|António Rodrigues

Sim, isto anda tudo ligado

Aconteceram há 50 anos os dois actos terroristas que destruíram as instalações da Embaixada de Cuba em Lisboa, e atingiram uma das principais sedes do PCP, na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Há 45 anos um acto terrorista, ocorrido na Embaixada de Cuba em Lisboa, ceifou as vidas dos diplomatas Adriana Corcho Calleja e Efrén Monteagudo Rodríguez. O 25 de Novembro já havia ocorrido mas a sanha bombista continuava. Mais de uma dezena de pessoas morreram em resultado dos mais de 500 atentados cometidos pela rede bombista de extrema-direita, entre 1975 e 1977. O seu julgamento em 1978 foi classificado como «algo parecido com uma farsa». Nenhum mandante foi condenado, nem os familiares das vítimas indemnizados
Créditos / CubaDebate

Num quadro em que todos os pretextos e justificações servem para a direita radical e reaccionária protagonizar as mais diversas campanhas contra a Constituição da República, a democracia e a liberdade, importa não esquecer a violência e a acção terrorista da extrema-direita no pós-25 de Abril.

Na perspectiva de branqueamento do fascismo e com o objectivo de denegrir o 25 de Abril e o período que se lhe seguiu, a extrema-direita, onde se destaca André Ventura pela sua vocalidade, continua a alimentar a tese do terrorismo de esquerda, nomeadamente a propósito das chamadas Forças Populares 25 de Abril (FP25), criadas em Abril de 1980.

No caso das FP25, falamos de uma organização que, usurpando o nome emblemático da Revolução dos Cravos, nada teve a ver com o 25 de Abril nem a sua acção beneficiou os trabalhadores, o povo e a sua luta.

À época, independentemente do alarmismo gerado pela campanha de calúnias e falsificações movida contra os comunistas e o movimento operário por órgãos de informação dominados pela direita, o PCP sempre condenou os actos promovidos por aquela organização, chegando a exigir que «tais iniciativas provocatórias» fossem julgadas não pela sua linguagem, nem pelas sigla com que se apresentava ou os objectivos que proclamava, mas pela «manifesta inserção de tais actos e projectos no quadro da estratégia golpista e subversiva da reacção». Aliás, não há terrorismo de esquerda, mas tão só terrorismo. As forças políticas mais consequentes desenvolvem acções revolucionárias e não qualquer forma de terrorismo.

Capa da edição Créditos

A direita reaccionária e populista, tolhida por uma deliberada amnésia, esquece, por exemplo, que foi precisamente o governo de Cavaco Silva, em 1989, quem premiou a actividade de uma organização terrorista como a PIDE/DGS atribuindo pensões «por serviços excepcionais e relevantes» a dois dos seus ex-agentes, ao mesmo tempo que recusou conceder a mesma pensão ao capitão de Abril Salgueiro Maia. Sobretudo, esquece a violência e a acção terrorista de organizações como os chamados Exército de Libertação de Portugal (ELP) e Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), apoiadas por forças da direita e da extrema-direita e envolvendo compromissos e cumplicidades políticas e partidárias. Alpoim Galvão, no seu livro De Conakry ao MDLP, confirma a tese da organização terrorista: «Nascido em Chaves, identificado com os sentimentos dos nortenhos, liguei-me natural e francamente, aos habitantes da região. Dentro do MDLP, as minhas funções eram, essencialmente, de chefia operacional. Por isso me liguei, fraternalmente, com os núcleos de resistência».

Nesse sentido, importa chamar a atenção para os 50 anos que agora passam sobre dois desses actos terroristas ocorridos em Lisboa, em 1976: o ataque bombista que destruiu as instalações da Embaixada de Cuba em Lisboa, matando dois diplomatas cubanos (22 de Abril), e o atentado terrorista contra o Centro de Trabalho Vitória, sede da organização regional de Lisboa do PCP, causando um morto, cinco feridos e avultados prejuízos materiais (1 de Maio).

Acções de violência e terrorismo que a extrema-direita desenvolveu impunemente, apoiadas numa intensa campanha política contra o 25 de Abril e as suas conquistas, consagradas na Constituição da República.

Trata-se da mesma direita reaccionária e populista que procura hoje reagrupar-se em torno de novas e messiânicas lideranças, na expectativa do assalto ao castelo da democracia que a nossa Constituição representa, perseguindo o objectivo da reconfiguração do Estado ao serviço dos interesses do grande capital nacional e estrangeiro.

Como se percebe, isto anda tudo ligado!

 

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