|Segunda Guerra Mundial

Os mortos, Salazar e a guerra e o revisionismo histórico em curso

Num momento em que a influência fascista grassa na União Europeia, uma maioria do Parlamento Europeu aprovou, o ano passado, uma resolução a condenar o nazismo... e o comunismo.

Festejos em Lisboa, em frente da embaixada inglesa, em Maio de 1945. Reprodução de fotografia publicada na revista «Mundo Gráfico» de 15 de Maio de 1945 (Hemeroteca de Lisboa). Celebrações da vitória aliada decorreram também no Porto e em outras localidades de Portugal.
Festejos em Lisboa, em frente da embaixada inglesa, em Maio de 1945. Reprodução de fotografia publicada na revista «Mundo Gráfico» de 15 de Maio de 1945 (Hemeroteca de Lisboa). Celebrações da vitória aliada decorreram também no Porto e em outras localidades de Portugal. Créditos / aterrememportugal

O número de mortos estima-se hoje serem da ordem dos 60 a 75 milhões, incluindo militares e civis – estes em consequência de actividade militar, de crimes cometidos no Holocausto e noutras situações também com carácter genocida, ou por fome e doença imputáveis à situação de guerra.

Refiro apenas os casos de países que apresentam taxas de mortalidade, relativamente à população residente em 1939, superiores a 3 pontos percentuais, de entre um conjunto não inferior a 60 países. E acrescento ainda países com percentagens mais baixas, mas que tiveram papel relevante no conflito (EUA, Reino Unido, França e Itália).

A Wikipédia «trabalhou» alguns números que, pelos critérios que refere bem como as considerações em que os baseia, devem ser considerados como muito inquinados por considerações anticomunistas. De qualquer forma e apesar de isso, os números são eloquentes:

Mortes civis e militares na Segunda Guerra Mundial
PaísPopulação em 1939Total de mortos% em relação à população em 1939
URSS188,8 milhões21,3 milhões11,7%
China517,6 milhões15-20 milhões2,9-3,9%
Alemanha, Áustria, alemães noutros países europeus83,6 milhões6,9-7,4 milhões8,26-8,86%
Polónia34,9 milhões5,9-6,0 milhões16,9-17,2%
Japão71,4 milhões2,5-3,5 milhões3,5-4,3%
Índias Ocidentais Holandesas (Indonésia)69,4 milhões3-4 milhões4,3-5,8%
Indochina Francesa [actuais Vietname, Laos, Camboja e Cantão (hoje da China)]24,6 milhões1-2,2 milhões4-8%
Jugoslávia15,5 milhões1-1,7 milhões7-11%
Grécia7,222 milhões507-807 mil7,02-11,17%
França41,69 milhões600 mil1,44%
Filipinas (então dos EUA)16 milhões557 mil3,48%
Coreia (então colónia japonesa)24,326 milhões483-533 mil1,94-2,19%
Roménia15,97 milhões500 mil3,13%
Itália44,394 milhões492 a 514 mil1,10-1,16%
Hungria9,139 milhões464 mil5,08%
Reino Unido47,76 milhões451 mil0,94%
EUA131 milhões419 mil0,32%
Lituânia2 575 mil370 mil14,4%
Estónia1 134 mil83  mil7,3%
Timor Leste (então colónia portuguesa)480 mil40-70 mil8,3-14,6%
Guam (EUA, Pacífico)22,8 mil1-2 mil4-9%
Total (contando com mais de 43 países no mínimo)2 300 milhões70-85 milhões3,0-3,7%

Salazar e a guerra

Para o fascismo português, a luta entre dois dos seus mais importantes aliados (Reino Unido e Alemanha) seria um quebra-cabeças.

Ao Reino Unido, grande potência marítima e colonial, o fascismo ligava a sobrevivência do império colonial. Em relação à Alemanha era atraído pelas afinidades ideológicas e, eventualmente, pelo desejo de uma aliança com a grande potência «do futuro».

Salazar temia que os ingleses satisfizessem os apetites expansionistas de Hitler, à custa das colónias portuguesas (não seria a primeira vez que os ingleses negociavam a cedência destas). Via ao mesmo tempo com preocupação, os colonos alemães em território colonial português, à medida que Hitler subia o tom de guerra na Europa.

O espaço de manobra era muito estreito para o fascismo português, entalado entre um «velho aliado» em que não confiava (Reino Unido) e um «novo aliado» (Alemanha nazi) perigoso e que, na sua ambição, poderia arrastar a queda da ditadura.

Em 1 de Setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polónia sem lhe declarar guerra, o governo português publicou uma nota oficiosa em que «prevê» as mais graves consequências «pelo facto de irem defrontar-se na luta algumas das maiores nações do nosso continente, nações amigas e uma delas nossa aliada», e definia a posição do governo sobre o conflito: reafirmava a aliança com o Reino Unido, esclarecendo, entretanto, que ela «não obriga a abandonar a situação de neutralidade»…

Segundo Salazar, «a Alemanha faz-nos saber que está na disposição de respeitar a integridade de Portugal e das suas possessões ultramarinas, e em caso de neutralidade o Reino Unido nada pediria em nome da Aliança que nos obrigasse a entrar no conflito».

Salazar, na sua «neutralidade» – que no fundo servia os interesses de Hitler –, sujeito a pressões, negociava com ambas as partes em confronto e, obrigado a explicar-se, afirmava que «não é cómoda a situação de neutro» (25 de Junho de 1942). E lá ia avisando uns e outros de que a neutralidade está sujeita a contínua revisão e, por isso, «não se pode alguma vez dizer que é definitiva». Queria simplesmente ver para que lado penderia o prato da balança. Nesta data já os soviéticos tinham vencido a batalha de Moscovo, em que os alemães perderam um milhão e meio de homens, e tinham passado, de imediato, à contra-ofensiva. Tal teve importantes reflexos para uma mudança do curso da guerra, a qual se consagraria em 1943 com as vitórias soviéticas em Estalinegrado e Kursk. Salazar, a contragosto, continuava a rever a sua atitude. E também revelava uma falsa neutralidade.

Enquanto proclamava, em 1939, a neutralidade e reafirmava a sua aliança com o Reino Unido, os fascistas portugueses colaboravam intensamente com a guerra desencadeada pelos nazis.

Tratava-se da continuação lógica de relações que vinham detrás, com a sua colaboração com os fascistas de Franco para derrubar a República, em que refugiados chegados a Portugal eram entregues às tropas de Franco para terem tratamento semelhante aos que não tinham fugido.

As relações políticas, económicas, militares e diplomáticas entre o regime salazarista e os militares alemães tinham surgido logo que os nazis tinham assumido o poder em 1933. Entre 1936 e 1939 foi estreita a colaboração entre Salazar, Hitler e Mussolini, que tornou possível a vitória dos franquistas. De 1939 a 1945 essas relações mantiveram-se muito fortes.

Portugal era um centro de espionagem muito frequentado por todos. Milhares de alemães faziam-se passar por comerciantes ou turistas, e altos funcionários do governo de Salazar passavam informações à embaixada alemã.

A propaganda nazi em Portugal foi intensa. Fazia-se através do aparelho mediático de Salazar e, naturalmente, através dos próprios nazis.

A imprensa alinhava pela bitola nazi. Os jornais portugueses publicavam integralmente as proclamações do Führer. Atacaram as posições de Churchill e dos ingleses de apoio à URSS, quando esta foi invadida.

A rádio foi, no entanto, a principal força dos serviços de propaganda nazi, através do apoio descarado do Rádio Clube Português, da Rádio Renascença e da Emissora Nacional, que em 5 de Maio de 1941, transmitiu para o país e para as colónias o discurso de Hitler sobre a ocupação de vários países europeus. Foi uma repetição do que já tinha feito com Franco, durante a Guerra de Espanha.

Quando foram subscritos os tratados de assistência mútua entre a URSS e o Reino Unido (Maio de 1942) e com os Estados Unidos (Junho do mesmo ano), Costa Leite Lumbrales, comissário nacional da Mocidade Portuguesa, escrevia a 11 de Junho: «A grandeza das forças que hoje defendem o comunismo russo não carece de colaboração nossa na frente de batalha, mas devemos considerar-nos mobilizados e prontos a travar o combate, logo que seja necessário, neste extremo ocidental da Europa»...

Os fascistas portugueses não escondiam também, como os seus amigos nazis, o ódio racista aos judeus, dedicando-se ainda à repressão dos refugiados alemães antifascistas.

Segundo o presidente do Comité Internacional de Auxílio aos Refugiados, em declaração lida nos Estados Unidos a 1 de Novembro de 1941, «vários refugiados alemães antifascistas têm desaparecido em Portugal por terem sido entregues pela PIDE à Gestapo, que os tem assassinado ou enviado para campos de concentração» – tal como tinha acontecido antes durante a Guerra de Espanha.

Aristides Sousa Mendes e outros diplomatas, que ficaram menos conhecidos, foram perseguidos por Salazar por pretenderem salvar da morte judeus e resistentes.

Por detrás da falsa neutralidade, Salazar ajudava Hitler. À Alemanha não interessava a colaboração do pequeno e mal treinado e preparado exército português. O que lhe interessava era o enorme auxílio em minérios, matéria-prima para a indústria de guerra (volfrâmio, cobre, etc.), para o fabrico de munições e explosivos; eram os abastecimentos de géneros alimentícios (sardinhas de conserva, peixe fresco, carnes, feijão, cereais, azeite e óleos, para além de produtos das colónias); eram as malhas destinadas às tropas da frente soviética, botas militares, correias de transmissão, capacetes, etc.

Para os portugueses havia o racionamento, as longas bichas e a fome.

O regime fascista queria evitar erros que comprometessem o futuro do regime. O ano de 1943 foi terrível para Salazar em virtude das derrotas nazis.

Foi neste contexto que se verificou um acontecimento insólito. No segundo trimestre de 1943, uma delegação militar portuguesa visitou, durante várias semanas, «a frente de Leste e a muralha do Atlântico», a convite das forças armadas nazis e, de seguida, a mesma delegação visitou durante dois meses os Estados Unidos a convite destes. Os «amigos» disputavam uma «presa» cada vez mais hesitante. Da delegação fazia parte o coronel Craveiro Lopes, futuro Presidente da República de Salazar.

Foi pouco depois desta visita que Salazar autorizou formalmente que britânicos e norte-americanos construíssem e utilizassem as bases dos Açores em troca de auxílio militar.

As pressões, quer do lado britânico quer do lado alemão, avolumavam-se. Salazar tinha que se definir e pôr fim à política de traição nacional que até então seguia ao serviço da coligação nazi-fascista do Eixo.

Ao mudar apressadamente de campo quando viu que as derrotas alemãs eram irreparáveis, Salazar ficou nas mãos dos ingleses, que o pressionaram a cessar a exportação de volfrâmio para a Alemanha.

Quando a guerra terminou, Salazar afirmou que um dos motivos «do nosso contentamento está em que a Inglaterra se encontra entre, e no primeiro plano, das nações vitoriosas» (8 de Maio de 1945).

O regime fascista iria sobreviver mais 29 anos em Portugal, porque este interessava às grandes potências ocidentais pela sua posição estratégica (no Atlântico, à entrada do Mediterrâneo, com as ilhas dos Açores e Madeira), pela presença colonial em África, pelo vasto e rico império ainda por explorar, por ter um governo fiel e servil, defensor acérrimo de uma política ditatorial, corporativa, fascista e anticomunista. A guerra fria já tinha começado e Salazar estava nela.

A resistência em Portugal opôs-se ao nazismo e ao apoio que os fascistas lhe deram. A luta continuou e a repressão também.

Em Portugal, no final da guerra realizaram-se significativas manifestações de apoio aos aliados e contra o nazismo, reclamando também eleições livres e a libertação dos presos políticos, em Lisboa e no Porto, em Alenquer, em toda a margem sul do Tejo, Évora, Santarém e Almeirim.

Nestas manifestações apareciam algumas bandeiras portuguesas, dos EUA e da Inglaterra. Mas também muitas hastes sem bandeira, empunhados pelos manifestantes como se lá estivesse a bandeira da União Soviética…

Em Lisboa, num carro cedido por Cunha Leal, José Dias Coelho e meu pai1 levaram para a manifestação um pano com as efígies de Estaline, Roosevelt e Churchill, que o Dias Coelho pintara.

O revisionismo da História

Nomeadamente a partir da queda do socialismo no Leste da Europa, os sectores de direita e ultradireita desencadearam uma campanha de revisão dos factos históricos da Segunda Guerra Mundial.

É de referir, em primeiro lugar, como evoluiu a percepção das pessoas, em França, sobre quem tinha ganho a guerra, em gráfico elaborado por Olivier Berruyer no blogue Les crises.2

Resultados de sondagens IFOP sobre a percepção, em França, da contribuição dada pelas nações aliadas para a derrota da Alemanha nazi (1945-2015) CréditosOlivier Berruyer / Les Crises

A lavagem dos cérebros tem sido feita sistematicamente, em torno de questões como:

1. Como a guerra evoluiu e os factores que condicionaram essa evolução;

2. O dia D foi decisivo para o curso da guerra ou, quando este aconteceu, a Alemanha já tinha iniciado o curso para a derrota depois de fugir da Rússia após o fracasso da Operação Barbarossa?

3. Porque razão os soviéticos estabeleceram um pacto de não-agressão com os alemães em 1939? Porque os soviéticos se queriam entender com Hitler para derrotar o Ocidente ou porque, as repetidas tentativas da URSS em propor aos aliados pactos de não-agressão aliados ficaram sem resposta e a obrigaram a aceitar um pacto de não-agressão com a Alemanha para se preparar, em todos os aspectos, para a agressão que esta acabaria por fazer, em 1941?

4. As potências aliadas jogaram ou não com a convicção de que a Alemanha derrotaria primeiro a URSS, o que lhes permitiria derrotar aquela depois?

5. Existiram ou não fortes movimentos de resistência organizada – muitas vezes clandestina – nos países ocupados, que deram um importante contributo para a vitória de todas as grandes potências sobre os nazis alemães e os fascistas italianos, na Europa e no Norte de África, e os militaristas japoneses em muitos países asiáticos? E foram ou não, em geral, comunistas quem animava essa resistência?

6. Com a Alemanha e o Japão derrotados, algo de efectivamente decisivo justificava a destruição por bombardeamentos aéreos de Dresden e outras cidades alemãs e, depois, as bombas atómicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, que no seu conjunto provocaram mais de um milhão de mortos?

7. Estas destruições continham ou não já, para além das vítimas provocadas, a intenção de travar a progressão soviética em Berlim e pretender amedrontar a URSS com a destruição inédita que provocavam as novas armas?

8. O exército soviético em defesa dos seus habitantes exerceu ou não excessos e crimes para com o inimigo e colaboracionistas que o apoiavam? Com os aliados isso não aconteceu?

9. E esta resposta dos agredidos podia ser comparada com a dos agressores?

10. Comparar nazismo e comunismo por causa disso é uma conclusão histórica aceitável ou uma grande mentira?

11. Esta onda de revisionismo histórico e euforia triunfalista, os falsos prognósticos do fim da História têm fundamento histórico? É uma pergunta do PCP. É ou não apócrifa, fora do tempo e com um indisfarçável pendor anticomunista e um convite ao conformismo?

12. As barreiras que o capitalismo continua a erguer pelo «mundo fora», 30 anos após a «denominada queda do Muro de Berlim», que também são sociais, raciais, religiosas, existem ou são criação dos comunistas? Quem ergueu os muros de betão, aço ou arame farpado, patrulhados por forças militares na península da Coreia, na fronteira dos EUA com o México, passando pelos muitos muros erguidos na Palestina, os construídos no Sara Ocidental?

Num momento em que a influência fascista grassa na União Europeia, uma maioria do Parlamento Europeu aprovou, no dia 19 de Setembro passado de 2019, uma resolução a condenar o nazismo e o comunismo, afirmando que «os regimes nazi e comunista são responsáveis por massacres, pelo genocídio, por deportações, pela perda de vidas humanas e pela privação da liberdade no século XX numa escala nunca vista na História da humanidade».

Não lhes perdoemos porque eles sabem o que fazem…

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