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Eleições presidenciais. Os subúrbios da classe trabalhadora já não votam

Pela primeira vez, há sondagens que afirmam que na segunda volta das eleições presidenciais em França podem ser ganhas pela candidata de extrema-direita Marine Le Pen.

Comício de apoio ao candidato da França Insubmissa. 
Comício de apoio ao candidato da França Insubmissa. CréditosMohammed Badra / EPA/LUSA

A poucas horas da primeira volta, os estudos davam a passagem do actual presidente Emmanuel Macron com cerca 26% dos sufrágios, seguidos de Marine Le Pen com 25%. Em terceiro lugar surge o candidato populista de esquerda Jean-Luc Mélenchon com cerca de 17%.

Há muitos anos que a paisagem política francesa vive uma competição entre várias forças de direita. Todos os partidos vagamente de esquerda somados têm menos de 30% dos sufrágios, com uma extrema-direita, com vários candidatos, que se abeira dos 40% das preferências dos franceses.

Nestas eleições, a candidata socialista, Anne Hiddalgo, tem menos de 2% e o comunista, Fabien Roussel, 3%. E o candidato ecologista, Yannick Jadot, chega aos 5%.

As sondagens divulgadas no final da semana em França indicam que tanto Emanuel Macron como Marine Le Pen podem chegar ao primeiro lugar nas presidenciais de domingo, com o Presidente francês a manter uma ligeira vantagem sobre a candidata da extrema-direita.

A diferença entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen nunca foi tão curta, com várias sondagens a indicarem hoje que a diferença de votos na primeira volta pode situar-se entre 1 a 3 pontos percentuais, sem haver ainda certezas que, apesar da vantagem, Emmanuel Macron será o candidato preferido dos franceses.

Desde o fim da última semana, Marine Le Pen tem subido nas intenções de voto, arrancando dos cerca de 20% que detinha no mês anterior e aproximando-se de Emmanuel Macron, que desceu dos cerca de 30%. Na sondagem publicada pelo gabinete de estudos ELABE para a televisão BFMTV e a revista L'Express, o chefe de Estado tem 26% das intenções de voto e Marine Le Pen 25%.

Já a sondagem do gabinete de estudos BVA para a rádio RTL dá a mesma percentagem de intenções de voto para Emmanuel Macron, 26%, mas 23% para Marine Le Pen. Noutra sondagem do gabinete de estudos Ifop para a revista Paris Match, televisão LCI e SudRadio, o Presidente mantém os 26% e Marine Le Pen detém 24% da preferência dos inquiridos.

Com esta previsão da preferência dos franceses, as intenções de voto em Emmanuel Macron recuaram aos níveis do início da guerra na Ucrânia, com Marine Le Pen a subir desde o início da campanha.

Esta mudança dá-se a partir do momento que as preocupações dos franceses se deslocam da guerra na Ucrânia para problemas internos, como aumento dos preços e o crescimento das dificuldades económicas que sentem a maioria dos franceses.

Numa crónica publicada recentemente no diário Le Monde, o economista Thomas Piketty, alertou: «Se Macron não fizer urgentemente um gesto social forte, então a sua arrogância pode fazê-lo perder uma segunda volta contra Le Pen». Piketty defende que para a esquerda recuperar o poder após as eleições presidenciais, terá de reconciliar as classes trabalhadoras de diferentes origens.

Tentando impedir um maior crescimento da candidata de extrema-direita, Emmanuel Macron vai dizendo que Marine Le Pen «tem um programa racista que visa dividir a sociedade de uma forma brutal», numa entrevista ao jornal Le Parisien. Já Marine Le Pen, que realizou o seu último comício de campanha em Perpignan na quinta-feira, disse que o voto em si faria »ganhar o povo».

No terceiro lugar em todas estas sondagens está Jean-Luc Melénchon, obtendo entre 17 e 17,5%, deixando assim o candidato de esquerda provavelmente de fora da segunda volta.

De forma a reforçar a posição de Mélenchon, Christiane Taubira, antiga ministra da Justiça e pré-candidata às eleições que recolhe muita simpatia à esquerda, disse apoiar o líder da França Insubmissa.

No quarto lugar, empatados, estão a candidata da direita, Valérie Pécresse, e Eric Zémmour, também na extrema-direita, já sem qualquer possibilidade de chegar à segunda volta.

As eleições presidenciais francesas contam com 12 candidatos e a primeira volta vai decorrer no domingo, com a segunda volta agendada para 24 de abril entre os dois candidatos mais votados.

Os pobres estão-se a borrifar com as eleições

Estas eleições culminam um ciclo longo, em que a política urbana e a política económica construiu uma sociedade com sectores inteiros da população excluídos, abandonando qualquer perspectiva de igualdade. Não é, portanto, surpreendente que os residentes dos bairros da classe trabalhadora já não votem e que a esquerda tenha quase desaparecido da política francesa.

Na primeira volta das eleições regionais de Junho de 2021, a lista socialista ficou em primeiro lugar em Vaulx-en-Velin com 24,20% dos votos, à frente do candidato de direita que obteve 20,30%. A taxa de abstenção foi muito elevada, já que 88,34% dos eleitores registados não se apresentaram. Na mesma eleição em Grigny, Essonne, a lista da direita recebeu 18,01% dos votos, seguida da lista socialista, que recebeu 16,07% dos votos expressos. A taxa de abstenção atingiu 81,52%.

Em 2022, a democracia já não funciona nestes lugares. Nenhum governo o admitirá abertamente. No entanto, cada eleição fala por si. Desde o Inverno de 2005, os bairros da classe trabalhadora aprenderam a manter-se calados. Os seus habitantes limitam-se a imitar uma vida cívica comum - as crianças vão à escola, os adultos trabalham, procuram emprego, os jovens praticam desporto ou música, os crentes vão à igreja, as famílias estão preocupadas em viver . Mas todos eles estão mais ou menos conscientes de que a sua desgraça está inscrita também no descrédito social que a sociedade os votou.

Os temas da insegurança, do islamismo são brandidos contra os habitantes dos subúrbios, fazendo que as barreiras do bairros tracem a fronteira entre dois países diferentes.

Os bairros da classe trabalhadora estão na ruína. Neste contexto de retirada para dentro de si mesmos, e onde a sua existência social se restringe à comunidade de vizinhos, a democracia e o sufrágio universal são pontos fixos acima das suas cabeças. Uma vez que a democracia representativa os abandonou, os habitantes dos subúrbios só a vêem como uma farsa. Por isso já não votam, e observam a «vida democrática francesa» com estranheza. Ninguém pode acreditar seriamente que a vida dos habitantes dos bairros da classe trabalhadora irá mudar favoravelmente como resultado das próximas eleições presidenciais. O falhanço republicano de uma França de igualdade esgotou toda a boa vontade. Os subúrbios da classe trabalhadora já não têm o desejo de manter esta mascarada. Preferem ter a sua própria opinião, por outras palavras, ser deixados em paz, defende Hacène Belmessous nas páginas da revista L'Esprit.

Desde 1995, os habitantes dos subúrbios da classe trabalhadora tiveram de suportar uma situação paradoxal, apesar de serem ignorados nas políticas sociais, em todas as eleições foram-se tornado o alvo da extrema-direita e depois da maioria dos partidos do sistema.

Foram apanhados durante as eleições de 1995 e 2002 pelos temas perniciosos da imigração, insegurança e violência urbana. Seguidos nas eleições seguintes, pelo brandir dos problemas da identidade nacional e islamismo.

A política actual espezinha-os ainda mais impiedosamente à medida que os ódios contra eles abrigados por parlamentos cada vez mais influenciados pelos temas da extrema-direita, com a sua imagética melancólica feliz da, suposta, França das aldeias e cidades, idealizada pelo antigo editorialista do Le Figaro, e candidato de extrema-direita, Éric Zémmour, entre outros, e pelos os teóricos da «Grande Substituição», convenceram parte da opinião pública, educada pelos canais de «notícias» 24 horas, da validade da tese de conspiração, há muito defendida apenas por Renaud Camus, da contínua substituição da França dos «nativos franceses» pela república da miscigenação.

A política recente, que culmina em Emmanuel Macron e o seu liberalismo, não fez mais que agudizar as questões dos bairros populares. Para os liberais não há problemas sociais, logo não há medidas colectivas, apenas é necessário dar um livrinho de auto-ajuda aos pobres e os mais capazes vãos-se tornar ricos.

Já não se trata de combater os processos de discriminação, segregação ou exclusão, mas de glorificar o espírito empreendedor. «Seria profundamente injusto ajudar indiscriminadamente aqueles que fazem esforços e aqueles que persistem em não os fazer, aqueles que respeitam as regras da vida comum e aqueles que os desrespeitam. Só aqueles que realmente querem sair desta situação podem ser validamente ajudados», declarou Nicolas Sarkozy, quando era ministro do Interior, assim que a raiva social do Outono de 2005 se extinguiu. Esta declaração, que se baseia nas teses da meritocracia.

A ideologia contida na meritocracia afirma o fim de uma condição ideal, escondendo a natureza segregada e discriminatória da sociedade francesa. Ao submeter os habitantes dos bairros da classe trabalhadora ao teste da vontade de adaptação pessoal.

Dois anos mais tarde, quando se tornou Presidente da República, Nicolas Sarkozy apresentou o seu projecto político, nos bairros, num plano que deveria libertar os seus habitantes de si mesmos, «Espoir banlieue» era o seu nome, o seu discurso assumiu este estado de excepção dos subúrbios da classe trabalhadora. «O mal-estar [nestes bairros] não provém apenas do planeamento urbano e da arquitectura, não é apenas económico ou social, é mais profundo, é também baseado na identidade, é cultural, é moral. [...] Queremos evitar que o comunitarismo, as tribos e os bandos minem a República de uma vez por todas».

A resposta dos habitantes destes bairros ao abandono do Estado foi clara: não votam.

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