Keir Starmer representou o regresso do velho new labour de Tony Blair e Gordon Brown, porém isso não lhe valeu de nada e o resultado das políticas levadas a cabo valeu-lhe a rápida impopularidade. Depois de alcançar uma vitória histórica, a 4 de Julho de 2024, pondo fim a 14 anos de governos conservadores, conquistando 411 assentos no parlamento, garantindo uma maioria absoluta de 174 lugares, Starmer viu a sua estabilidade ruir.
A verdade é que a sua acção governativa distanciou-se de uma política de esquerda que se afastasse daquela que fora levada a cabo pelos conservadores. No plano interno, Starmer obstaculizou e cortou apoios sociais, adoptou uma postura anti-imigração, abandonou a ideia de acabar com o outsourcing no Sistema Nacional de Saúde britânico e viu-se envolvido em diversos escândalos.
Do ponto de vista económico verificam-se dificuldades na criação de postos de trabalho, a dívida soberana disparou, o défice no ano passado ascendeu aos 4,3% do PIB, e assistiu-se à falência de uma série de serviços públicos.
Já do ponto de vista internacional, a sua governação representou uma aproximação do Reino Unido aos Estados Unidos e União Europeia, no pior que isso acarreta. Relativamente às tarifas que os norte-americanos queriam impor, Starmer foi um dos principais rostos da submissão a Donald Trump. Já no plano da guerra, apoiou a postura europeia relativamente à Ucrânia, branqueou o genocídio da Palestina e foi um apoiante vocal de Israel.
Veja-se que, neste aspecto, Keir Starmer acabou por ser um dos protagonistas da perseguição a manifestantes pró-Palestina. Se no seio do seu partido Starmer promoveu uma autêntica purga, expulsando todos aqueles que se opunham ao genocídio na Palestina, acusando-os de «anti-semitistismo», também a chefiar os destinos do país teve uma conduta semelhante, proibindo protestos e abrindo espaço à criminalização de activistas pró-paz.
A sua grande derrota aconteceu em Maio deste ano com os resultados eleitorais nas eleições locais e regionais, com a confirmação do fim do bipartidarismo clássico e o crescimento da extrema-direita. O seu partido, aquele onde o mesmo fez purga, virou-lhe as costas, e os resultados desencadearam uma série de demissões no Governo e declarações de cerca de 100 deputados a pedir a sua saída.
Espera-se agora que o seu sucessor venha a ser Andy Burnham, sendo que do ponto de vista ideológico não se espera grande alternativa. O recém-eleito deputado é visto como «soft left», tendo sido secretário de Estado da Saúde durante a governação de Gordon Brown. Não é a primeira vez que Burnham é candidato à liderança dos trabalhistas, já que em 2015 perdeu as eleições internas para Jeremy Corbyn.
Keir Starmer junta-se, assim, a uma longa lista de demissões ao longo dos últimos 10 anos: David Cameron em 2016; Theresa May em 2019; Boris Johnson em 2022, Liz Truss também em 2022; e Rishi Sunak em 2024. A instabilidade política, associada aos graves problemas sociais e a recusa de adopção de uma real política de esquerda podem condenar o próximo primeiro-ministro britânico ao falhanço e contribuir para a canalização da insatisfação na demagogia de Nigel Farage, líder da extrema-direita britânica.
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