Ary dos Santos, o poeta do combate

Hoje assinalam-se 33 anos da morte de José Carlos Ary dos Santos. Poeta e declamador, a sua vida e obra está intimamente ligada à resistência, ao combate, à luta por um ideal libertador. Com palavras que ficaram muito para além da sua vida.

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Ary dos Santos
Ary dos SantosCréditos

Pode dizer-se que a poesia de Ary dos Santos foi uma «arma». Esta «arma», pelo seu conteúdo, ao qual Ary conseguiu juntar uma insubstituível forma, com a sua voz, foi também construtora da Revolução de Abril e da libertação de todo um povo. Poderá também dizer-se que continua a ser hoje um grito libertador perante o conformismo e a submissão.

Ary dos Santos saiu de casa aos 16 anos e vendeu máquinas de pastilhas, foi paquete na Sociedade Nacional de Fósforos, escriturário no Casino Estoril e empregado numa empresa de publicidade. Não chegou a concluir nenhum dos cursos superiores, nem em Direito, nem em Letras. A poesia sempre esteve presente e manifestou desde cedo uma abordagem a temas fracturantes. A oposição à ditadura fascista desde logo o caracterizou, caminho que se consubstanciou com a militância comunista, com a construção da Revolução e a ênfase dada «às portas que Abril abriu».

Obra literária

Aos 14 anos a sua família publica, contra a sua vontade, o livro Asas com alguns dos seus poemas. Aos 16 vê poemas de sua autoria serem seleccionados para a Antologia do prémio Almeida Garrett.

Depois de já ter saído de casa, publica em 1963 o livro de poemas A liturgia do sangue. No ano seguinte lança o Tempo da lenda das amendoeiras e o poema Azul existe.

Seguem-se Adereços, endereços, em 1965; Insofrimento in sofrimento, em 1969; Fotos-grafias, apreendido pela PIDE em 1971; Resumo, em 1973; As portas que Abril abriu, em 1975; O sangue das palavras, em 1979; e, em 1983, 20 anos de poesia.

Por altura da sua morte preparava a obra As palavras das cantigas, publicado em 1989 pelas Edições Avante!. Estava também a escrever uma autobiografia romanceada, que desejava intitular de Estrada da Luz – rua da saudade.

A sua voz inconfundível fá-lo declamador em várias edições discográficas. O seu primeiro disco, Ary por si próprio, sai em 1970. No ano seguinte participa no LP Cantigas de amigos, juntamente com Natália Correia e Amália Rodrigues.

Em 1974, é divulgado Poesia política; em 1975, Llanto para Afonso Sastre y todos; em 1977, Bandeira comunista; em 1979, Ary por Ary e, no ano seguinte, Ary 80, reeditado em CD em 1999.

A arma poética que comanda

A intervenção política de Ary vinha desde os anos 60, e assume particular relevância a partir de 1969, ano em que se inscreve no Partido Comunista Português.

Percorreu o País, às vezes sozinho com a sua poesia, outras vezes em sessões organizadas por estruturas populares nas quais participavam também os cantores de intervenção que, como ele, através da música e das palavras procuravam reflectir o sentir de todo um povo. Várias vezes essas sessões eram interrompidas pela chegada das forças repressivas.

As palavras eram uma arma que foi trazida pelo Ary para as ruas, reflectindo a inquietude de um povo sedento de liberdade e de esperança. As palavras agitavam, davam essa esperança e eram um arremesso contra a ditadura.

Para isso foi ainda utilizada a música popular urbana, também através do poderoso meio de comunicação de massas, a televisão, nomeadamente o Festival da Canção. Escreveu os poemas de quatro canções vencedoras do festival e apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção: «Desfolhada Portuguesa» (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, «Menina do Alto da Serra» (1971), interpretada por Tonicha, «Tourada» (1973), interpretada por Fernando Tordo, e «Portugal no Coração» (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos.

A capacidade criativa de Ary dos Santos, em particular em letras para cantigas, está demonstrada em mais de 600 produções poéticas. Ary dos Santos é dos poucos poetas que conseguiram transpôr para as palavras da sua poesia a consciência do momento histórico, o movimento das massas em luta, os momentos da Revolução de Abril: a Reforma Agrária, as nacionalizações, as lutas dos trabalhadores, o direito à terra e ao trabalho, à paz e ao pão. Foi um activo participante nas quotidianas lutas do povo, protagonista e intérprete dos momentos mais altos da Revolução.

Para além de permanecer numa memória viva da história, ainda hoje os poemas de Ary dos Santos são cantados por diversos artistas. 

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