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Comuna no alto do morro a fazer vida contra o bloqueio gringo

A Comuna Socialista Altos de Lídice, em Caracas, fez agora um ano. Muita da sua actividade centra-se em suprir as necessidades da população, fazendo frente às dificuldades decorrentes das sanções impostas pelos EUA.

Habitantes do bairro assistem à projecção de um documentário sobre a Comuna Socialista Altos de Lídice
Habitantes do bairro assistem à projecção de um documentário sobre a Comuna Socialista Altos de Lídice CréditosCarolina Cruz / Brasil de Fato

Localizada a norte do icónico Bairro 23 de Enero, a Comuna Socialista Altos de Lídice foi a primeira comuna fundada no Bairro de La Pastora e a centésima organização comunal na Grande Caracas, refere a jornalista Michele de Mello, do Brasil de Fato, que esteve no local por ocasião das comemorações do seu primeiro aniversário. Na Comuna, juntam-se 350 famílias e sete conselhos comunais.

Jesus García, de 26 anos, militante do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e um dos fundadores da Comuna, destacou ao Brasil de Fato «o orgulho e a satisfação» que sente, bem como a «vontade de conseguir o dobro» do que foi conseguido até agora, num contexto marcado por «sanções, bloqueio, burocracia e reformismo». Considerou «muito reconfortante que ainda existam pessoas que acreditam em Chávez, que promovem o Estado comunal».

As comunas, formas de organização popular, territorial e produtiva, que defendem o bem comum e a propriedade comum, foram propostas pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, que criou o Ministério do Poder Popular para as Comunas e defendeu este tipo de organização como forma de aprofundamento da Revolução Bolivariana.

De acordo com o Ministério do Poder Popular para as Comunas e os Movimentos Sociais, actualmente existem quase 48 mil conselhos comunais e cerca de 3000 comunas formadas no país sul-americano.

Betty Valecillos, técnica administrativa de 26 anos e membro da comissão da Saúde da Comuna, disse ao Brasil de Fato que, antes, «havia muitas pessoas que não se integravam, e ultimamente, em qualquer actividade que fazemos, temos um bom número de participantes», o que é «gratificante» e mostra o êxito deste tipo de organização.

Suprir as necessidades das populações, lutando contra o bloqueio

Em 12 meses de existência, a comuna em Altos de Lídice conseguiu inaugurar uma farmácia, com medicamentos doados por organizações de esquerda no estrangeiro. Os medicamentos – tão difíceis de encontrar em tempos de bloqueio – são destinados aos membros da Comuna, com prioridade para idosos, crianças e gestantes.

Outra área bastante atingida pelas sanções é a alimentação. Os membros da Comuna Socialista Altos de Lídice, além de garantirem a distribuição das caixas dos Conselhos Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), têm planos para abrir um restaurante comunal, garantindo refeições à população mais necessitada da zona.

Ainda na área da alimentação, os «comuneiros» incentivam a cooperação entre comunas, de modo a garantirem alimentos mais baratos. No espaço de um mês, foram realizadas duas feiras, com produtos das comunas El Maizal, no estado de Lara, San Martín, no Bairro San Juan, na região Oeste caraquenha, e El Panal 2021, no Bairro 23 de Enero.

De acordo com o Brasil de Fato, os membros da Comuna conseguiram iniciar a plantação de milho, pimentão e pimenta na parte mais alta do morro, onde o bairro se encontra com os limites do Parque Nacional Warairarepano, em redor de Caracas.

Serviços de limpeza urbana e abastecimento de água

De modo a garantir a limpeza das ruas e o bom funcionamento de tudo o que é público, a Comuna criou uma Brigada de Manutenção do morro, que faz frente a problemas diários relacionados com a falta de água, e coordena o sistema de recolha selectiva de lixo.

Jesus Garcia lê uma lista com as conquistas da comuna no espaço de um ano CréditosMarco Teruggi / Brasil de Fato

O serviço de abastecimento de água ainda não funciona de forma contínua, mas a empresa estatal Hidrocapital distribuiu dezenas de caixas de água pela população, que é frequentemente abastecida com camiões cisterna.

Depois de ler uma lista com estas conquistas e outras mais, Jesus García festeja. «Estamos a celebrar o esforço e a vitória. Isso deve-se à paciência, ao esforço e à vontade de viver melhor, de viver num mundo melhor. Deve-se ao facto de que, apesar de as oligarquias históricas nos terem mandado viver aqui num rancho, em cima do morro, não significa que temos de viver mal», frisa.

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