|E o mundo é a nossa tarefa

Estradas

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

Under the Trees, Bigger 2010–11, David Hockney
Under the Trees, Bigger 2010–11, David HockneyCréditosDavid Hockney

Estradas

Não era noite nem dia. 
Eram campos, campos, campos 
abertos num sonho quieto. 
Eram cabeços redondos 
de estevas adormecidas. 
E barrancos entre encostas 
cheias de azul e silêncio. 
Silêncio que se derrama 
pela terra escalavrada 
e chega no horizonte 
suando nuvens de sangue. 
Era a hora do poente, 
quase noite e quase dia. 

E nos campos, campos, campos 
abertos num sonho quieto, 
sequer os passos de Nena 
na branca estrada se ouviam. 
Passavam árvores serenas, 
nem as ramagens mexiam, 
e Nena, para lá do morro, 
na curva desaparecia. 
Já da noite que avançava 
os longes escureciam. 
Já estranhos rumores de folhas 
Entre as esteveiras andavam, 
quando, saindo um atalho, 
veio à estrada um vulto esguio. 
Tremeram os seios de Nena 
sob o corpete justinho. 
E uma oliveira amarela 
debruçou-se da encosta 
com os cabelos caídos! 
Não era ladrão de estradas, 
nem caminheiro pedinte, 
nem nenhum maltês errante. 
Era António Valmorim 
que estava na sua frente. 

— Ó Nena de Montes Velhos, 
se te quisessem matar 
quem te havera de acudir? 

Sob o corpete justinho 
uniram-se os seios de Nena.
 
— Vai-te António Valmorim. 
Não tenho medo da morte, 
só tenho medo de ti. 
Mas já a noite fechava 
a saída dos caminhos. 
Já do corpete bordado 
os seios de Nena saíam 
— como duas flores abertas 
por escuras mãos amparadas! .. 
Ai que perfume se eleva 
do campo de rosmaninho! 
Ai como a boca de Nena 
se entreabre fria, fria! 
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas 
e sobre a sua cabeça 
o céu de estrelas se abriu... 

Ao longe subiu a lua 
como um sol inda menino 
passeando na charneca... 
Caminhos iluminados 
eram fios correndo cerros. 
Era um grito agudo e alto 
que uma estrela cintilou. 
Eram cabeços redondos 
de estevas surpreendidas. 
Eram campos, campos, campos 
abertos de espanto e sonho...

                          Manuel Fonseca

Tópico