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Cuito Cuanavale – Uma batalha decisiva na libertação da África Austral

Assinala-se hoje o fim de uma batalha decisiva, em que a vitória das forças revolucionárias permitiu uma viragem a favor da paz e da libertação dos povos africanos oprimidos pelo regime do apartheid.

Combatentes angolanos festejam tomada de blindado sul-africano, durante a batalha do Cuito Cuanavale. Foto de arquivo.
Combatentes angolanos festejam tomada de blindado sul-africano, durante a batalha do Cuito Cuanavale. Foto de arquivo. Créditos

O dia 23 de Março de 1988 marca o fim da batalha do Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, onde as FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), e as FAR (Forças Armadas Revolucionárias, de Cuba), defrontaram o exército da maior potência militar regional, a África do Sul, e as forças da UNITA.

A vitória das forças revolucionárias nesta batalha representou uma viragem decisiva na África Austral, no sentido do progresso, da paz e da libertação dos povos africanos oprimidos pelo regime do apartheid.

De Cabinda ao Cunene, uma luta sem tréguas

Após a declaração da independência, em 11 de Novembro de 1975, Angola esteve sujeita a várias invasões do seu território por parte das tropas do Zaire (Mobutu) e da África do Sul, em apoio aos bandos da FNLA, da UNITA e da Facção Chipenda. Todas estas incursões militares do território angolano foram apoiadas militar e financeiramente pelos EUA, França, Alemanha Ocidental, Reino Unido e Israel, e tinham como objectivo matar à nascença o jovem Estado independente.

O comandante Raúl Díaz Argüelles, herói de Cuba e de Angola, foi um dos responsáveis pelas vitórias angolanas em 1975 e morreu em combate em Dezembro desse ano. Créditos

É neste quadro que o presidente do MPLA, Agostinho Neto, no sentido de garantir a soberania e a integridade do território de Angola, pede ajuda a Cuba, que envia um contingente de 15 000 tropas especiais do Ministério do Interior e das FAR, com o objectivo de impedir a tomada de Luanda e inverter o curso da guerra1.

Esta primeira agressão de forças estrangeiras e mercenárias em grande escala («Operação Savannah»), foi rechaçada a 10 de Novembro de 1975, no norte de Luanda, na Batalha da Kifangondo2 3 4, e a sul da mesma cidade na batalha do Ebo, poucos dias depois, a 12 de Novembro.

Em reacção à derrota infligida a estas forças no norte de Angola, a região fronteiriça com a Namíbia foi ocupada pelo exército da África do Sul, que ali estabeleceu bases militares, e o Sul e Leste de Angola5 pela UNITA, mantendo a região sob tensão e conflitos permanentes.

Sem disfarce: o apoio sul-africano à UNITA

O apoio sul-africano à UNITA viria a tornar-se mais efectivo com a invasão da província do Cunene, em 23 de Agosto de 1981 («Operação Protea»), e a subsequente ocupação de uma faixa tampão na fronteira sul de Angola numa profundidade de 200 quilómetros, com o duplo objectivo de neutralizar as operações de guerrilha da Organização do Povo do Sudoeste Africano (South West Africa People’s Organization, SWAPO) no território da Namíbia, então ocupado ilegalmente pelo África do Sul e de, por outro lado, estabelecer um ponto de partida para novas operações no interior de Angola6.

A consolidação do domínio da UNITA nas províncias do Cunene e do Cuando-Cubango, na perspectiva da criação de um «bantustão» no sudeste angolano, era o propósito imediato. É nesta altura que o presidente José Eduardo dos Santos pede ao Secretário-Geral da ONU, Pérez de Cuéllar, a convocação do Conselho de Segurança da Nações Unidas para discutir a agressão sul-africana. Mas a resolução da condenação foi vetada pelos Estados Unidos, de acordo com a estratégia delineada por Washington e pela África do Sul para aniquilar as FAPLA e o MPLA.

É sintomático que o secretário-adjunto dos EUA para a África, Chester Cocker, tenha dito ao embaixador da África do Sul nos Estados Unidos: «a resolução não exige sanções e não estabelece nenhuma ajuda para Angola. Isto não é por acaso, mas sim o resultado dos nossos esforços para a manter dentro de determinados limites».

Quando os EUA queriam duas Angolas

Com a ocupação da província do Cunene pela África do Sul, a situação em todo o sul de Angola agrava-se com o aumento das hostilidades. A UNITA reforça-se militarmente em armamento e conselheiros militares e, com o apoio das administrações Reagan (EUA) e Thatcher (Grâ-Bretanha) e a ajuda do seu aliado sul-africano, desencadeia operações militares contra as bases da SWAPO, do Congresso Nacional Africano (African National Congress, ANC) e contra posições das FAPLA, para além de acções de sabotagem às linhas dos Caminhos de Ferro da Benguela (CFB), de destruição de infra-estruturas políticas e económicas e minagem de linhas de abastecimento, espalhando o terror e a morte entre as populações de aldeias, vilas e cidades do sul de Angola.

A desestabilização política e económica em Angola foi subordinada aos objectivos militares como instrumento principal para a derrota da jovem República Popular.

A presença de um Estado dentro de outro Estado era uma afronta à soberania angolana sobre o território e seus recursos, o que o governo do MPLA não podia tolerar por mais tempo.

É principalmente nos anos de 1985 e 1986 que o governo angolano decide retomar o controlo do sudeste de Angola, lançando ofensivas contra as posições da UNITA. Estas são frustradas perante a superioridade esmagadora das forças agrupadas da UNITA, da Força Nacional de Defesa da África do Sul (South Africa Defense Force, SADF) e batalhões de tropas mercenárias, munidas de armamento pesado, blindados e mísseis TOW7 e Stinger fornecidos pelos EUA.

Sul-africanos obrigados a socorrer Savimbi

Com o fim da estação das chuvas e o início da estação seca, em Julho de 1987, e após um período de acumulação de material e grandes concentrações de infantaria, as forças armadas angolanas, as FAPLA, cumprindo o seu dever constitucional e patriótico, desencadearam uma ofensiva contra os centros vitais da UNITA em Mavinga e Jamba, conhecida como «Operação Saludando Octubre», a partir das vilas de Luena e do Cuito, contando com o apoio de artilharia pesada, de caças e bombardeiros soviéticos MIG-23 e SU-22, tanques T-62 e heliocópteros de ataque ao solo MI-24/25.

Efectivamente, a «Operação Saludando Octubre», que envolveu a 16.ª, 21.ª, 47.ª, e 59.ª, Brigadas das FAPLA e que tinha como objectivo político pôr fim à «guerra civil angolana», passava pela captura dos «santuários da UNITA» no sudeste de Angola.

A ofensiva bem sucedida das FAPLA colocou a UNITA numa posição insustentável, demonstrando a sua incapacidade para conduzir uma guerra de movimento e de manobra, com grandes concentrações militares e de cooperação inter-armas. As bolsas de resistência criadas pela UNITA eram logo desarticuladas pelas FAPLA, que lhes infligiam pesadas perdas em homens e material.

A África do Sul tinha conhecimento que as forças militares da UNITA eram incapazes de, sozinhas, enfrentar as FAPLA. Perante a iminente derrocada das forças de Jonas Savimbi e a pedido deste, os sul-africanos, a partir das suas bases instaladas em território angolano e na Namíbia, desencadeiam as operações «Moduler8» e «Hooper», com o objectivo de parar a ofensiva angolana, lançando as suas melhores tropas e material militar de última geração, nomeadamente caças Mirage F1 AZ e aviões de ataque Impala, Lançadores Múltiplos de Foguetes (Multiple Rocket Launcher, MRL) e obuses G59.

Começa a maior batalha em África no pós-guerra

A Força Aérea Sul Africana (South African Air Force, SAAF) detinha o domínio do espaço aéreo no sul de Angola e o ponto fraco das FAPLA era precisamente a defesa antiaérea.

O resultado foi a batalha de Cuito Cuanavale, uma vila situada na província de Cuando Cubango, numa zona de operações cruzada por vários rios, de terreno acidentado e lamacento, com 92 920 quilómetros quadrados. Esta campanha militar viria a determinar o futuro da África Austral.

Após longos e sangrentos combates, o Estado-Maior das FAPLA e a Direcção Militar Soviética, a pretexto de melhorar o emprego das suas forças, decidiram que as quatro brigadas em operações se dividiam em duas colunas no caminho até Mavinga para, depois da travessia do rio Lomba, se reunirem. No entanto, este movimento foi fatal para a ofensiva.

Militar sul-africano junto a um blindado Ratel-90 destruído. Este ágil blindado foi um dos trunfos da SADF para enfrentar os tanques soviéticos ao serviço das FAPLA.

Pela manhã do dia 11 de Agosto, uma importante força militar sul-africana, composta pelos batalhões 61.º, 62.º, 101.º, 102.º, 449.º e 450.º, e na qual se incluía o Batalhão 32.º, (Búfalo) integrado por mercenários do Exército de Libertação de Portugal (ELP), atinge a base da UNITA, a sul da nascente do rio Lomba e na região do Baixo-Longa. Aguardam no local a aproximação das FAPLA. A 47.ª e a 59.ª brigadas são interceptadas quando atravessavam o rio Lomba e a 47.ª fica isolada. Travam-se combates violentos e a confusão instala-se naquele teatro de operações, 40 quilómetros a sudoeste da pequena cidade de Cuito.

Planeamento de operações multinacional nas operações do Sul de Angola. Foto de Arquivo.

De seguida, o SADF ataca a infra-estrutura militar e a linha logística de apoio à frente de batalha das FAPLA (estrada Menongue/Cuito Cuanavale), numa distância de 160 quilómetros, logrando a destruição parcial da ponte sobre o rio Cuito e o ataque às instalações de artilharia e radar baseados em Cuito Cuanavale, o que levou as FAPLA a cancelarem a ofensiva e a retirarem para a povoação. A retirada revelou-se problemática, pois as FAPLA eram perseguidas pelas forças do exército sul-africano. Com a chegada das forças da UNITA às redondezas de Cuito Cuanavale, a povoação foi cercada e submetida a intenso fogo de barragem pela artilharia pesada doinimigo, posicionada nas colinas de Chambinga.

A entrada da África do Sul no conflito representou uma escalada e modificou a correlação de forças militares na região, revertendo as derrotas sofridas pela UNITA e colocando as forças angolanas na defensiva.

Defesa e contra-ataque na cidade heróica

A África do Sul não perdeu a sua oportunidade e preparava-se para eliminar as forças angolanas, lançando-se no contra-ataque com todas as armas de que dispunha: aviação, artilharia, tanques e infantaria.

As FAPLA, organizadas numa estratégia de defesa agressiva, entrincheiradas em duas linhas e numa posição de «ouriço», mostraram-se tenazes em ambas as extremidades da bolsa, neutralizando as ofensivas das forças conjuntas SADF/UNITA.

No terreno permanecem, ainda hoje, destroços dos violentos combates travados trinta anos atrás em Angola.

A partir de Luanda, a Rádio Nacional de Angola lembra que a República Popular está em guerra contra o invasor sul-africano e bandos da UNITA e lança a palavra de ordem: «De Cabinda ao Cunene defenderemos a pátria de Agostinho Neto. Ao inimigo racista nem um palmo da nossa terra».

As operações arrastam-se no tempo, exigindo um esforço tremendo e com perdas avultadas em homens e material, para ambos os lados.

Durante os combates, as forças racistas despejaram sobre o perímetro de Cuito Cuanavale 400 toneladas de bombas, 2000 roquetes de 68 milímetros, 36 míssseis AS-30 e 2500 obuses de 155 milímetros.

Imagem dos combates em Cuito Cuanavale.

O regime racista da África do Sul e as forças conjuntas SADF/UNITA haviam decidido esmagar militarmente as FAPLA no campo de batalha, sufocar a revolução angolana e destruir a independência de Angola. Apesar da resistência heróica das FAPLA, de um contingente das FAR, de destacamentos da SWAPO, do ANC e do Partido Comunista da África do Sul (South African Communist Party, SACP), e perante a iminência da sua aniquilação, o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, pediu à República de Cuba para socorrer as FAPLA e, se possível, reverter a situação desfavorável que se tinha criado.

Combatentes internacionalistas cubanos em Angola. Foto de arquivo.

Cuba respondeu positivamente ao apelo dos patriotas africanos do MPLA, sendo desencadeada uma mega-operação logística. É montado um «tapete rolante» de Cuba para a base aérea de Menongue e para o porto marítimo de Namibe (a 11 mil quilómetros de distância) a partir dos quais, num espaço de tempo relativamente curto, foram colocados nas frentes de combate 50 mil combatentes das FAR, centenas de tanques, plataformas de artilharia, grupos de antiaéreas e dezenas de aviões de ataque.

A participação soviética foi igualmente importante no apoio que deu ao governo angolano, através do fornecimento de armamento pesado e de conselheiros militares.

Pausa entre combates. Angolanos, cubanos e soviéticos na linha da frente, no Sul de Angola. Créditos

A 5 de Dezembro de 1987, o primeiro contingente cubano de 3100 tropas especiais chegou a Cuito Cuanavale. As FAR entraram na campanha militar em Dezembro, com a «Manobra XXXI Aniversário», que tinha como objectivo defender Cuito Cuanavale e parar a agressão sul-africana a Angola.

Na preparação para a batalha decisiva, dada como inevitável, os planos tinham como princípio fixar o exército sul-africano e obrigá-lo a combater naquele teatro de operações, em condições desfavoráveis e nas quais havia fortes probabilidades de ser batido.

Entretanto, a partir da costa sul de Angola, e numa manobra ofensiva sem precedentes, um poderoso agrupamento de tropas cubanas e angolanas, num total de 70 mil combatentes, apoiados por 600 blindados, centenas de peças de artilharia e antiaéreas e dezenas de unidades de MIG 23, que obtêm supremacia aérea em todo o Sul, avança sobre a província de Cunene, recuperando o controlo de uma região de importância estratégica para o regime sul-africano.

Os MIG-23 soviéticos, nas mãos dos pilotos angolanos e cubanos, foram uma das armas decisivas para a anulação da tradicional vantagem aérea dos Mirage sul-africanos. Na foto, as tripulações envolvidas no primeiro derrube de um Mirage. Créditos

A crescente capacidade militar das forças conjuntas angolano-cubanas, aliada à retirada de forças sul-africanas para ocorrer à manobra na região do Cunene, vem alterar a relação de forças, contribuindo para diminuição do poder militar sul-africano na área do Cuito Cuanavale.

A 23 de Março de 1988, travou-se a batalha decisiva. O Alto Comando das tropas sul-africanas decidiu passar à ofensiva. As forças conjuntas SADF/UNITA, após intenso fogo de barragem, lançaram-se numa derradeira ofensiva contra as posições angolano-cubanas, mas o ataque foi rechaçado ao fim de 8 horas de combates, com as forças revolucionárias a desencadearam uma contra-ofensiva, obrigando as forças racistas a recuarem em toda a linha.

A retirada precipitada das SADF, pelas planícies do sudeste angolano, era a imagem e expressão de um exército derrotado e em colapso. O mito da invencibilidade do exército sul-africano tinha sido quebrado.

Cuito Cuanavale e o fim do apartheid

A partir daqui, o objectivo das tropas angolano/cubanas e dos próprios destacamentos da SWAPO, do ANC e do PC da África do Sul, tornou-se mais vasto do que a libertação do território angolano. Tratava-se de explorar em profundidade os êxitos militares obtidos com o colapso do exército sul-africano, nomeadamente libertar a Namíbia e derrotar militarmente o regime de apartheid e tudo o que ele representava de odioso para os povos da África Austral.

O regime racista sul-africano tomou consciência do significado da derrota militar das suas forças armadas no seu próprio território. Febrilmente, procurou a sua sobrevivência na mesa das negociações em Brazzaville, Cairo e Nova Iorque.

Mas a proeza que os angolanos e cubanos tinham obtido no campo de batalha esteve presente na mesa das negociações, o que obrigou o regime da África do Sul a aceitar os acordos de Nova Iorque, dando origem à implementação da Resolução 435/78, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que levou à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial, que vigorava na África do Sul.

A batalha de Cuito-Cuanavale, ocorrida entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, foi o confronto militar mais prolongado e mais sangrento de que há memória naquela região de África.

Agostinho Neto e Fidel Castro. Foto de arquivo.

Em 2 de Dezembro de 2005, Fidel Castro num discurso proferido em Havana e referindo-se ao contingente internacionalista cubano, que passou por Angola, referia: «A missão internacionalista estava cabalmente cumprida. Os nossos combatentes iniciaram o regresso à pátria com a cabeça levantada, trazendo consigo unicamente a amizade do povo angolano, as armas com que lutaram com modéstia e valor a milhares de quilómetros, a satisfação do dever cumprido e os restos mortais dos nossos irmãos caídos. A sua missão resultou também decisiva para consolidar a independência de Angola e alcançar a da Namíbia. Foi ainda uma contribuição para a libertação do Zimbabué e desaparecimento do odioso regime do apartheid na África do Sul».

E na mesma efeméride, a embaixadora sul-africana, Thenjiwe Mtintso, afirmava numa passagem do seu discurso: «Hoje a África do Sul tem novos amigos. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos que corre na terra africana e nutre a árvore da liberdade da nossa pátria».

Desde 1975, passaram por Angola em missão internacionalista 400 mil militares e civis, homens e mulheres da República de Cuba e, destes, 2289 deram a vida em combate, a par de muitos outros combatentes que derramaram o seu sangue por uma Angola soberana, independente e pela libertação dos povos africanos do jugo do colonialismo, do racismo e do imperialismo.

Fontes:

Jimenéz Gomes, Rúben G10. Cuito Cuanavale. Crónica de uma batalha. Mayomba Editora (2015).

Gleijeses, Piero. «Cuito Cuanavale: A batalha que deu cabo do apartheid»11. Pátria Latina (2013).

Janeiro, Hugo. «Cuito Cuanavale 20 anos depois». Avante! (2008).

  • 1. Trata-se da «Operação Carlota», a qual segundo o Cuba Ahora, foi «uma das mais prolongadas operações militares internacionalistas da história», tendo-se iniciado «de maneira oficial a 4 de Novembro de 1975», e terminado em 1991, «16 anos mais tarde», com o regresso à Pátria do último contingente militar cubano. O nome escolhido para a operação reveste-se de uma forte carga simbólica: «a 5 de Novembro de 1843, a Negra Carlota» dirigira uma sublevação de escravos, «machete na mão», no engenho açucareiro Triunvirato de Matanzas. Morta em combate segundo uns, aprisionada segundo outros, ambas as versões reconhecem a bravura da Negra Carlota e o facto de o seu corpo ter sido esquartejado por quatro cavalos, como exemplo para os restantes escravos. Ver Cuba Ahora, 5 de Novembro de 2017, e Granma, de 11 de Março de 2014. A operação ficou celebrizada no apaixonado relato de Gabriel García Márquez, «Operación Carlota», publicado em 1977 na revista Tricontinental, que pode ler no sítio Buala, em tradução livre.
  • 2. Um relato dos aspectos estratégicos e tácticos da batalha de Kifangondo pode ser encontrado no artigo do historiador Miguel Júnior, «Lições da Batalha de Kifangondo», em Jornal de Angola, 11 de Novembro de 2018. Com interesse, também, um relato de um dos sobreviventes dos combates de Kinfangondo e do Ebo, «Batalha de Kifangondo na voz do general Ndalu», acabado de publicar em Jornal de Angola, 23 de Março de 2019.
  • 3. Tanto no Ebo como em Kinfangondo foi decisiva uma arma que chegara a Angola a 9 de Novembro de 1975, na véspera desta batalha, e que seguiu imediatamente para a frente de combate, a tempo de dar uma preciosa contribuição para derrotar o inimigo. Trata-se dos BM-21 Grad, Lançadores Múltiplos de Foguetes (Multiple Rocket Launcher, MRL), de fabrico soviético, também conhecidos com «Katiuchas». Com início de fabrico em 1963, continuaram a ser utilizados até aos nossos dias.
  • 4. Lembrar os êxitos de Kifangondo e Ebo é a ocasião para lembrar um dos primeiros internacionalistas cubanos em Angola, o comandante Raúl Díaz Argüelles. Chegou em Agosto de 1975, sob o pseudónimo de «Domingos da Silva», com o fim de «estabelecer e dirigir a Missão Militar Cubana em Angola durante a sua primeira etapa». A missão, «composta por um grupo de 429 oficiais cubanos» participou na criação de quatro Centros de Instrução Militar (CIM), com capacidade para 500 alunos cada um», localizados «em Benguela, Salazar (actual N’Dalatando), Enrique de Carvalho (hoje Saurimo) e no enclave de Cabinda». Nos CIM «prepararam-se milhares de combatentes das FAPLA», decisivos para a luta contra os invasores. Raúl Díaz Argüelles não só «dirigiu a preparação das forças angolanas» como esteve na linha da frente dos combatentes angolanos e cubanos nos combates decisivos em Cabinda (combate do Ntó) e na defesa de Luanda (combates de Kinfangondo e do Ebo). Morreu em combate a 11 de Dezembro de 1975, nas proximidades do Ebo. Dele disse o general angolano Iko Carreira, ministro da Defesa do MPLA em 1975, que muito se ficou a dever, «acima de tudo, a Díaz Argüelles, que se tornou uma lenda na moderna história de Angola». O seu corpo foi sepultado no cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda. A Presidência de Angola, por intermédio da sua Casa de Segurança, assegura que «a campa do comandante Argüelles é cuidada todos os dias por duas funcionárias». Em cada ano, a 11 de Dezembro, antigos combatentes e altas responsáveis cubanos e angolanos prestam homenagem àquele que começou por ser um herói de Cuba para se tornar, também, um herói daquela Angola por quem deu tudo, até a vida. Na passagem do 40.º aniversário da sua morte, a filha de Argüelles, Natacha, foi convidada a viajar até às terras pisadas em vida pelo pai e participar nas homenagens ao combatente internacionalista. Angola não esquecerá o seu filho adoptivo.Ver «Herói do Ebo deu a vida por Angola», em Jornal de Angola, 11 de Dezembro de 2014;
  • 5. Ver «Memórias das batalhas que levaram à reconquista da cidade do Luena», em Jornal de Angola, 29 de Novembro de 2014.
  • 6. Decisiva, para o fracasso do cumprimento dos objectivos da «Operação Protea», foi a defesa de Cahama, que «as tropas sul-africanas jamais conseguiram tomar» e «se tornou um dos pontos mais emblemáticos da heróica resistência das FAPLA». Ver «Memória dos ataques sul-africanos», em Jornal de Angola, de 11 de Setembro de 2011.
  • 7. TOW é o acrónimo para «Tube-launched, Optically tracked, Wire-guided», um míssil anti-tanque de fabrico norte-americano criado nos anos 70 do século passado para a guerra do Vietname e que foi usado, sem interrupção, até aos nossos dias.
  • 8. O nome original da operação é «Moduler», ou «Modulêr» (em africânder), e não «Modular», que parece ter sido um erro surgido em algumas fontes bibliográficas e depois sucessivamente reproduzido. Ver aqui.
  • 9. Este lançador de obuses (howitzer), com um alcance de 40 quilómetros e uma notável precisão, era uma das armas mais eficazes da SADF.
  • 10. Rúben G. Jiménez Gómez (Cumanayagua, Las Villas, 1943) foi um dos internacionalistas cubanos em Angola, onde combateu entre 1987 e 1990, como se pode ler em biografia obtida a partir da edição original, cubana, de um dos seus livros: «[…] participó en huelgas y manifestaciones estudiantiles contra la tiranía de Fulgencio Batista. Fundador de las Milicias Nacionales Revolucionarias. Formó parte en la primera "Limpia" del Escambray en la captura de mercenarios de Playa Girón y estuvo atrincherado cuando la Crisis de Octubre. Ingresó en las Fuerzas Armadas Revolucionarias en 1963, en respuesta al llamado del Comandante en Jefe y fue de los primeros en integrar las tropas Coheteriles Antiaéreas. Cumplió misión Internacionalista en Angola de 1987 a 1989 y se jubiló en 1990, con el grado de teniente coronel». Fonte: Amazon.
  • 11. Apesar de o artigo original já não se encontrar acessível no sítio de notícias Pátria Latina, o leitor pode encontrá-lo republicado na íntegra no GGN - O Jornal de Todos os Brasis, em 9 de dezembro de 2013.

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