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Maria do Céu Guerra distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura

A actriz e encenadora Maria do Céu Guerra foi distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, em reconhecimento à sua ímpar carreira artística.

Maria do Céu Guerra em
Maria do Céu Guerra em "Menino de sua avó", de Armando Nascimento Rosa, encenação de Maria do Céu Guerra e Adérito Lopes, A Barraca, 2013.Créditos / A Barraca

A actriz e encenadora Maria do Céu Guerra, uma das fundadoras da companhia de teatro A Barraca, foi distinguida com o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, segundo comunicado da Estoril-Sol distribuído pela Agência Lusa.

Maria do Céu Guerra, de 75 anos, «desenvolveu, ao longo de mais de cinco décadas, uma carreira ímpar ligada às artes», reconhece o júri do Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, presidido por Guilherme d’Oliveira Martins e integrado, ainda, por Maria Alzira Seixo, José Manuel Mendes, Manuel Frias Martins, Maria Carlos Loureiro, Liberto Cruz, Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu.

O júri justificou a sua escolha acrescentando que foi a personalidade escolhida «por se ter destacado, ao longo da vida, numa prática de cidadania cultural, enquanto actriz, que levou à cena e por diferentes modos divulgou os grandes textos da literatura portuguesa e, nessa intervenção, que manteve A Barraca como núcleo de irradiação cultural, formativo e vocacionado para a descoberta e criação de novos públicos».

«colocamos no trabalho e no jogo do actor o nosso mais alto investimento cenográfico. O corpo físico do actor bem como a roupa que a personagem enverga e a define são na maior parte das produções a nossa principal cenografia»

Maria do Céu Guerra

A actriz e encenadora é a primeira mulher a receber o prémio, que nas suas três edições anteriores distinguiu o ensaísta Eduardo Lourenço (2016), o jornalista e escritor José Carlos Vasconcelos (2017) e o ensaísta e prestigiado camoniano Vítor Aguiar e Silva (2018).

A cerimónia da entrega do Prémio a Maria do Céu Guerra «será anunciada oportunamente», segundo o referido comunicado.

O Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural tem um valor pecuniário de 20 mil euros e visa «distinguir um escritor, ensaísta, poeta, jornalista, tradutor ou produtor cultural que ao longo da carreira – ou através de uma intervenção inovadora e de excepcional importância –, haja contribuído para dignificar e projectar no espaço público o sector a que pertença», lê-se no regulamento elaborado pela Estoril-Sol, entidade promotora da iniciativa.

O nome da distinguida foi conhecido no dia 3 de Janeiro, em que o escritor Vasco Graça Moura (1942-2014), cuja memória o prémio homenageia, completaria 77 anos.

Maria do Céu Guerra: uma vida no palco

Maria do Céu Guerra de Oliveira e Silva nasceu em Lisboa, a 26 de maio de 1943. Frequentou a licenciatura de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1962 a 1964). Como referiu em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, «no primeiro ano, achava que ia ser escritora, no segundo achava que ia ser escritora e actriz, e no terceiro achava que ia ser actriz». Adere ao Grupo Cénico onde se estreia (1963) na peça Assembleia ou Partida, de Correia Garção, encenada por Claude-Henri Frèches. Foi o início de uma carreira que jamais abandonou e que, mais de cinco décadas depois, se evidencia como enriquecedora e marcante do panorama teatral português, mas que também abrangeu o cinema e a televisão.

Até ao início dos anos 70 integra o grupo fundador da Casa da Comédia (1963), participa na fundação do Teatro Experimental de Cascais (1965), onde se profissionalizou e desdobra-se entre o teatro de revista e a comédia, entre 1970 e 1974.

Maria do Céu Guerra em "Bodas de Sangue", de Federico García Lorca, encenação de Carlos Avillez, Teatro Experimental de Cascais, 1968 Créditos

Com a Revolução dos Cravos inicia-se uma época de liberdade com a qual a sua carreira se entrelaçará definitivamente.

Em 1975 fundou a companhia de teatro A Barraca, que começa a trabalhar num projecto da própria Maria do Céu Guerra. «Durante um ano se trabalhou em silêncio para que este projecto fosse possível», relembrará a artista em 2016, em texto dedicado ao 40.º aniversário da companhia. Tratava-se de levar à cena a peça Por estes Santos Latifúndios, do colombiano Teatro de La Candelaria. Rebaptizada como A Cidade Dourada, a peça teve cenário de Mário Alberto, poemas de José Carlos Ary dos Santos e música de Fernando Tordo sobre um fado de José Manuel Osório, encenação coordenada por Fernanda Alves.

Maria do Céu Guerra em Santa Joana dos Matadouros, de Bertolt Brecht. Foto de arquivo Créditos

Estreou a 4 de Março de 1976 na Incrível Almadense e foi a primeira de cerca de 110 produções nos últimos 42 anos, em que, para além de actriz, Maria do Céu Guerra foi desempenhando outras funções, como figurinista ou direcção ou concepção de guarda-roupa, cenografia ou direcção plástica, produção, adaptação ou dramaturgia e, com maior preponderância, como encenadora.

«Em arte não se podem separar os universos. Digo gestão - digo estética. Por isso, A Barraca não pára de fazer sessões para manter a Companhia. Por isso, A Barraca aceita todos os convites, mesmo em péssimas condições, para manter a Companhia. Por isso grande parte das pessoas trabalhou durante estes últimos anos, horas sem fim pro bono, para manter a Companhia. Porque a Companhia é o corpo dos actores que dá corpo às peças, o corpo dos técnicos que dá luz às peças. A Companhia é a voz que atende o público, sem o qual não vivemos.»

Maria do Céu Guerra

Além, naturalmente, da direcção da companhia, que há largos anos partilha com Hélder Costa, e que passou de não ter espaço algum para o Espaço Cinearte, que ainda hoje mantém, num singular projecto artístico e cultural que o júri do Prémio Vasco Graça Moura soube reconhecer.

Seria fastidioso enumerar todas as produções que compõem o rico historial d’A Barraca, tal como seria fastidioso enumerar os autores de textos e de músicas, actores e actrizes, cenógrafos, encenadores, músicos e tantos outros colaboradores que a companhia trouxe ao público.

Entre outros galardões, Maria do Céu Guerra recebeu o Prémio da Imprensa para Actriz de Teatro de Revista (1970) e para Actriz de Teatro (1981), o Globo de Ouro para Melhor Actriz de Teatro (2007) e para Melhor Actriz de Cinema (2015); e o Prémio Sophia para Melhor Actriz Principal (2015).

Como personalidade destacada da vida cultural portuguesa, foi condecorada com o grau de Dama da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1985) e recebeu o grau de Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique (1994).

O trabalho de Maria do Céu Guerra estendeu-se ao cinema e à televisão. No primeiro estreou-se em O Mal-Amado (1974), de Fernando Matos Silva, e participou em diversos filmes de outros destacados realizadores portugueses, com o seu desempenho mais recente, no filme Os Gatos não têm Vertigens (2015), de António-Pedro Vasconcelos, a valer-lhe um Globo de Ouro e o Prémio Sophia. Na segunda participou em peças televisivas e desde o final dos anos 90 que participa em telenovelas, as mais recentes das quais são Jardins Proibidos (2014-2015) e A Impostora (2016)

Maria do Céu Guerra é irmã do jornalista e escritor João Paulo Guerra. É mãe de outra actriz, Rita Lello (do seu casamento com o actor Luís Lello) e de Mário Guerra (do seu casamento com o cenógrafo e pintor Mário Alberto).

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