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Os «eventuais» de Setúbal ameaçam a Autoeuropa?

Perante o protesto no Porto de Setúbal, os habituais arautos da desgraça já estão focados nas paragens da Autoeuropa. Onde pára a indignação para com os contratos ao dia que afectam 90% dos operários? 

Negociações do contrato colectivo para o porto de Setúbal ainda não está concluído
Protesto no porto de Setúbal dura há mais de uma semanaCréditosFilipe Rocha / ShareAlike 3.0

Depois de uma semana de protesto, iniciada a 5 de Novembro, a situação dos «eventuais» do Porto de Setúbal finalmente chegou hoje às capas dos jornais. Todavia, ao invés do foco ser a revoltante situação dos trabalhadores, alguns há mais de 20 anos com contratos ao dia, é, novamente, a Autoeuropa.

O caso mais paradigmático está na capa do Público, mas também reproduzida por muitos outros órgãos, intititulada «Tensão no Porto de Setúbal trava exportações da Autoeuropa», com destaque para o impedimento da exportação de seis mil carros e que o conflito ameaça parar a produção da fábrica. A mesma que, ao longo do ano e por culpa própria, parou vezes sem conta por falta de peças.

Uma tendência infeliz, tendo em conta a situação gravosa que se passa no Porto de Setúbal. Os chamados «eventuais» compôem 90% dos trabalhadores que asseguram o funcionamento do porto. Sim, leram bem, os operários estão há longos anos ​​​​​​a serem chamados para trabalhar por SMS, alguns até para fazer dois turnos – ou seja, são admitidos e despedidos 2 vezes no mesmo dia.

Os trabalhadores vivem uma vida desprovida de estabilidade e de direitos básicos, como os subsídios de férias e de Natal, dias de descanso ou até direito à protecção social em caso de doença ou acidente de trabalho. Uma situação que consiste numa enorme contradição: porque raio, trabalhadores que são fulcrais para o funcionamento das operações portuárias estão com vínculos precários.

Perante isto, os jornais dão eco às afirmações das entidades empregadoras que, por um lado, se afirmam vítimas de uma greve ilegal e acenam com os supostos danos causados à economia do País e, por outro, ​​​​​​omitem que os próprios mantêm a situação de precariedade há tanto tempo porque os favorece, que durante a greve tentaram despedir trabalhadores e avançaram com propostas individuais, o que é ilegal.

Depois do furacão sobre como a greve na Autoeuropa iria levar à deslocalização da fábrica de Palmela e inibir futuros investimentos da Volkswagen, o que não veio a acontecer (pelo contrário), desta vez é á rábula de como os trabalhadores do Porto de Setúbal vão acabar com a Autoeuropa...

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