitar reforma antecipada
O representante sindical reconheceu que a grande maioria dos trabalhadores que decidiram abandonar a empresa optou pela reforma voluntária: «Foram pressionados. Chamamos-lhes “despedimentos elegantes”, porque os nossos colegas assustam-se com a ideia de que os Correios desapareçam.»
Tal como no resto do sector público, os salários foram praticamente congelados. Hoje, o carteiro «médio» ganha cerca de 900 mil pesos (529 euros). «A situação é crítica; os colegas estão desesperados para chegar ao fim do mês. Então, o governo oferece uma quantidade tentadora de dinheiro e o sistema postal é dizimado. Mas esse dinheiro não vai salvar ninguém, porque é impossível começar qualquer coisa hoje em dia. Muitas pessoas reformaram-se antecipadamente e depois pediram para ser recontratadas», explicou o dirigente da AATRAC.
«Redução de pessoal» em todo o país
Embora os programas de reformas voluntárias sejam a ferramenta mais «eficaz», os Correios argentinos também têm recorrido aos despedimentos selectivos, notificando diversos trabalhadores de que a empresa se vê «obrigada» a rescindir os contratos de trabalho, «devido à reestruturação e reorganização interna».
A Federação dos Trabalhadores dos Correios e das Telecomunicações (FOECYT) confirmou que o processo de redução de pessoal está a afectar todo o país. De acordo com um levantamento interno do sindicato, houve encerramentos de instalações em 13 províncias, estando outros sob «avaliação» ou agendados para os próximos meses. AATRAC e FOECYT estimam que o governo prevê fechar 900 das 1400 agências de serviço postal.
Habitantes obrigados a fazer grandes distâncias
O relatório do sindicato documenta algumas «situações extremas», como em Catamarca, onde o encerramento de estações de correio em determinadas cidades obriga os utentes a percorrerem entre 70 a 103 quilómetros para aceder a outra agência. Em Maio deste ano, restavam apenas 89 trabalhadores dos Correios em Catamarca, 49 na capital e os restantes no interior. Há três anos, eram 165.
Em Villa del Dique – Calamuchita, Córdoba – o chefe da sucursal, Julio Ernesto Tito Ramírez, que ali trabalhou muitos anos, contou ao Tiempo Argentino que, desde o encerramento da agência, os moradores têm de se deslocar a Villa Rumipal para tratar de coisas que antes faziam a poucos quarteirões de distância. «O mais triste é que isto está a acontecer em todas as cidades», disse.
A Patagónia, devido à sua distância, geografia e menor densidade populacional, é a região que mais sofre com o encerramento das estações de correio. E é também a que mais protesta, como aconteceu em Cholila ou também em Campo Grande (província de Rio Negro), onde o presidente da Câmara, Daniel Hernández, questionou o facto de o município nunca ter sido notificado oficialmente sobre o encerramento da agência de Villa Manzano. Soube disso pelos trabalhadores.
Desde então, os habitantes de Villa Manzano, Sargento Vidal, San Isidro e El Labrador têm de se deslocar até Cinco Saltos para tratar de coisas que antes resolviam na localidade. «Campo Grande ficou sem estação de correios, e isso custa porque era um serviço essencial», disse, lembrando que a agência tinha sobrevivido ao governo de Macri.
Nem nos EUA há tanta gente na administração
Alberto Cejas, secretário-geral da FOECYT, sublinhou que os Correios são obrigados a «prestar um serviço básico universal» e que o encerramento de agências, deixando localidades isoladas, viola «convénios internacionais e a própria Constituição» argentina.
O sindicato, que está em pleno processo de negociações salariais – com o governo a apresentar uma proposta de aumento de 6,6% e a estrutura sindical a reclamar 15% –, denunciou o excesso de quadros de gestão na empresa estatal, afirmando que «nem o serviço postal dos Estados Unidos tem a estrutura [de gestão] que tem o serviço postal argentino. Mais de cem pessoas», disse.
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