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Mário Cláudio vence de novo o Grande Prémio do Romance e Novela

O escritor portuense torna-se o primeiro autor a receber por três vezes o galardão atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, considerado o mais importante prémio literário nacional.

O escritor Mário Cláudio durante a recepção do Prémio D. Dinis, realizada no Palácio de Mateus, em Vila Real, a 30 de Setembro de 2017
O escritor Mário Cláudio durante a recepção do Prémio D. Dinis, realizada no Palácio de Mateus, em Vila Real, a 30 de Setembro de 2017CréditosPedro Rosário / LUSA

O escritor Mário Cláudio venceu o Grande Prémio Romance e Novela 2019 com a obra Tríptico da Salvação, anunciou hoje a Associação Portuguesa de Escritores (APE), anunciou a agência Lusa.

Desde 1982 o prémio já foi atribuído a 31 autores, tendo-o obtido por duas vezes os escritores Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e Ana Margarida de Carvalho.

Mário Cláudio torna-se o primeiro autor a receber por três vezes aquele que é considerado o mais importante galardão literário nacional, depois de o ter vencido em 1984, com Amadeo, e em 2014, com Retrato de rapaz.

De acordo com a APE, que atribui o prémio em conjunto com a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), a decisão do júri foi por maioria, sublinhando-se «o invulgar domínio da língua portuguesa e o modo como [o autor] prende a atenção do leitor, criando linhas de expectativa na composição do xadrez narrativo».

Tríptico da Salvação, justifica o júri, «volta a pôr em cena a extraordinária competência do autor para recriar ambientes: cores, sons, sabores». O livro foi editado pelas Publicações Dom Quixote em Maio de 2019, ano em que o autor perfez 50 anos de vida literária.

A acção passa-se durante a Renascença alemã e a Reforma luterana, na viragem do século XV para o século XVI, e conduzirá o leitor ao estúdio do pintor Lucas Cranach, dito «o velho» para o diferenciar dos seus dois filhos, também pintores.

Mário Cláudio é o pseudónimo literário de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nascido no Porto a 6 de Novembro 1941, «no seio de uma família da média-alta burguesia industrial portuense de raízes irlandesas, castelhanas e francesas, e fortemente ligada à História da cidade nos últimos três séculos», como se pode ler no sítio da DGLAB.

Fez os estudos liceais no no Colégio Almeida Garrett, na cidade onde nasceu e vive, tendo-se licenciado em Direito na Universidade de Coimbra (1966).

Mobilizado para a guerra colonial, ingressou na secção de Justiça do Quartel General de Bissau, onde testemunhou crimes de guerra que veio a relatar, mais tarde, no romance Astronomia (2017).

Regressou a Coimbra para concluir o curso de Bibliotecário-Arquivista (1973) e em Londres, como bolseiro do Instituto Nacional de Investigação Científica, obteve o Master of Arts in Library and Information Studies, pela Universidade de Londres (University College).

Da sua tese resultaria o único livro que assinou com o seu nome de baptismo, Rui Barbot Costa: Para o Estudo do Analfabetismo e da Relutância à Leitura em Portugal (1979).

Créditos

Dirigiu a Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia e foi técnico superior da Delegação Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Empenhou-se na instituição de um Museu de Literatura no Porto. Integrou a direcção da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e pertence aos órgãos sociais da APE, onde actualmente desempenha as funções de presidente da Assembleia-geral.

Em 1985 encetou actividade de docente na Escola Superior de Jornalismo do Porto. Foi ainda professor convidado da Universidade Católica do Porto e formador de Escrita Criativa, na Fundação de Serralves e no Politécnico do Porto.

Uma carreira prolífica, diversificada e reconhecida

Mário Cláudio é o autor de uma prolífica obra que se estende por variados géneros literários: poesia, romance, teatro, conto, crónica, novela, literatura infanto-juvenil, ensaio, biografia e tradução.

Escreveu inúmeros textos de opinião e conferências, mas também séries documentais para a televisão. Fez traduções, organizou antologias e comunidades de leitores, prefaciou inúmeros novos autores e colaborou dispersamente em mais de meia centena de diferentes jornais e revistas, nacionais e estrangeiros, entre os quais se contam as revistas Colóquio/Letras, Vértice e Loreto 13, e o Jornal de Letras Artes e Ideias (JL).

Revelou-se como poeta com o volume Ciclo de Cypris (1969); foi, porém, como ficcionista que mais se afirmou. Um Verão assim (1974) e As máscaras de sábado (1976) despertaram a atenção da crítica para «um autor para quem o verso e a prosa constituem modalidades intercambiáveis, detendo características comuns», como afirma o seu editor.

A notoriedade junto do público foi atingida com Amadeo (1984), biografia do pintor futurista Amadeo de Souza-Cardoso e primeiro volume da «Trilogia da Mão», na qual o escritor abordou a vida e obra de outras duas figuras artísticas nortenhas, a violoncelista Guilhermina Suggia e a barrista Rosa Ramalho – respectivamente com Guilhermina (1986) e Rosa (1988). Através dos três artistas, faz notar a DGLAB em biografia já referida, «tipificou distintos estratos sociais (aristocracia, burguesia, povo) e o «imaginário nacional», entre o virar do século XIX e meados do século XX».

Além dos três romances que venceram o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB, Mário Cláudio viu reconhecido o seu trabalho em numerosas outras distinções literárias, seja por obras publicadas seja enquanto autor.

Outros romances premiados foram Guilhermina (Prémio RDP Antena 1 de Literatura, 1986), Tocata para dois clarins (Prémio Literário A. Lopes de Oliveira, 1992), O pórtico da glória (Prémio Municipal Eça de Queiroz, 1997; Prémio PEN Clube Português de Narrativa, 1998), Camilo Broca (Prémio PEN Clube Português de Narrativa, 2007; Prémio Literário Fernando Namora, 2008), Tiago Veiga (Prémio Autores SPA, 2012) e Astronomia (Prémio D. Diniz, 2017; Grande Prémio de Literatura dst, 2017).

Noutros géneros viu premiadas as crónicas A cidade no bolso (2000) e A alma vagueante (2018), com o Grande Prémio de Crónica da APE, e com Olga e Cláudio (1986) ganhou o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens.

Como autor recebeu o Prémio Seiva Trupe de Literatura (1993), o Prémio Pessoa (2004), o Prémio Alberto Pimenta do Clube Literário do Porto (2005) e o Prémio Vergílio Ferreira (2008).

Mário Cláudio foi agraciado com as comendas da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2000), de Chevalier des Arts et des Lettres, atribuída pelo Ministério francês da Cultura (2006), e da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2019).

Em 2019 recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade do Porto, pelos 50 anos de vida literária e pela colaboração cívica que desenvolve a partir daquela cidade.

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