Entrevista a Luís Pedro Madeira

«Queremos cantar que há esperança para este Sul»

É um multi-instrumentista, um dos membros da banda Pensão Flor que, não há muito, lançou o seu segundo e belo CD, Sul. É também um dedicado professor de Educação Musical em Coimbra, além de um artista que trabalha para as artes do palco, com outros talentos menos conhecidos, como o da escrita. Alguém com ideias sobre o ensino artístico e sobre o mundo. Alguém que importa ouvir. O seu nome é Luís Pedro Madeira e respondeu às questões que o AbrilAbril lhe colocou.

Pensão Flor e «Sul»
Créditos

Pensão Flor: um projecto musical colectivo. Sul: um disco. Como sintetizar os aspectos mais dignos de nota nesse projecto? E o disco? O que o caracteriza e porquê a meridionalidade do título?

A Pensão Flor nasceu inicialmente do talento para escrever canções do Tiago Curado de Almeida e da voz da Vânia Couto, onde elas caíam tão bem. Depois os papéis foram-se diversificando, vieram cantigas da Vânia, mais gente veio tocar e, de repente, estávamos a gravar um primeiro disco que era tocado por um colectivo de sete músicos de origens bem distintas, mas a quem agradou aquele imaginário de uma pensão aonde acorriam gentes e histórias que só podiam ser contadas ao mundo por cantigas.

Esse primeiro registo foi muito bem recebido e a Pensão Flor, depois de algumas alterações de elenco, resolveu confirmar o seu caminho e a sua vontade de fazer mais um disco, e que ele fosse, mais uma vez, conceptual.

Vivíamos (e vivemos) um tempo em que somos sempre confrontados com a nossa geografia, que nos empurra mais para o Atlântico e para o Mediterrâneo do que para lá dos Pirenéus. Somos gente do sul, do sul da Europa em contraponto com um norte que não nos compreende a história e o ritmo, a luz e o calor. No quadro desse confronto e da situação que dele resultou muitos dos nossos tiveram que daqui partir, enfrentar terras mais frias, paragens mais distantes. A nós, os que aqui ficámos, resta-nos cantar esta terra que espera o regresso dos que foram contrariados. Queremos cantar que há esperança para este Sul que não passa pelas soluções que vêm do Norte. Somos também mais africanos, mais magrebinos, mais transatlânticos. Somos muito parte do mundo e o mundo é muito parte de nós. É este o Sul que viemos cantar, juntamente com histórias de amores e desamores, mas essas, bem sabemos, não escolhem latitudes nem longitudes...

Compões para a Pensão Flor, mas não só. Queres destacar alguns trabalhos de composição musical recente e alguma coisa que esteja em perspectiva?

Neste segundo disco da Pensão Flor, Sul, escrevi algumas das letras e há uma composição minha. 

Felizmente tenho tido a oportunidade de escrever música para inúmeras colaborações. A destacar alguma mais recente seria provavelmente a composição para a peça da coreógrafa Clara Andermatt, Fica no Singelo, que foi bastante aclamada pela crítica e pelo público.

Recentemente escrevi para o espectáculo da Escola da Noite e do Cendrev, Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, e preparei um espectáculo sobre um texto de José Saramago com a Acert.

És um multi-instrumentista, como se sabe. Mas em que te realizas mais, em termos instrumentais/musicais, e porquê?

Essa é uma pergunta curiosa. Como não tenho, de facto, nenhum instrumento em que me tenha especializado e faço imensas coisas diferentes na música, julgo que o mais interessante é precisamente essa variedade de funções. 

«Sabemos como as ditaduras calam os artistas para que a sua voz não tenha ecos de liberdade, solidariedade e fraternidade dentro dos corações»

Recentemente estive a escrever para orquestra e é, sem dúvida, uma coisa de que gosto muito, apesar das dificuldades imensas e dos desafios que me apresenta.

No fundo, escrever, arranjar, produzir e tocar são tudo variantes de uma mesma coisa que é fazer música. É aí que está a minha paixão, que felizmente é correspondida: sempre recebi muito mais da música do que lhe dei.

Qual a tua opinião sobre a relação entre a actual música popular urbana portuguesa e a tradição popular? É vigorosa? É necessária? É vital?

Estamos melhor que nunca. Apesar de por vezes se dizer que estão a surgir coisas novas e inovadoras (provavelmente numa tentativa de «matar o pai» para abrir as asas) o que há é um seguimento dos caminhos que há muitos anos outros abriram.

Nunca tanta gente olhou para as músicas da tradição, urbana ou rural, de forma tão apaixonada e intensa, nunca se experimentou tanto e nunca se explorou tanto esse nosso universo que sabemos riquíssimo e cheio de tesouros a descobrir.

Não acredito que alguma vez tenha surgido qualidade que não fosse pela quantidade, e da enorme quantidade de artistas que neste momento trabalham sobre a tradição só podemos esperar coisas muito boas. Aliás, no fado de Lisboa, essa qualidade já se sente com um número enorme de artistas geniais, não apenas cantores, mas letristas, compositores, músicos, etc.

Esta força e vitalidade devotadas à música da tradição são bem precisas nos tempos que correm. Não são necessários nacionalismos tolos e exacerbados, mas uma pátria constrói-se com gente que sabe de onde vem e para onde quer ir.

Além de músico e compositor, és professor de Educação Musical. Em tua opinião – se é que é possível sintetizar em poucas frases –, a Educação Musical, por um lado, e o ensino formal da música, por outro, conhecem muitos/poucos problemas em Portugal? O que falta? Tens propostas?

A Educação Musical tem sido, por parte dos vários elencos ministeriais, alvo de uma relação de amor-ódio bem estranha. Se por um lado contemplam nos programas o ensino das expressões (a questão não se coloca apenas com a música, mas também com as expressões dramática e plástica), por outro lado a dotação financeira e o investimento sofrem constantes retrocessos. Assim não chegamos a perceber o que querem fazer com o nosso ensino.

A deriva da educação em Portugal é enorme e sabemos que a cada novo ministério correspondem novas directivas e mais alterações, sem nunca se implementarem e avaliarem devidamente as anteriores.

«Nunca tanta gente olhou para as músicas da tradição, urbana ou rural, de forma tão apaixonada e intensa»

Veremos o que nos espera, mas gostava sobretudo de ver melhoradas as condições de trabalho dos meus colegas nas AEC (actividades extracurriculares), que trabalham com salários muito baixos, em más condições e de precariedade laboral. Seria um primeiro passo para o ensino das expressões ser melhorado e tornado verdadeiramente universal e gratuito.

Num tempo como aquele que estamos a atravessar [agressões militares de cariz imperial(ista), ascenso do terrorismo, crise económica, agravamento das injustiças sociais, da precariedade, da pobreza, democracia em crise na Europa, na América…], encontras certamente um sentido acrescido na actividade musical. Gostarias de o exprimir por palavras?

Um dos primeiros problemas que vemos hoje, sobretudo nesta Europa que está numa crise bem mais profunda que a crise financeira, é a falta de empatia. Deixámos de conseguir olhar o Outro de forma verdadeiramente humana e solidária. Sabemos que em tempos de crise e conturbação todos os males do bicho-homem tendem a vir ao de cima e por isso, hoje mais do que nunca, a música, e sobretudo a educação musical, podem ter um papel fundamental para nos conhecermos.

É curioso vermos como os fundamentalistas hoje atacam concertos ou discotecas. Eles sabem que onde há comunhão pela música feita de forma livre e descomprometida jamais crescerão as ervas daninhas do ódio e da crueldade. Sabemos como as ditaduras calam os artistas para que a sua voz não tenha ecos de liberdade, solidariedade e fraternidade dentro dos corações. 

A música mostra-nos que há uma ligação entre todos nós, mostra-nos que, se nos escutarmos e conhecermos, encontramos muito mais pontes que fronteiras.

Não queres referir duas sugestões musicais em CD, para ti especiais, que possam interessar aos leitores do AbrilAbril?

Gostava de destacar por um lado o belíssimo trabalho dos Noa Noa, um grupo português com dois discos lindos de morrer que conseguem ser simultaneamente incrivelmente elegantes e profundamente intensos. Não me conseguindo decidir por nenhum dos dois fica ao vosso critério decidir.

Por outro lado, o novo disco de um compositor islandês chamado Olafur Arnalds, cujo mais recente trabalho é um conjunto de colaborações com músicos islandeses naquela que é a melhor homenagem que alguém pode prestar à sua terra e às suas gentes: escrever para ela, tocar com ela e escutá-la com atenção.

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