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Conselho de Saúde responsabiliza governo de Bolsonaro pela crise em Manaus

O Conselho Nacional de Saúde rejeitou, esta sexta-feira, as declarações do governo de Bolsonaro sobre o «caos sanitário» em Manaus, onde a falta de oxigénio provocou a morte de diversos pacientes.

«Faltam quantas mortes até o impeachment?», diz a projecção num prédio de São Paulo, durante um dos protestos ruidosos que esta sexta-feira tiveram lugar em várias cidades brasileiras
«Faltam quantas mortes até o impeachment?», diz a projecção num prédio de São Paulo, durante um dos protestos ruidosos que esta sexta-feira tiveram lugar em várias cidades brasileiras Créditos / Portal Vermelho

Vanja Santos, da direcção Conselho Nacional de Saúde (CNS), afirmou que o presidente brasileiro não é alheio à responsabilidade sobre a situação na capital do estado do Amazonas, onde mais de 5300 pessoas morreram por Covid-19. Ontem à noite, o CNS publicou também uma nota em que solicita «providências imediatas» para a situação de crise.

«Já faz muito tempo, desde o início da pandemia, que o governo federal não tem feito a parte dele, que seria agir desde o principio para que nós não chegássemos a este ponto, tomar a dianteira do cuidado com a população brasileira. Nós tivemos, no primeiro momento, o governo fazendo pouco da pandemia, das infecções», disse a conselheira nacional de saúde ao Brasil de Fato, depois de Jair Bolsonaro ter proferido uma nova «declaração controversa» sobre o avanço do novo coronavírus no país.

«A gente está sempre fazendo o que tem que fazer, né? Problema em Manaus: terrível o problema lá, agora nós fizemos a nossa parte, com recursos, meios», disse Jair Bolsonaro, citado pelo Brasil de Fato.

O portal brasileiro destaca igualmente as declarações «polémicas» do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que chegou a culpar as chuvas, na sequência do agravamento da situação na cidade amazonense. O ministro Pazuello, que visitou o Amazonas, também se referiu «à distância e às dificuldades de logística» para tentar justificar a carência de oxigénio, cujo abastecimento é da responsabilidade do governo federal.

Também afirmou que «Manaus não teve a efectiva acção no tratamento precoce com diagnóstico clínico no atendimento básico, e isso impactou muito a gravidade da doença», o que, segundo o Brasil de Fato, constitui uma alusão indirecta à defesa do governo federal da utilização de medicamentos sem comprovação científica para este tipo de tratamento, como é o caso da cloroquina.

«O governo federal tira algumas coisas da cabeça e quer imp[ô-las] à população sem que para isso tenha dados científicos. É um pacote que eles tentam impor e querem culpabilizar os médicos e as instituições que não aderirem a isso. É uma política genocida da população brasileira, e eu não posso ver essa declaração do Pazuello como algo sério», critica Vanja Santos, do CNS.

Responsabilidades do governo federal

Na avaliação feita pelo CNS, o governo federal tem «forte responsabilidade» no processo que levou a capital do estado do Amazonas à actual situação de crise de saúde pública. De acordo com a conselheira, a falta de compromisso de Bolsonaro com a luta contra a Covid-19 «deixou gestores locais à deriva, tendo que administrar por conta própria fluxos e demandas que, via de regra, dependem de uma lógica conjunta – a mesma que orienta o Sistema Único de Saúde (SUS), que opera de forma tripartida, envolvendo União, estados e municípios».

«Faltou um plano nacional de enfrentamento à Covid-19, o que acabou sendo feito pela Frente pela Vida. Faltou o governo estabelecer um plano como esse e chamar os pares para dialogar, participar e interagir com ele. E faltou acompanhar o desenrolar nos estados, estabelecimento de lockdown [quarentena] onde fosse necessário, etc.», sublinha Vanja Santos, lembrando que Bolsonaro chegou inclusive a criticar a quarentena no estado do Maranhão, em Maio de 2020.

Para o Conselho Nacional de Saúde, faltou ainda abastecer as entidades federadas com insumos e equipamentos, como é o caso de medicamentos e equipamentos para exames pulmonares, entre outros. «Também faltam profissionais especializados para o cuidado intensivo dos pacientes que necessitam de auxílio para respirar», sublinha Vanja Santos, ao falar em «negligência».

Ajuda da Venezuela

Apesar do posicionamento hostil do governo brasileiro para com a Venezuela e de o país caribenho estar sujeito a bloqueios e sanções decretados pelo imperialismo, a pedido do presidente Nicolás Maduro, o governo venezuelano decidiu enviar garrafas de oxigénio para o estado do Amazonas.

O envio da ajuda foi anunciado pelo ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, na sua conta de Twitter: «Por instruções do presidente Nicolás Maduro, conversámos com o governador do estado do Amazonas, Wilson Lima, para colocar imediatamente à sua disposição o oxigénio necessário para atender a contingência sanitária em Manaus. Solidariedade latino-americana acima de tudo!».

Na mesma rede social, o governador do estado fronteiriço agradeceu ao governo venezuelano o apoio e a solidariedade. «O povo do Amazonas agradece!», disse. Em declarações à TV Bandeirantes, Lima afirmou ontem que, com excepção da Venezuela, «nenhum outro país ofereceu qualquer ajuda nesse sentido».

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