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Foi redescoberta a «Frigideira» do Tarrafal

As memórias de presos políticos enviados pela ditadura para o campo de concentração do Tarrafal ajudaram, quase 90 anos depois, a redescobrir a «Frigideira», espaço de tortura que o regime usou e depois destruiu.

CréditosLuís Miguel Fonseca / Agência Lusa

«Há toda uma série de gente que esteve aqui presa, nessa primeira fase, que deixou o seu testemunho, que é conhecido e publicado, com uma ou outra descrição mais clara sobre a estrutura», explicou André Teixeira, arqueólogo e professor da Universidade Nova de Lisboa.

Debaixo de uma nuvem de pó, arrastada pelo vento, o investigador mostrou à Lusa a zona até onde as descrições levaram a equipa cabo-verdiana e portuguesa, no exterior do campo, 160 metros a sul da entrada principal.

Todo o espaço está a ser limpo, passado a pente fino na primeira intervenção arqueológica na área, no âmbito da candidatura do antigo campo (actual Museu da Resistência) a Património da Humanidade, junto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Durante os trabalhos, que estão a revelar várias estruturas fora dos muros, ouviu-se uma das máquinas raspar em pedra: eram as fundações da «Frigideira», caixa de betão que estava exposta ao sol, propositadamente escaldante, vincando a brutalidade fascista.

Os arqueólogos começam agora a escavar com minúcia e a revelar fundações, chão, linhas de paredes que definem a localização das duas portas e marcam o perímetro, «que coincide com as descrições: sete metros por 3,5», onde couberam 20 pessoas, em punição, a pão e água, como é descrito no museu.

Pedro Soares, que escreveu Tarrafal, Campo da Morte Lenta, é um dos exemplos de testemunhos de prisioneiros que ajudaram à redescoberta, referiu André Teixeira, assim como o de Cândido Oliveira, «que foi seleccionador nacional de futebol, que tem também uma descrição sobre a localização de várias coisas, preciosa para a interpretação deste espaço na primeira fase». 

A «Frigideira» foi arrasada após a Segunda Guerra Mundial, num contexto em que o regime fascista tentava «ocultar» o que tivesse «conotação negativa», acrescentou, e a localização precisa perdeu-se.

No entanto, a sua marca perdurou: «basta ver que as memórias dos presos da segunda fase», depois de 1961, mantêm essa referência à «Frigideira» porque «foi o maior elemento de tortura associado ao sistema de repressão e de isolamento do campo de concentração», assinalou Ana Samira Baessa, presidente do Instituto do Património Cultural (IPC) de Cabo Verde.

«Pouco de­pois de o sol nascer, já o ar se tor­nava aba­fado, ir­res­pi­rável. Des­píamos a roupa e es­ten­díamo-la no ci­mento para nela nos dei­tarmos. O sol ia er­guendo-se sobre o ho­ri­zonte e o calor au­men­tava, au­men­tava e suá­vamos, suá­vamos. Sen­tíamos sede, ba­tíamos na porta a pedir água, mas não tí­nhamos res­posta. A água da bilha não tar­dava em ficar quente. Havia mo­mentos em que a sede era tanta que pas­sá­vamos a língua pela pa­rede por onde es­cor­riam as gotas da nossa res­pi­ração que ali se con­den­sava (…) A "Fri­gi­deira" ma­tava.», descreveu Gabriel Pedro, resistente antifascista que passou, ao todo, 135 dias no violento cativeiro. 

A redescoberta da «Frigideira», assim como de outros espaços em redor do campo – como as áreas do colonato, granja ou pedreira – vão levar o IPC a rever os painéis do Museu da Resistência, para «integrar novos elementos», detalhou Ana Samira Baessa.

Segundo a presidente do IPC, «é preciso» que o património «esteja presente para que esta história nunca mais se repita», apontando para a temática da candidatura a Património da Humanidade: «exploramos a ponte entre actos de resistência e de sofrimento e os novos diálogos em torno da paz, da liberdade e do respeito pelos direitos humanos».

A «Colónia Penal do Tarrafal» encarcerou presos políticos em duas fases, entre 1936 e 1954 e entre 1961 e 1974, período durante o qual sofreu várias alterações.

Ao todo, foram presas no chamado campo da morte lenta mais de 500 pessoas. Numa lápide evocativa erguida no interior estão inscritos os nomes de 36 pessoas que ali morreram: 32 portugueses, dois guineenses e dois angolanos.


Com agência Lusa

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