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Corpo, Sombra e Natureza

Exposições «Lugar de Sombra» de Jorge Abade, «Do Jardim Tropical ao Carvão Vegetal II» de Christine Enrègle, «Paisagens Prováveis» de Fernanda Guerreiro e «Santidade da Água» de João Ribeiro.

Exposição «Do Jardim Tropical ao Carvão Vegetal II», de Christine Enrègle, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, até 16 de junho 
Exposição «Do Jardim Tropical ao Carvão Vegetal II», de Christine Enrègle, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, até 16 de junho Créditos / Christine Enrègle

 No Átrio da Biblioteca da FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto 1 apresenta-se a Exposição de Desenho «Lugar de Sombra» de Jorge Abade2, até 15 de julho. Esta exposição de Jorge Abade é apresentada no âmbito do projeto Riscotudo, desenvolvido por José Manuel Barbosa que partilha a curadoria com José Maria Lopes. Riscotudo é «um espaço expositivo onde se apresentam propostas que trabalham os elementos gráficos e plásticos do desenho privilegiando técnicas e concepções estéticas dispares».

Exposição «Lugar de Sombra», de Jorge Abade, na Biblioteca da FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, até 15 de julho Créditos

No texto de apresentação da exposição, Jorge Abade, fala-nos de uma «gigantesca sala escura», apenas iluminada por uma vela, cujo brilho «inunda subtilmente todo o espaço. Apercebemo-nos disso porque, ao olharmos para nós, vemo-nos tocados por essa doce (porém dramática), tenebrosa e frágil luz. Nesse momento descobrimos que o nosso corpo opaco censura essa luminosidade, percebemos, portanto, que temos corpo e a consequência disso – analogamente ao que Dante observa e designa por «sombra da carne» (l’ombra della carne), no Paraíso da sua Divina Comédia (Canto XIX, 53-88). Ter sombra é ter corpo, assim como no seu reverso conceptual – ter corpo é ter sombra». É com este texto que o artista nos remete para uma reflexão acerca de um Lugar de Sombra, que também o é, nos desenhos a carvão e a grafite que são apresentados.

No entanto, e ainda no confronto entre a luz da vela, o corpo e a sombra, «se nos aproximarmos exageradamente, arriscamo-nos a passar pela experiência de uma luz absoluta, uma claridade extrema com uma visão sem sombras, que cega e gera a perceção do nada, como a treva. Se ficarmos tempo suficiente, o pavio dessa vela acabará: assistimos à sua extinção. Na ausência do corpo ficam apenas os vestígios do que deu origem à sua projeção, invisíveis. A luz que se ausentou da sala dá lugar à treva, uma ausência absoluta, não permite sequer vislumbrar os vestígios das presenças idas. Temos, por fim, uma saturação de ausências». 

Numa aparente referência a meras questões técnicas do desenho, este texto de Jorge Abade, não deixa, contudo, de fazer referência a algumas das preocupações do filósofo Mário Perniola sobre a arte atual, acerca dos excessos da valorização da ressonância mediática, uma tese, também defendida pela socióloga Nathalie Heinich.

A Sociedade Nacional de Belas Artes3, em Lisboa, apresenta atualmente na sua programação a exposição de desenho «Do Jardim Tropical ao Carvão Vegetal II» da artista francesa Christine Enrègle4, podendo ser visitada até 16 de julho. Para esta exposição Christine Enrègle apresenta duas séries de desenhos a carvão sobre tela de algodão, «realizadas no âmbito de residências artísticas em Lisboa em 2021, a partir das Ficus Macrophylla do Jardim Botânico da Ajuda e do Jardim Botânico de Lisboa». A exposição é apresentada em dois espaços, na Galeria de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas Artes são mostrados os desenhos realizados no Jardim Botânico da Ajuda e, na Sala Azul do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, são apresentados os que foram realizados no Jardim Botânico de Lisboa.

A artista tem privilegiado, desde 2017, a prática do desenho a carvão sobre tela e o seu interesse artístico tem-se focado na representação da metamorfose das plantas «especialmente pelo crescimento da árvore cujo carácter orgânico sublinha» e é orientada para «a prática da paisagem considerada como material, cujos elementos recolhidos, deslocados e transformados, constituem a matriz das suas instalações», de acordo com o texto da exposição. Acrescentando ainda o referido texto que os seus desenhos «são vividos como o resultado (o "precipitado") do encontro entre o vegetal e o humano, que estas formas orgânicas revelam», questionando «o lugar dado ao vegetal nas nossas sociedades ocidentais e o modo de relação que mantemos com ele». 

«O que me impressionou em Lisboa em 2018 foram as árvores que encontrei cerca de quinze anos antes no Brasil. Fotografadas no Jardim da Estrela ou na Praça do Príncipe Real, as árvores pontuam os nossos percursos na cidade de Lisboa e motivam os nossos passeios», comentou a artista.

Na SNBA poderá ainda visitar as exposições, «Outros que Somos», com desenhos que nos falam acerca do olhar, «por um lado, o olhar do espectador, por outro, o olhar que a obra oferece à visão» do artista Leopoldo Criner, até 9 de julho, e «Pinturas em Colaboração», onde Pedro Almodôvar e Jorge Galindo partilham um dos espaços de exposição da SNBA, num «processo conjunto de dois criadores excecionais capazes de dialogar e de se fundirem num interesse partilhado pela criação de novas obras», até 16 de julho.

Exposição «Paisagens Prováveis», de Fernanda Guerreiro, na Sala das Colunas do Solar dos Zagallos, Sobreda, até 10 de julho Créditos

A exposição «Paisagens Prováveis» de Fernanda Guerreiro5 estará patente ao público até 10 de julho, na Sala das Colunas do Solar dos Zagallos6, na Sobreda. Esta exposição integra trabalhos de desenho e pintura sobre serigrafia da artista Fernanda Guerreiro. Sobre a base serigráfica impressa sobre papel são criadas, usando papéis, tintas e lápis, diferentes hipóteses de paisagem. Num tempo de desmaterialização dos objetos e de exploração intensa dos recursos naturais é obrigatório que a paisagem natural se altere. Não tendo nós, como espécie, tempo de nos adaptarmos, é provável que os detentores dos recursos nos proponham formas de visualizarmos o inexistente.

Segundo a artista «este trabalho tem origem em dois factos. O primeiro é a minha preocupação com a sustentabilidade… o segundo, é que nesta fase da minha vida tive restrições ao que podia fazer, tendo que me limitar a trabalhos leves e pequenos em formato».

A «Santidade da Água» de João Ribeiro7 é uma Instalação gigante de desenho que utiliza como dispositivo, a representação da molécula da água, ocupando o átrio da Biblioteca da FCT NOVA8 da Caparica até 21 de julho. Numa conversa entre o artista e José J. G. Moura falou-se que «… da água nasceu a vida.

Exposição «Santidade da Água», de João Ribeiro, na Biblioteca da FCT NOVA da Caparica, até 21 de julho Créditos

A utilização da água de modo irracional e abusivo levanta problemas crescentes de poluição e escassez, um tópico de grande preocupação (sustentabilidade). Elemento que sempre intrigou a humanidade, particularmente físicos e químicos, por conter associações moleculares relevantes (pontes de hidrogénio), tem sido, também, natural e desafiante tema para artistas… e o projeto cresceu». 

Nas palavras de António Joel, «a presente instalação de João Ribeiro traduz uma insaciável sede de desenhar… A partilha artística poderá assumir-se assim, nesta instalação de João Ribeiro, como uma actividade iniciática, prometaica e altruísta que afirma uma cosmovisão construída a partir da sede de desenhar enquanto metáfora para um demiúrgico acto criador».

Na Biblioteca da FCT NOVA decorre também a exposição coletiva «IMARGEM – 40 ANOS», organizada pela Associação de Artistas Plásticos do Concelho de Almada – IMARGEM, onde participam 24 artistas desta associação de Almada, com 40 anos de atividade cultural, até 15 julho.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto – Via Panorâmica Edgar Cardoso 215, 4150-564 Porto. Horário: dias úteis das 9h às 20h
  • 2. Jorge Abade nasceu em Lyon, 1974. Vive e trabalha no Porto. Expõe regularmente desde 2000, estando representado em significativas coleções. Doutorou-se em Ciência e Tecnologia das Artes pela UCP (2016). «Elementos para definir um conceito pictórico contemporâneo: presença e itinerários da hibridação no seu sedimentar». Licenciou-se em Artes Plásticas – Pintura pela FBAUP (2001). É docente de Desenho na FAUP, tendo também lecionado Desenho nas FCUP, UCP e IPVC.
  • 3. Sociedade Nacional de Belas Artes – Rua Barata Salgueiro, 36 – Lisboa.Horário: Dias úteis das 12h às 19h, e sábados das 14h às 19h
  • 4. Christine Enrègle nasceu em 1973 em França. Doutora em Artes Visuais pela Universidade Paris 1, Panthéon-Sorbonne desde 2008, é professora de Artes Visuais na Escola superior de Design, Condé-Paris. Durante o doutoramento, recebeu bolsas universitárias para estudar no Brasil, na Escola de Belas artes de Belo Horizonte (Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG). Desde 2017, participa em várias residências artísticas e em várias exposições individuais e coletivas em França, Portugal, Brasil, China e Coreia do Sul.
  • 5. Fernanda Guerreiro, Mestre em Arte e Ciência do Vidro pela Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa/Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e Licenciada em Design de Produção Visual pela Escola Superior de Design de Lisboa e em Artes Plásticas/ Escultura pela FBAUL. Curso de Serigrafia com António Inverno no IADE. Participou em diversas exposições coletivas e realizou várias exposições individuais. Sócia produtora da Imargem desde 2000 e atual presidente da direção.
  • 6. Solar dos Zagallos –  Largo António José Piano Júnior 2815-761 Sobreda. Horário: De quarta a sábado, das 10h às 12h e das 14h às 17h; domingos das 14h às 17h
  • 7. João Ribeiro, Lisboa, 1955. Licenciatura em Pintura / FBAUL. Mestrado em Artes Visuais - Ensino / ULHT. Desenvolve os seus trabalhos nas áreas da pintura, desenho, arte pública, gravura, cerâmica e vídeo, vindo a expor desde 1984 em Portugal, Polónia, Canadá e Bélgica.
  • 8. Sala de Exposições da Biblioteca FCT Nova do Campus Caparica, Universidade Nova de Lisboa, Campus de Caparica, 2829-516 Caparica – Almada. Horário: segunda a sexta feira, das 9h às 17h

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