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|Lisboa

Vítima dos centros comerciais, Cinema Paris agora é alvo da Câmara de Lisboa

O edifício, ao abandono há décadas, está agora prestes a ser demolido, evidenciando a «ausência de visão estratégica» para o sector cinematográfico e para o uso do espaço urbano, lamenta a Academia Portuguesa de Cinema.

A última sessão do Cinema Paris, na Estrela, aconteceu em 1985. O seu encerramento coincide com a ascensão dos centros comerciais e o deslocamento das salas de exibição da rua para dentro da lógica do consumo destes espaços. Destino comum que ceifou também o Cinema Pathé, o Cineteatro Éden, o Cinema Condes, o Cinema Império e o Cinema Monumental. Processo idêntico também acometeu as lojas tradicionais nos centros urbanos, concentrando a fruição cultural e o consumo num só lugar, mais afastado da vida da cidade.

Agora, após mais de 30 anos de abandono, o edifício esquecido foi finalmente lembrado pela Câmara Municipal de Lisboa - não para hospedar algum projecto cultural, mas para ser demolido e, nesse terreno, construído um edifício residencial. Entretanto, nem para a habitação a preços controlados esta destruição será útil, já que no seu planeamento urbanístico, de 2017, o novo empreendimento não visava a renda acessível. O projecto do novo prédio prevê um edifício de sete pisos, com o total de 19 fogos habitacionais com estacionamento e uma zona comercial no térreo, avança o Público.

O parecer favorável da Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC) veio em 2019, mas só no último mês o executivo da Câmara Municipal votou a proposta do vereador do Urbanismo, Vasco Moreira Rato, com o apoio do PSD, CDS-PP, IL e CH e votos contra do PS, L, BE e PCP.

Para além do equipamento cultural desperdiçado, o edifício do Cinema Paris também detinha relevância arquitectónica do modernismo e da art déco português, o que suscitou, ao longo das décadas, diversos pareceres desfavoráveis à demolição, como pela Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC). O imóvel, inserido na Zona Especial de Protecção da Basílica da Estrela, chegou a constar no Inventário Municipal de Património, anexa ao Plano Director Municipal, mas foi retirado em 2012 aquando da revisão do plano.

Academia Portuguesa de Cinema lamenta a perda do Cinema Paris

Esta segunda-feira, 22 de Junho, a Academia Portuguesa de Cinema lamentou toda a situação, que vai muito além da «perda irreparável de um edifício com significado histórico, cultural e identitário para a cidade». Nos seus canais oficiais, a instituição ressalva que a opção pela demolição evidencia «uma ausência de visão estratégica relativamente ao papel dos cinemas de rua na vida cultural das comunidades e no desenvolvimento do sector cinematográfico nacional».

Estes «cinemas de proximidade», cada vez mais raros na cidade, oferecem uma maior diversidade de exibição. «Ao contrário da lógica dominante dos grandes centros comerciais», o cinema de rua é capaz de acolher uma programação diferenciada do grande circuito americano, com uma oferta de «cinema português, cinema europeu, cinema independente», afirma a Academia. A própria cinematografia portuguesa beneficia-se directamente de uma rede de cinemas de rua, aumentando a capacidade das produções nacionais chegarem até ao público. Sem estes espaços, «limita-se a formação de novos espectadores e enfraquece-se toda a cadeia de valor do sector audiovisual».

Estes cinemas também são espaços de encontro para além da exibição, promovendo debate, mediação cultural, convivência e participação numa contribuição para a «educação artística e para o fortalecimento do tecido social».

O desaparecimento do Paris deve ser encarado como um «alerta» que demonstra «a necessidade de uma reflexão profunda sobre o modelo cultural que queremos para Lisboa e para Portugal: um modelo que valorize a memória, promova a diversidade cultural e garanta condições efectivas para a circulação e afirmação do cinema português junto dos cidadãos.»

A Academia Portuguesa de Cinema reafirma a sua disponibilidade para colaborar com esta reflexão para a visão a longo prazo da exibição cinematográfica, a sua «proteção, recuperação e dinamização das salas independentes e dos cinemas históricos, reconhecendo-os como infra-estruturas culturais estratégicas para o país.»

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