A propósito do festival…

Se há coisa que pensava morta e enterrada era o festival da Eurovisão. Por isso, nunca pensei vir a escrever sobre o tema, embora o ambiente que o envolve possa servir como um martelo de reflexos para perceber o estado de nervos da nação.

Salvador Sobral
Salvador SobralCréditosSergey Dolzhenko / Agência Lusa

A verdade é que o Eurofestival, subitamente, ressuscitou. Passados anos e anos sem que ninguém lhe ligasse, ressurgiu com o fulgor de antigamente, voltando a ser o centro de todas as conversas, de todas as atenções, de todas as análises à autora e ao cantor, à sua figura, à sua debilitada saúde, ao seu cabelo, do seu sorriso, de como veste, das probabilidades, das votações, das hipóteses de vitória.

Bom, a canção agrada, foi muito bem interpretada, fica no ouvido, mas ponto final. Há melhor cá na terra.

Apesar disso, depois de alcançada a vitória, ganhar o festival (a que o próprio vencedor nunca antes ligara), pareceu não ser por si só suficiente. E a canção foi trepando na escala dos elogios, passando a um marco de ruptura histórica com a mediocridade passada e presente, um impulso de qualidade que irá mudar o futuro da Eurovisão atirando os Mac'cantores e as suas songs de plástico para o caixote do lixo.

«Na semana passada, em Kiev, os portugueses enfrentaram a alienação com a convicção de um significado» – proclamou, ribombante, Rodrigo Guedes de Carvalho, na SIC, durante a entrega dos Globos de Ouro.

Na realidade, não foram «os portugueses». Foi apenas um grupo de bons profissionais. Mas o cantor, Salvador Sobral, em entrevista ao Expresso, assumiu que «estava numa missão de trazer música com algum conteúdo», dizendo mais tarde que se sentia de certa forma «um profeta» da boa música, frases que poderiam passar por arrogantes e de mau-gosto, não fosse a forma simples e aparentemente sincera, quase ingénua, que o jovem artista tem de dizer as coisas.

Televisão, rádio e jornais dissecaram os mais pequenos detalhes, o Presidente da República explicou a excitação com que viveu o momento e afirmou que os portugueses tinham crescido 20 cm, Costa telefonou a Marcelo e também deitou foguetes, o ministro dos Negócios Estrangeiros escreveu um artigo sobre a projecção da nação, a Assembleia da República congratulou-se, a Quadratura do Círculo achou que devia debruçar-se sobre o magno acontecimento, João Miguel Tavares conseguiu encontrar uma estrambólica ligação da vitória com o brilhante desempenho do ex-ministro Poiares Maduro, e todos salientaram a afirmação da língua portuguesa no mundo, esquecendo que, paradoxalmente, em Portugal, Salvador Sobral canta quase sempre em inglês.

À onda de orgulho e delírio pátrios, resistiram apenas alguns críticos desmancha-prazeres, como Miguel Cadete, numa coluna do Expresso, em que, embora reconhecendo qualidades à melodia e ainda mais ao artista, considerou que se inscreviam «numa tradição festivaleira – provavelmente tão pungente como E depois do adeus e a Desfolhada…», e se integram «numa longa história de canções de amor delicodoces…uma das duas grandes tendências da Eurovisão… como Marie Myriam ou Celine Dillon».

Mas a presença de Salvador em Kiev meteu também um toque de gauche e de humanismo, com uma frase na camisola em defesa dos refugiados, rapidamente retirada sob a ameaça da organização que argumentou «não permitir mensagens políticas ou comerciais».

E terá sido tudo dito?

Como o vinho, também certas verdades devem ser tomadas com moderação, porque uma coisa é apreciar um bom copo de tinto, outra diferente é apanhar uma bebedeira.

Analisemos então tudo com outros olhos.

A verdade é que já ninguém se lembrava de quem tinha ganho o festival no ano passado, como ninguém se lembra de uma única canção que tenha ganho na última década.

Contudo, a canção vencedora em 2016, intitulada «1944» e que representou a Ucrânia numa «final por muitos considerada a mais política de sempre» (The Guardian 15-5-2017), já tinha dado que falar pelo seu conteúdo crítico à alegada perseguição por Estaline dos tártaros da Crimeia, acusados de colaboração com os nazis. Pelo que algumas notícias da altura referiram, a canção e a cantora, falando da época em que se deu a libertação da Ucrânia pelo Exército Vermelho, optaram por pôr-se do lado dos colaboracionistas.

E o significado da participação activa da extrema-direita ucraniana nos bárbaros crimes nazis, e a reacção posterior da população que os sofreu, aquando da libertação, não podem ser subestimados nem descontextualizadas.

«A canção vencedora em 2016, intitulada "1944" e que representou a Ucrânia numa "final por muitos considerada a mais política de sempre" (The Guardian 15-5-2017), já tinha dado que falar pelo seu conteúdo crítico à alegada perseguição por Estaline dos tártaros da Crimeia, acusados de colaboração com os nazis.»

Para melhor se perceber o enorme sofrimento humano de todas as partes em conflito e para sublinhar a dureza da tragédia desencadeada pela agressão nazi-fascista, relembremos que os alemães, com a entusiástica ajuda da polícia do «governo ucraniano» fantoche (espécie de governo de Vichy) formado por organizações nacionalistas e da extrema-direita ucraniana, só em dois dias, a 29 e 30 de Setembro 1942, assassinaram 33 000 judeus e resistentes comunistas no célebre massacre de Babyn Yar nos arredores de Kiev.

No Verão do mesmo ano, jogadores do Dynamo foram fuzilados a seguir ao famoso «Death Game» por se terem recusado a perder frente a uma equipa de futebol do exército nazi.

Segundo o Arquivo do Estado sobre a ocupação alemã de Kiev, ao todo, durante os dois anos de ocupação da cidade e com a colaboração da polícia do governa fascista ucraniano, cerca de 220 000 cidadãos da cidade foram executados pelos nazis, número que é quase quatro vezes o de todos os civis mortos no Reino Unido durante a II Guerra (67 000).

A divisão SS «Galizien» e sete batalhões Schutzmannschaftant constituídos por colaboracionistas ucranianos, combateram, sob o comando nazi, a guerrilha e o exército vermelho, enforcando, fuzilando, incendiando e massacrando aldeias inteiras.

120 000 cidadãos foram deportados e a população da cidade, na altura da libertação tinha-se reduzido a um quinto do número inicial.

4,5 milhões de ucranianos integraram-se no exército vermelho e nas guerrilhas antinazis, ajudando a libertar a sua terra natal.

A União Soviética sofreu um total de 24 milhões de mortos (14,2% da população), muito mais que o Reino Unido (450 mil/0,94%), a França (600 mil/1,44%) e os Estados Unidos (418 mil/0,32%), juntos. Cerca de quinze vezes mais.

Em 2014, cerca de setenta anos depois do fim da bárbara ocupação alemã, a chamada «revolta da Praça de Maidan», em Kiev, encabeçada por organizações neonazis como o Svoboda e o Sector Direito (com o apoio mal encapotado dos países da NATO, nomeadamente dos USA e da Alemanha), levaram a cabo um golpe de estado que derrubou o governo eleito.

O novo governo de extrema-direita pôs de novo na ordem do dia as perseguições aos judeus e às minorias étnicas e linguísticas, e ilegalizou o partido comunista expulsando-o do parlamento, originando a secessão da Crimeia que não aceitou as novas autoridades saídas do golpe.

A canção «1944» assumiu por isso uma evidente conexão com a posição política actual da Ucrânia e a deriva ultra-direitista de partidos e governos europeus, como os da Polónia e a Hungria, trazendo à tona as piores memórias da ocupação nazi.

Apesar dos protestos e da evidência, a European Broadcasting Union, organizadora do festival, declarou que a canção não tinha quaisquer conotações políticas e por isso não podia ser excluída.

O que a organização, aparentemente, não quis ouvir, foi a afirmação de um membro do júri que considerou que «1944» reflecte «precisamente o que a Ucrânia está agora a sofrer», e da própria cantora que assumiu que a canção «naturalmente que é também sobre 2014!» (The Guardian, 15-5-2016)

A NATO também resolveu aparecer em cena e enviou os parabéns à cantora ucraniana pela vitória no Eurofestival, coisa estranha e nunca vista, bastante fora do âmbito de uma aliança militar que nem sequer tem (ainda) a Ucrânia entre os seus membros (o vídeo de uma entrevista com a cantora pode ser visto no canal da NATO no YouTube).

E foi dessa forma agitada que o Eurofestival de 2017 foi parar à capital ucraniana onde brilhou o nosso Salvador.

Mas será que este ano, em Kiev, estavam todos os seleccionados dos diversos países que integram o festival da Eurovisão?

Não. Estavam todos, menos um. Ou uma…

Logo após as provas de selecção, um mês antes da final em Kiev, o serviço de informações ucraniano (SBU) proibiu, por três anos, a entrada no país da cantora russa seleccionada, por ter participado num concerto na Crimeia depois de 2014.

A jovem Ioulia Samoilovade, de cadeira de rodas (sofre de uma doença neurológica progressiva), que tinha a ambição de actuar em Kiev, viu-se assim proibida de aí cantar por razões políticas.

Entalada no meio da revanchista sanção governamental ucraniana, que uma vez mais punha em causa os tão badalados princípios de neutralidade política, a European Broadcasting Union balbuciou uns protestos e ameaças, propôs que a canção fosse transmitida da Rússia ou mudassem de intérprete (o que naturalmente foi recusado), e suspirou de alívio quando a Rússia decidiu abandonar definitivamente o Eurofestival.

Sobre tudo isto caiu uma cortina de silêncio e, no meio de horas e horas de conversa, artigos, entrevistas e criticas na TV, na rádio e nos jornais, pouco se falou da exclusão da representante da Rússia que, convenhamos, já nem é socialista nem é a União Soviética, embora se tenha tornado numa espécie de inimiga-pária do «Ocidente», que assim prolonga o ambiente belicoso da guerra fria, aumentando a corrida aos armamentos.

De resto, nisto de sanções a cantores, a própria União Europeia (UE) foi abrindo o caminho, sem grandes pruridos quanto a liberdades individuais e democracia. Já antes, o popular cantor ucraniano de origem judaica, Joseph Kobzon, «o Frank Sinatra russo», o mais conhecido intérprete do «Dia da Victória», que celebra a derrota da ocupação nazi, tinha ficado proibido de entrar na UE por ter apoiado a posição dos separatistas da Crimeia (Reuters,16-2-2015), o que também foi pouco noticiado.

Podemos pois, a partir destas posições e destes silêncios, apreciar a forma como, implícita ou explicitamente, se defende a propaganda mais reaccionária e o branqueamento do passado mais brutal, com medidas que se infiltram em actos e festas aparentemente neutros da «vida civil».

Neste contexto, a proibição de uma frase de apoio aos refugiados, por não serem permitidas mensagens políticas, surge como uma enorme hipocrisia, uma vez que o festival da Eurovisão está, pelo menos desde o ano passado em Estocolmo, totalmente mergulhado «na política» com a aceitação e vitória da canção «1944», que tanto agrada à direita.

Por outro lado, e embora o apelo «SOS-Refugiados» da camisola de Salvador mereça todo o respeito, havia um outro assunto mais directamente ligado à organização e ao festival que era merecedor de protesto  – a exclusão de uma cantora por razões políticas.

De resto, uma (pouco ingénua) pergunta feita por um jornalista na conferência de imprensa dada logo após a vitória – «Acha que para o ano a Rússia tem possibilidades de vencer?» – deu uma excelente oportunidade ao nosso artista de mostrar a fibra de quem dá o peito às balas. Bastava dizer qualquer coisa como, «Lamento o que se passou com a minha colega russa que se viu impedida de estar aqui», para passar a ser também um dos meus heróis do momento.

De facto, alguns acontecimentos são tão badalados que só (ou também) por isso acabam por ter um relevo impossível de ignorar, e estes pequenos gestos dos seus mais conhecidos protagonistas podem assumir um importante significado pedagógico e cívico.

Infelizmente, com o seu encolhido «não sei…», Salvador Sobral perdeu o momento em que podia ter ganho mais, para além do festival. Teria vencido a cortina de censura e mostrado solidariedade para com uma colega de profissão (tal como ele, afectada por uma doença grave) impedida de actuar pela actuação repressiva do governo da Ucrânia.

Foi pena.