|Jorge C.

Uma cultura proletária

Não há défice de sofisticação numa cultura proletária. Mas há pobreza de sobra na sobranceria de um purgatório de classe. A cultura proletária é uma fase superior da cultura, porque ela não se limita a ser uma cultura para entreter ou compensar. 

«Operários» CréditosTarsila do Amaral

Quando Portugal entrou na CEE, despertou-se uma vontade súbita de ascender socialmente. O brilho das novidades vindas do estrangeiro cosmopolita impunha-se, então, como um estímulo a uma nova forma de vida, inspirada pelo consumo e pelo crédito. A partir daí, espaços de sociabilidade foram perdendo relevância. Muito lentamente, as coletividades entraram num período de declínio, que já na transição do século refletir-se-ia até na dificuldade em formar listas para as suas direções. 

Quando comecei a frequentar os cafés da minha cidade com amigos e conhecidos, questionava-me, com frequência, sobre o motivo que levava um determinado grupo de pessoas a manter-se fiel a esses espaços e uma outra casta a preferir uma sociabilização mais restrita, doméstica, discreta. O movimento de ascensão de classe da minha família permitia-me experienciar as duas vivências. 

Ainda assim, havia na rua uma força mágica que me seduzia, uma novidade constante e uma liberdade audaz que me ajudavam a encontrar-me nos outros. Desses dias trago aquela que julgo ser a minha maior característica: uma cultura profundamente popular. Na rua, nos cafés, nas coletividades, nas festas e nos bailes, nos bares, nas longas caminhadas atravessando os dois concelhos onde dividia a minha vida, não precisei de um esforço de sobrevivência. Uma cultura partilhada dá-nos um lugar garantido de pertença a uma comunidade ampla, que extravasa as nossas relações mais próximas e os lugares mais familiares. 

Não estranhava as casas e as vidas insalubres dos meus colegas da escola, onde passava tardes da minha infância a tecer as malhas da amizade eterna. Com eles aprendia a ser uma peça e a não querer ser o puzzle todo. Partilhávamos lanches, lápis, canetas e bolas; mais tarde, as cassetes-pirata com as primeiras músicas do nosso tempo, as primeiras cervejas e aguardentes bebidas ao lado de homens mais velhos, com quem aprendíamos e a que desafiávamos para uma relação sem fronteiras. Líamos jornais e revistas de música e dávamos os primeiros acordes nos corredores democráticos da escola pública. Éramos contemporâneos de uma realidade complexa, cheia de contradições. 

Quando os dias dessa juventude se esgotaram, essa vivência diluiu-se. As diferenças de classe levaram uns quantos para a necessidade do trabalho e outros, como eu, para a universidade. À noite, regressava ao burgo e descia as escadas de um velho café. Ali nos encontrávamos e jogávamos dominó, bilhar ou King, ao som de um rock clássico, de discussões sobre mão-na-bola ou bola-na-mão e de preleções sobre história e geografia para contrariar o tédio da atualidade mediática. 

«Não estranhava as casas e as vidas insalubres dos meus colegas da escola, onde passava tardes da minha infância a tecer as malhas da amizade eterna. Com eles aprendia a ser uma peça e a não querer ser o puzzle todo.»

 

A crise de 2008 forçar-nos-ia, a todos, a alterar muitos desses hábitos do quotidiano. No início da década de 2010, o trabalho escasseava e era preciso rumar a outros destinos. Assentei arraiais em Lisboa, uma cidade inebriada pelo consumo cosmopolita. A troika entrava em Portugal, enquanto a escassez de emprego instigava linguagem e comportamentos profundamente contaminados de neoliberalismo. Acomodei-me a uma outra vida: mais gregária, talvez mais burguesa, numa ilusão que haveria de ser desfeita pela imposição da realidade. Era tempo de fazer escolhas (mais forçadas do que menos). Os baixos salários, a precariedade e os bloqueios a uma verdadeira autodeterminação conduziam-me, então, para uma tomada de consciência, que até ali ignorara. Essa consciência não chegava de geração espontânea, não surgia por mero exercício intelectual, nem por herança ideológica. Ela vinha de um lugar semeado com o tempo, forjado numa determinada cultura – essa cultura que reconheci na primeira vez que celebrei o 1.º de Maio como um dia de luta; quando, ainda com um passo tímido, entrei na Festa do Avante!; ou quando vivi o início dessa longa caminhada do Belenenses a partir da última divisão distrital, ao lado de uma claque orgulhosamente proletária

Há uma certa sensação libertadora quando rompemos ilusões e assumimos o nosso lugar no mundo. Esse primeiro passo para uma consciência real de classe é uma rutura com o modelo da alta-cultura, onde arte e cultura são confundidas e uniformizadas, gerando uma divisão entre diferentes setores, que se excluem mutuamente. É nesse contexto que se desenvolvem, por um lado, políticas e comportamentos elitistas e, por outro, um sentimento amplo e conveniente de anti-intelectualismo. A cultura, inspirada apenas numa expressão artística feita de códigos de acesso exclusivo e de snobismo intelectual, passa a significar um privilégio das camadas mais escolarizadas e um sinal de estatuto, de distinção. Os espaços com as quais é identificada criam, naturalmente, uma barreira que nenhuma narrativa de acesso caridoso poderá derrubar. 

«Há uma certa sensação libertadora quando rompemos ilusões e assumimos o nosso lugar no mundo.»

 

As ilusões e as divisões criaram uma atmosfera de conflito que é, na verdade, um equívoco. Apesar dos diferentes níveis e códigos em que todos nos desenvolvemos, há um lugar único a que pertencemos e que precisamos de habitar em conjunto, não acomodando apenas a diferença com desconfortos, mas aprendendo e construindo na diversidade e no calor da semelhança. O operário e o artista, o advogado e o operador de caixa, o cantoneiro e o médico, o eletricista e o pequeno-empresário podem nem ter a mesma linguagem, podem até usar palavras diferentes para significar as mesmas coisas, mas quando desistem de partilhar a mesma garrafa ou de tomar, em conjunto, a rua, o seu futuro comum será mais difícil e a fratura uma ferida aberta na nossa realidade democrática.

Não precisamos de rejeitar a arte. Precisamos, isso sim, de rejeitar a imposição de uma conceção elitista, como modelo exclusivo, e precisamos de recuperar a vivência do quotidiano e um espaço de comunidade feito por nós e para nós. Essa rutura tem tanto de comportamental como de sentimental. Não nos basta subsidiar a existência do proletariado, observando-o como um objeto exótico, inventando soluções assistencialistas, quando, intimamente, sentimos um inevitável ascendente sobre os demais. Enquanto a nossa imagem não se refletir nessa massa de gente, nos seus gestos, na sua cultura, no seu futuro, seremos meros turistas de classe. 

Não há défice de sofisticação numa cultura proletária. Mas há pobreza de sobra na sobranceria de um purgatório de classe. A cultura proletária é uma fase superior da cultura, porque ela não se limita a ser uma cultura para entreter ou compensar. Ela é cultura feita com consciência de que se é povo, superando as limitações e dificuldades na solidariedade e com os olhos postos no horizonte. A cultura proletária não serve agendas egoístas. Ela é impulso coletivo para um lugar de felicidade e alegria partilhadas, através do qual desenhamos a «arquitetura do comum», a folha onde contamos a nossa história e onde construímos um guião para o futuro. Nela cabe um mundo de possibilidades e uma oportunidade infinita para aprender. 

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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