Vai passar a Caravana

O suporte financeiro da Volta a Portugal é garantido quase em exclusivo pelas autarquias, o que condiciona a escolha do percurso e, ao mesmo tempo, releva a faceta polivalente do poder local. 

Começa hoje a 78.ª Volta a Portugal em bicicleta, 89 anos depois da primeira edição. Foi em 1927 que, pela primeira vez, o povo viu os ciclistas. A Volta Ciclista a Portugal, como foi inicialmente designada, realizou-se em 18 etapas que consumiram cerca de dois mil quilómetros. Desde então, só em 1931 se realizaria a segunda edição e daí em diante, a Volta só seria interrompida pela Guerra Civil de Espanha e pela II Guerra Mundial, e nos anos 1953, 1954 e 1975.

Verdadeira festa popular, desporto ímpar na dureza, mas também na relação directa e de proximidade que permite estabelecer entre o adepto e o atleta, o ciclismo e a Volta conheceram várias alterações ao longo das diferentes edições.

O percurso pela fronteira durante, pelo menos, duas semanas, que caracterizou as primeiras décadas, dá lugar a uma Volta de dez dias, com Alcácer do Sal a situar-se como o ponto mais a sul, por onde passará a caravana.

Também a composição do pelotão sofreu enormes mutações. São apenas seis equipas portuguesas contra 12 estrangeiras, aquelas que irão participar na edição que hoje começa, destacando-se o regresso do Futebol Clube do Porto e do Sporting Clube de Portugal, ainda que sob a forma de «empréstimo» de nome a equipas já existentes, e não tanto na formação de novos colectivos. Ainda assim, é um factor que certamente dará mais colorido à prova e transportará para a estrada a rivalidade dos dois grandes, com a particularidade de podermos ver adeptos destes clubes a aplaudir os rivais, coisa que não é de somenos…

Na impossibilidade de colocar o público a pagar, com o interesse comercial bastante diminuído e uma concorrência voraz de outras provas organizadas na Europa e nos EUA, o suporte financeiro da Volta a Portugal é garantido quase em exclusivo pelas autarquias, o que condiciona a escolha do percurso e, ao mesmo tempo, releva a faceta polivalente do poder local. Sendo muito discutível se este é um papel que cabe às autarquias, certo é que, não fossem estas, e provavelmente aquele que é um dos mais populares eventos desportivos no nosso país não existiria.

Os interesses financeiros, a busca de lucro rápido e a transformação em negócio, da Volta e do ciclismo em geral, têm produzido o fermento para um forte descrédito e debilidade deste desporto, afastando-o em muito dos primórdios. Ainda assim, e apesar de tudo, há uma réstia de romantismo, de esforço verdadeiro, de paixão e de compromisso dos atletas, que nos fazem vibrar.

Viva a Volta!