|E o mundo é a nossa tarefa

Port-Wine

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

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Manhã depois do Dilúvio, William Turner
Manhã depois do Dilúvio, William TurnerCréditosWilliam Turner

Port-Wine

O Douro é um rio de vinho 
que tem a foz em Liverpool e em Londres 
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires: 
quando chega ao mar vai nos navios, 
cria seus lodos em garrafeiras velhas, 
desemboca nos clubes e nos bares. 

O Douro é um rio de barcos 
onde remam os barqueiros suas desgraças, 
primeiro se afundam em terra as suas vidas 
que no rio se afundam as barcaças. 

Nas sobremesas finas as garrafas 
assemelham cristais cheios de rubis, 
em Cape-Town, em Sidney, em Paris, 
tem um sabor generoso e fino 
o sangue que dos cais exportamos em barris. 

As margens do Douro são penedos 
fecundados de sangue e amarguras 
onde cava o meu povo as vinhas 
como quem abre as próprias sepulturas: 
nos entrepostos do cais, em armazéns, 
comerciantes trocam por esterlino 
o vinho que é o sangue dos seus corpos, 
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres, os lords e em Paris os snobs, 
No Cabo e no Rio os fazendeiros ricos 
acham no Porto um sabor divino, 
mas a nós só nos sabe, só nos sabe, 
à tristeza infinita de um destino. 

O rio Douro é um rio de sangue, 
por onde o sangue do meu povo corre. 
Meu povo, liberta-te, liberta-te! 
Liberta-te, meu povo! — ou morre. 

                          Joaquim Namorado

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