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|América Latina

Extrema-direita alinhada com Trump: «Um espantalho para poder intervir no continente»

Acordo celebrado entre os países que integram o chamado Escudo das Américas visa consolidar a ingerência dos EUA na região e coloca maior pressão sobre o Brasil, apontam especialistas. 

Os 14 países que integram o chamado Escudo das Américas, dinamizado pela administração norte-americana, assinaram um acordo na terça-feira, à margem da Assembleia Geral da ONU, que considera 24 grupos narcotraficantes como «terroristas» e «ameaças compartilhadas», tornando-os alvos de sanções conjuntas.

Os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram elencados na lista dos «narcoterroristas». A este propósito, o Portal Vermelho destaca que «o combate ao crime organizado é o pretexto que Washington utiliza para tutelar a segurança da América Latina». 

«O texto do Departamento de Estado norte-americano funciona como um instrumento político que permite ingerência nos países do continente. Ao igualar facção a terrorismo, a coalizão cria base para congelar bens, restringir vistos, punir apoiadores e levar o tema ao tratado de defesa coletiva das Américas, na OEA», acrescenta.

Tentativa de ingerência e cerco ao governo de Lula

Por seu lado, especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato referem que este «acordo é mais uma tentativa de ingerência dos Estados Unidos sobre o continente, além de se configurar como um cerco para o governo brasileiro e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva».

«É uma maneira de [Trump] criar a polícia continental, que eles nunca tiveram, que os Estados Unidos nunca conseguiram implantar», disse Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC.

«Lá o inimigo era o comunismo. Agora é o narcoterrorismo. Você inventa um inimigo, você inventa um espantalho para poder intervir em qualquer situação», explicou Maringoni, lembrando que, no discurso que proferiu na ONU, o presidente norte-americano chamou ao narcoterrorismo «Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental».

«Trata-se de mais uma iniciativa de cerco à realidade brasileira, de cerco ao governo do presidente Lula, que iniciou desde a reformulação da política externa dos Estados Unidos, com a volta de Trump», advertiu Gustavo Menon, professor na Universidade Católica de Brasília e da Universidade de São Paulo, lembrando que esta medida se junta a outras, como o tarifaço, por via do qual Trump tenta interferir na política brasileira com aumento de impostos de importação de produtos nacionais.

Nesse sentido, Menon destacou o papel do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, «que se comporta como um verdadeiro xerife hemisférico», fazendo da América Latina «uma espécie de quintal dos interesses estadunidenses».

Suposta acção para «enfrentar o flagelo do narcoterrorismo»

«Reconhecendo que uma ameaça imediata e universalmente compartilhada em nosso hemisfério é aquela representada por organizações narcoterroristas transnacionais – as quais põem em risco a paz e a segurança do hemisfério, bem como a segurança e a prosperidade de nossos cidadãos –, anunciamos hoje a primeira ação conjunta no âmbito de nossos pilares recém-anunciados: ação individual e coletiva para enfrentar o flagelo do narcoterrorismo», diz o documento divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA, citado pelo Brasil de Fato.

De acordo com o texto, a intenção é impor o congelamento de activos; restrições de imigração e de visto a membros, associados e apoiantes das organizações referidas; responsabilizar criminalmente indivíduos que, conscientemente, forneçam apoio material – incluindo apoio logístico – a essas organizações, entre outras medidas.

A declaração foi divulgada pelo Departamento de Estado norte-americano em conjunto com os governos de Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago.

Na abertura do 81.º período de sessões da Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro, Lula da Silva, defendeu que no seu país «não se subestima o desafio representado pelo crime organizado», mas que não se pretende «terceirizar a responsabilidade» de proteger os cidadãos. «O Brasil não cabe no quintal de ninguém», declarou.

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