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A arte como uma «ode à vida»

Desenhos de Armando Carvalho em Aljustrel, exposição de Fernão Cruz na Gulbenkian, coletiva «O Regresso do Objeto…» em Espinho e exposição do Pintor Amândio Silva em Gondomar.

Exposição de desenho «do Sonho para a Realidade», de Armando Carvalho, nas «Oficinas de Formação e Animação Cultural» em Aljustrel, até 8 de janeiro<br /> 
Exposição de desenho «do Sonho para a Realidade», de Armando Carvalho, nas «Oficinas de Formação e Animação Cultural» em Aljustrel, até 8 de janeiro
 
Créditos / Armando Carvalho

As «Oficinas de Formação e Animação Cultural»1 em Aljustrel é um equipamento municipal onde se realizam atividades de formação e animação cultural tais como, exposições, espetáculos de música e dança, tertúlias, oficinas de formação, entre muitas outras e diversificar a oferta cultural já existente, possibilitando à população o contacto com diferente correntes artísticas e projetos culturais inovadores.

No Espaço Oficinas podemos atualmente visitar a exposição de desenho «do Sonho para a Realidade», de Armando Carvalho (com o pseudónimo Nando), até 8 de janeiro.

Armando Carvalho (Porto, 1958), desde muito cedo, foi para um seminário em Arouca e foi desde então, que «a música, o teatro e a pintura começaram a ter um papel preponderante na sua vida», alimentando sempre o sonho de um dia expor os seus trabalhos. Embora ocupando as funções de chefe de oficinas de manutenção de maquinas mineiras nas Minas da Almina em Aljustrel, nada o impediu de voltar a pintar e como se refere no texto da exposição, Armando Carvalho tem vindo a apresentar «nas suas obras as histórias, sonhos, sentimentos e paisagens que retratam a comunidade de Aljustrel». A exposição que agora nos apresenta, «reflete, atualmente, o negro período que o mundo atravessa, assim como a sua visão da sociedade, as suas vivências, o gosto pela natureza e pelos seus animais».

O Museu Calouste Gulbenkian2 na Galeria do Piso Inferior apresenta a exposição individual de Fernão Cruz3, «Morder o Pó», que poderá ser visitada até 17 de janeiro. Fernão Cruz apresenta uma seleção de pinturas e esculturas inéditas num projeto pensado de raiz para a Fundação Calouste Gulbenkian. Segundo o texto apresentado à imprensa, «serão mostradas 30 obras inéditas: dez telas pintadas a óleo e a resina alquídica e 20 esculturas, quase todas em bronze, instaladas em dois espaços sucessivos, mas distintos, separados por um corredor escuro que o visitante é convidado a percorrer depois de passar uma porta-pintura entreaberta».

Obra de Fernão Cruz, Cair em palco (pormenor), 202. Exposição individual de Fernão Cruz, «Morder o Pó», no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 17 de janeiro Créditos

Acerca da sua prática artística, o artista revela que há um apagar recorrente do que pinta e que o trabalho «tem de ser capaz da sua possível autodestruição», acrescentando que «é crucial que haja tentativas e pinturas falhadas para que possa conferir sentido àquilo que faz e que acaba por não ser destruído ou esquecido».

Podemos ainda perceber no texto apresentado que, «embora este projeto reflita sobre a morte, a perda, a queda, o artista explica-nos que «"Morder o Pó" é também uma ode à vida que disfarça o medo. Uma tentativa de aceitação.» E diz-nos: «Se por um lado o título revela um certo receio da não presença (que julgo ser diferente da ausência), a exposição pode ser também uma festa.»

A Gulbenkian informa-nos ainda que a exposição de Fernão Cruz (Lisboa, 1995), um jovem artista cujo percurso se tem vindo a consolidar nos últimos anos, insere-se no apoio aos projetos apresentados por artistas jovens e emergentes na cena artística nacional. A exposição será acompanhada por um catálogo com um texto da curadora da exposição, Leonor Nazaré, que nos apresenta uma reflexão sobre a pintura como «um espaço de ficção exaltado pelo humor e por gestos expansivos», e, no caso deste projeto, como uma «porta basculante para outra dimensão: uma passagem estreita e um lugar escurecido onde a escultura fica em queda livre, num abismo insondável».

Sobre os objetos de bronze que podemos ver na exposição, a curadora refere que são apresentados «como ex-votos prosaicos», e como «apontamentos mais ou menos caprichosos daquilo que atravessa a correria concreta dos dias, mas também da fantasia que os assola». Durante o período em que decorre a exposição, haverá uma conversa com o artista e uma oferta especial, no interior do catálogo: um desenho único e inédito, assinado pelo artista.

Até 8 de janeiro de 2022, ainda poderemos visitar nas Galerias Amadeo de Souza-Cardoso do Museu Municipal de Espinho4 a exposição «O Regresso do Objeto: Arte dos anos 1980 na coleção de Serralves».

No âmbito das exposições integradas no projeto «Itinerâncias» da Fundação Serralves, ocorre esta exposição em Espinho que nos apresenta obras de Ana Jotta, António Campos Rosado, Barbara Kruger, Dara Birnbaum, Gerardo Burmester, Guerrilla Girls, Harald Klingelhöller, Joaquim Bravo, José Pedro Croft, Juan Muñoz, Manuel Rosa, Maria José Aguiar, Patrícia Garrido, Rui Aguiar, Rui Chafes, Rui Sanches, Tony Cragg e Xana, entre outros, que «personificam exemplarmente as transformações a que a arte foi sujeita nesse período e revelam como a complexidade das práticas destes artistas excede as ideias preconcebidas sobre a arte dos anos 1980».

Obra de Ana Jotta, Luz, 1980. Exposição coletiva «O Regresso do Objeto: Arte dos anos 1980 na coleção de Serralves», no Museu Municipal de Espinho, até 8 de janeiro Créditos

Além do «regresso à figuração e a reintrodução da solidez, visual e tátil (o regresso do objeto), depois das práticas de teor linguístico e eminentemente desmaterializado que caracterizaram a arte das décadas imediatamente anteriores», neste período «assistimos a um regresso a temas clássicos da história da arte, ao ressurgimento de um imaginário figurativo e metafórico associado a títulos poéticos e evocativos e à proximidade com as artes decorativas e a cultura popular. Esta diversidade relaciona-se com o começo da globalização que coloca em contacto e em influência mútua culturas muito diversas».

De acordo com a sinopse apresentada, esta exposição é ainda «uma oportunidade para revisitar a produção artística desta década, que, representando o fim do isolamento a que a ditadura tinha votado Portugal, revela um crescente sincronismo com o contexto artístico internacional». Ver vídeo da inauguração aqui.

No «Lugar do Desenho» da Fundação Júlio Resende5, em Gondomar, é apresentada uma exposição do pintor Amândio Silva6, com o título «Douro – desenho e aguarelas», na Sala de Exposições Temporárias, até 15 de janeiro.

Exposição «Douro – desenho e aguarelas» do pintor Amândio Silva no «Lugar do Desenho» da Fundação Júlio Resende, em Gondomar, até 15 de janeiro
 
Créditos

A Fundação Júlio Resende, no seguimento de uma das suas principais funções, que é também divulgar a obra dos artistas que acompanharam Júlio Resende nas diversas fases da sua carreira, apresenta agora uma exposição do artista Amândio Silva, constituindo uma oportunidade para conhecermos melhor a obra deste artista, que se caracterizou essencialmente pelo figurativismo e o neorrealismo. Amândio Silva também foi dos fundadores mais dinâmicos do Grupo «Independentes», que «nos anos 30/40 rompeu com o imobilismo do meio estético do Porto, e não só. Refira-se que a esse movimento se envolveram outras áreas criativas, tais como a Arquitetura, Escultura, Poesia, Literatura, etc., envolvimento cujo estudo está por fazer. Foi um tempo que celebrou alguns espaços de ocorrência cultural da cidade, tais como o "Jardim de S. Lázaro", o "Café Majestic", certos restaurantes da área da escola, nomeadamente o "Morte Lenta"».

Este texto, que Júlio Resende escreveu em 2012, revela-nos ainda, que a obra de Amândio Silva possui uma «marca interdisciplinar, com grande incidência na criação da Tapeçaria destinada a obras públicas» e a sua contribuição para o «revigoramento da Tapeçaria em Portugal», assim como o seu contributo para as áreas do Design e para história da Arte Gráfica no nosso país.

  • 1. Oficinas de Formação e Animação Cultural – Rua Adeodato Barreto 7600 Aljustrel. Horário: terça a sexta: 10h – 12h30 e 14h – 21h, e sábado: 10h –12h30 e 14h – 18h30
  • 2. Museu Calouste Gulbenkian – Av. de Berna, 45A, Lisboa. Horário: 10h – 18h. Encerra à terça-feira
  • 3. Fernão Cruz (1995) nasceu em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Licenciado em Pintura na FBAUL (2017), viveu, estudou e trabalhou em Barcelona. Foi artista residente no BananaJam Art Space em Shenzhen, na China (2017), e no Centro de Estudos de Arte Contemporânea, em Vila Nova da Barquinha (2018). Foi vencedor do prémio nacional Arte Jovem 2017, atribuído pelo Carpe Diem Arte e Pesquisa e pela Fundação Millennium BCP. Expõe com regularidade desde 2015 e o seu trabalho está representado em coleções, como a Coleção de Arte Contemporânea do Estado Português, a Coleção António Cachola, a Coleção de Arte Fundação EDP, a Coleção Norlinda e José Lima, a Coleção Figueiredo Ribeiro, a Fundação PLMJ e noutras coleções particulares.
  • 4. Museu Municipal de Espinho – Rua 41 / Av.João de Deus, Espinho. Horário: segunda a sexta das 10h às 17h e sábado das 10h às 18h
  • 5. Lugar do Desenho — Fundação Júlio Resende – Rua Pintor Júlio Resende, 105 4420-534 Valbom, Gondomar. Horário: segunda a sexta: 9h30  – 12h30 e 14h30 – 18h30; sábado: 14h30 – 17h30. Encerra aos domingos, feriados, Carnaval, fim de semana e segunda-feira de Páscoa, mês de agosto, 24 e 31 de dezembro.
  • 6. Amândio Silva (1923-2000), natural do Porto, formou-se em Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Na década de cinquenta obteve três bolsas de estudo para estudar pintura e tapeçaria em Paris - do Governo Espanhol (1950), da Alliance Française (1954) e da Fundação Calouste Gulbenkian (1958). Fez parte do corpo docente da ESBAP entre 1958 e 1993, ano em que se jubilou. Desenvolveu trabalhos em artes gráficas, como desenhador, gravador, litógrafo, designer, ilustrador, caricaturista, tapecista, ceramista, cenógrafo, escultor e fotógrafo. Com Júlio Resende, Ângelo de Sousa e José Rodrigues participou na realização plástica do espetáculo do "Dia de Portugal", na Exposição Universal de Osaka de 1970. Colaborou com diversas associações e coletividades, como o Sport Club do Porto, o Teatro Experimental do Porto, o Cineclube do Porto, a Associação Cultural Amigos do Porto, o Lions Club do Porto e o Clube Nacional de Montanhismo. Foi distinguido com o Prémio Nacional de Gravura «Domingos Sequeira», em 1960.

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