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«A Noite», ou quando sobe a palco a força do povo

O AbrilAbril assistiu à peça A Noite, de José Saramago, pela Yellow Star Company, e falou com actores. A noite de 24 para 25 de Abril de 1974, na redacção de um jornal em Lisboa, é o centro do trabalho que deverá regressar em 2027.

Créditos / Yellow Star Company

Ao longo dos últimos dois anos, o Centro Cultural Malaposta, em Odivelas, foi a casa principal da peça de teatro A Noite, que, tendo andado por todo o País, teve a sua última sessão de 2026 no passado dia 17 de Maio.

Esta peça, produzida pela Yellow Star Company, recupera o texto homónimo de José Saramago onde, na noite da Revolução dos Cravos, somos convidados a acompanhar os tumultuosos acontecimentos de uma redacção de um jornal lisboeta onde, com o passar da noite, vão ficando cada vez mais bem definidos os dois lados da barricada.

Ao longo de mais de duas horas, a estória que ouvimos é a de uma redacção amordaçada pelo crivo dos interesses do regime fascista que tem do seu lado, para além do director e chefe da redacção, a secretária e o redactor parlamentar como tropa de choque. Do lado oposto, Torres é um jornalista teimoso, contestatário e pronto a dar o seu contributo para o derrube do regime. Do seu lado, a estagiária Cláudia e o tipógrafo Jerónimo.

O peso que Jerónimo tem no desenrolar dos eventos é uma das principais valências da peça. O peso que o trabalho manual assume junto do trabalho intelectual desenvolvido na redacção deixa-nos muito espaço para refletir. Ainda para mais quando atendendo aos desenvolvimentos da noite que vão colocando, sobre os ombros de Jerónimo, cada vez de forma mais vincada, a pressão de dirigir o processo da eventual saída da edição do dia seguinte.

Passados uns dias desta última exibição, contactámos Luís Pacheco (assistente de encenação, que interpreta o papel de chefe da redacção) para falar sobre A Noite e o seu percurso. Nesta conversa, ficou ainda mais clara a justa intenção e carinho com que este espectáculo foi realizado.

Dois anos em cena não é a coisa mais normal nos teatros, sobretudo com a pouca promoção feita pela comunicação social. Como foi possível?
A peça tem alguns trunfos. O mais importante é um texto muito bem escrito por Saramago. Teve ainda uma aposta bastante forte no elenco, com o Corrula, o Didelet, entre outros… o que também ajuda a vender. Mas sinto que o principal é mesmo o texto e a forma como este foi abordado. Inicialmente é um texto muito pesado, e o encenador Paulo Sousa Costa conseguiu fazê-lo chegar da melhor forma ao público. As sessões nas escolas também têm surpreendido. Miúdos dos 11.º e 12.º anos focadíssimos do início ao fim, interessados, a fazer perguntas, a querer aprender mais sobre o 25 de Abril…

A ausência da tipografia em cena é uma ausência, se permites, com bastante presença. Seja através das entradas do Jerónimo, seja com, a dado momento, a reacção bem audível dos tipógrafos ao saber da Revolução. Como foi criar este ambiente?
Na base do texto, a equipa de tipografia não é só uma pessoa, nós é que acabámos por juntar o grupo de tipógrafos no Jerónimo. Primeiro, porque há a questão dos custos e, mesmo visualmente, na própria peça, achámos que não iria acrescentar muito. O caminho do encenador foi este também porque a acção passa-se quase toda na redacção, refere-se muitas vezes a tipografia, mas como um espaço que não é visível.

No teu papel [de chefe da redacção], uma coisa que nos impactou foi o nervosismo e o descontrolo sentidos em face dos desenvolvimentos, tentando dirigir o processo, mas compreendendo rapidamente que aquilo lhe está a fugir. Sentes que essa é a imagem que passa?
Sim, é verdade! O Valadares é uma personagem muito pouco consistente, é uma pessoa com pouca personalidade e carácter. Digo facilmente que o Valadares está completamente submetido ao regime, não por princípio, mas porque lhe dá jeito. Ele adapta-se à situação. Se, por um lado, puxa dos galões face aos jornalistas, em frente do director é um cordeirinho. O seu objectivo bem definido é o de levar a melhor a nível profissional, mas é moldado pela circunstância e depois perde o controlo da situação. A cena da conversa com o Torres, onde o tenta convencer a ficar do seu lado, mostra como é um «lambe-botas».

Ao longo da peça, enquanto a redacção se vai tornando um espaço em disputa, com cada vez mais tensão, o gabinete representa um espaço de defesa para os responsáveis de publicação, como se transmite essa ideia?
Sim, sim, é um pormenor muito importante na peça. É um quartel-general quase intransponível, onde o director recebe visitas como as da PIDE. A redacção do jornal é controlada por interesses superiores, e todos sabemos que é assim que funciona. Ali no escritório ainda há uma muralha, mas quando a estagiária irrompe [um dos últimos momentos da peça] quebra essa barreira, foi um golpe completamente incisivo. Ali vê-se mais um sinal da perda de poder do director e do chefe de redacção. Há uma altura em que o próprio Jerónimo pergunta se o director quer conversar ali [na redacção] ou na tipografia, e o director sente que já não tem a capacidade para recusar.

Realizaram o espectáculo na noite de 24 de Abril, como foi relativamente às outras sessões?
Foi diferente, e não só para nós no palco. Conhecendo a história e representado a peça, nós acabamos por receber a energia do público e, nessa noite, sentimos uma energia completamente diferente. Há uma tensão no fim, pessoas a chorar, felizes, a ficar na porta para falar connosco. Tinhas muitos que viveram aquele momento e vês muita emoção à mistura.

Esta peça assume o lado da defesa da liberdade e da revolução de Abril. Qual a importância que sentes de assim ser, nos dias de hoje?
Sentimos que é dos poucos acontecimentos [a Revolução de Abril] em que a mensagem ainda vai passando. A peça vai durando porque os pais passam o espírito aos filhos. Temo que um dia esta história deixe de ter o impacto que tem. Tenho uma filha de 20 anos que a vive muito, mesmo não a tendo vivido. O meu pai foi militar de Abril e isso passa-se! Tenho algum contacto com isto e sempre passei à minha filha. Hoje [referindo-se a uma sessão realizada numa escola], no final, [cena em que o Jerónimo se afirma perante o director] os miúdos começaram a bater palmas, sentiu-se o sentimento da vitória.

Há mais alguma coisa que queiras destacar na peça?
Há um pouco de autobiografia de Saramago. Há quem diga que ele tentou colocar no Torres o que ele tentou ser, essa parte é interessante e eu acredito que é verdade. É um texto que nos dá muito gosto de fazer. E certamente vai voltar para o ano!

 

A possibilidade de esta peça regressar no próximo ano é algo que deve dar esperança e alento para a existência de uma programação cultural, de dimensão nacional, que destaque e aposte em peças que enalteçam o espírito e valores de Abril, reforçando perante o público a força que este, enquanto povo, tem para transformar a realidade.

A obra de Saramago foi notícia recentemente devido à sua retirada do plano curricular. Em sentido inverso, a curiosidade e o interesse em torno desta aparentam estar mais fortes que nunca. Para além desta encenação, teremos brevemente uma nova interpretação desta obra, no cinema, por Leonel Vieira. São sinais que apontam no sentido da possibilidade da construção de um quadro de valores antagónico àquele reproduzido e projectado pelo poder económico e seus aparelhos de difusão ideológica, exista coragem!

Já no final da peça, procuramos saciar uma última curiosidade. Trocando algumas palavras com Henrique de Carvalho (Fonseca, quando em palco), que aproveita para contar algumas histórias sobre a peça, tentamos, sem querer esticar a sorte, verificar uma teoria: de que, no início, há personagens claramente alinhadas, em ambos os lados, mas a meio existem aqueles que se ganham para a dinâmica revolucionária (nomeadamente o contínuo e o jornalista desportivo). Aqueles que, no contexto certo, dão um salto na compreensão dos seus interesses de classe. O Henrique interrompe-me (sintetizando, e bem): «É o povo!» E assim ficou mais clara ainda uma ideia. É muito positivo quando aqueles encarregues de criar estes momentos compreendem o potencial transformador existente quando os que são submetidos à exploração se unem por um futuro diferente.

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