A urgência da educação para os media

Com a evolução operada nas comunicações móveis, hoje, alguém que domine bem o meio pode interferir na difusão de informação, opinando, contra-informando, anunciando ou «construindo» informação.

Neste século, foram dados enormes passos na criação de condições objectivas para o acesso à informação, numa lógica de utilização massiva.

Generalizou-se o uso da Internet, multiplicaram-se as redes sociais, os grandes órgãos de comunicação de massas apostaram fortemente em canais online de notícias e em e-papers. Com a evolução operada nas comunicações móveis, hoje, alguém que domine bem o meio pode interferir na difusão de informação, opinando, contra-informando, anunciando ou «construindo» informação.

Os smartphones passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia, deixando, mesmo, aquilo que era uma novidade há poucos anos – o tablet – parecer qualquer coisa muito arcaica. Os próprios computadores, mais potentes e com novas funcionalidades, são mais fáceis de transportar. É possível, desta forma, ter um canal próprio de televisão ou partilhar ficheiros com a rapidez de segundos. É apenas com carinho que recordamos os hiper-lentos e desajustados telex ou fax.

Muitos de nós convivemos com estes nos anos 70, 80 e mesmo 90, e estamos, agora, fortemente implicados nas tecnologias de informação e comunicação. Certo, certo é que tudo o que é a vanguarda da informação e da comunicação é, hoje, indispensável.

«A capacidade de descodificação da mensagem deve ser uma preocupação central e não se trata de uma responsabilidade dos professores de Português, normalmente responsabilizados por tudo o que de mal acontece a este nível.»

Porém, existem riscos que não podem ser ignorados. Os jogos electrónicos estão generalizados, ocupam grande parte da vida solitária de jovens e adultos. Solidão que é, a cada dia que passa, em cada um dos atingidos, compensada pelo tweet, o post ou o like que disponibilizamos em cada intervalo da nossa respiração.

Não é pouco vulgar olharmos à volta e darmo-nos com uma família, à mesa de um restaurante, ligada ao dispositivo que cada um possui, por vezes para trocar ficheiros ou mensagens entre si. No banco da estação de caminho de ferro, a uma criança é colocada tecnologia de ponta nas mãos para ver um filme ou jogar, para não incomodar e não obrigar a um esforço suplementar de atenção do seu progenitor.

Esta é uma vertente de uma abordagem que urge fazer. Saber como conciliar a educação e a formação com a responsabilidade social colectiva. Que oferta de vida e que futuro estamos a desenhar para as gerações que... estão mesmo já aí? Saber utilizar, conhecer os seus riscos e estabelecer regras e formas de orientação enquanto utilizadores terá de, urgentemente, ser colocado nas prioridades das prioridades da necessária reorganização curricular.

Por outro lado, os grandes grupos económicos e sectores de consumo, a competição entre economias, a organização social selvagem assente nas leis que são ditadas pela liberalização dos mercados e o derrube de fronteiras de controlo da circulação da informação, defendem-se com uma lógica de democratização mas implicam ainda mais responsabilidade dos Estados.

A capacidade de descodificação da mensagem deve ser uma preocupação central e não se trata de uma responsabilidade dos professores de Português, normalmente responsabilizados por tudo o que de mal acontece a este nível. É preciso que se entenda este como um investimento na abordagem transversal da comunicação, do seu funcionamento, da formação de uma inteligência social que abandone a lógica do eu para se suportar na criação de abordagens colectivas que promovam uma verdadeira democracia – na qual as pessoas não se limitem a absorver o que recebem, mas sejam capazes de fazer escolhas.

Refira-se uma abordagem do problema, feita há mais de 20 anos pelo Conselho Nacional de Educação1, mas que está, ainda hoje, perfeitamente actual: «educar para os Media e para a comunicação não significa aprender a lidar com técnicas audiovisuais e de comunicação social, nem criar dispositivos de defesa contra a mensagem própria dos Media. A educação escolar deve dirigir prioritariamente o seu esforço para: (a) transmitir os instrumentos de pensamento que condicionam a compreensão das mensagens; (b) integrar racionalmente os conhecimentos, promovendo sínteses críticas dos saberes adquiridos nos mais variados Media; (c) fomentar uma compreensão crítica e uma utilização consciente da comunicação social; (d) sensibilizar para os riscos de dependência humana que os Media e o seu consumo desenfreado desenvolvem; (e) construir, no quotidiano, uma autonomia pessoal que permita a inserção crítica e criativa na cultura e na vida social contemporânea».

De acordo com o mesmo texto, há «uma vertente que cresceu exponencialmente» – a publicidade – sobre a qual há necessidade de uma atenção especial, designadamente quanto ao «seu grande impacto sobre a vida moderna», cuja abordagem é quase inexistente.

Há, pois, um imenso campo de intervenção que tem sido desprezado e que os últimos dez anos de governações irresponsáveis vieram desvalorizar. É, por isso, necessário que, no quadro da necessária reestruturação curricular, esta seja matéria obrigatória.

1 CNE (1994), Actas do Seminário «A Educação e os Meios de Comunicação Social»