|Gonçalo Vieira

Sankara: O líder que quis libertar Burkina Faso e foi calado a tiro 

A trajetória de Thomas Sankara demonstra que a verdadeira ameaça a uma nação não é a ditadura interna, mas sim o receio das potências externas quando um país ousa buscar a sua prosperidade soberana.

CréditosAlain Mingam / Gamma-Rapho

Thomas Isidore Noël Sankara nasceu a 21 de dezembro de 1949, em Yako, uma pequena cidade no então Alto Volta (ex-colónia Francesa). Filho de Joseph Sankara, um gendarme que serviu no exército colonial francês durante a Segunda Guerra Mundial, e de Marguerite Kinda, uma mulher de origem Mossi, Thomas cresceu  numa família católica devota. Desde cedo, demonstrou aptidão para os estudos, destacando-se em matemática e francês. Embora os pais desejassem que ele seguisse o sacerdócio, Thomas optou por uma carreira militar, ingressando na academia militar de Kadiogo em 1966, com apenas 17 anos. Posteriormente, continuou a sua formação em Madagáscar, onde testemunhou movimentos populares que influenciaram profundamente a sua visão política e social. 

Aos 33 anos, tornou-se presidente após um golpe revolucionário em 1983. Logo no  primeiro aniversário da revolução, não teve medo de abalar os símbolos coloniais rebatizando a nação como Burkina Faso, «terra dos homens íntegros». Um líder militar tornado intelectual, Sankara pregava a «revolução democrática e popular» contra a herança colonial. O seu programa era ousado: erradicar a corrupção, promover a justiça social, alfabetizar as massas, vacinar crianças e plantar dez milhões de árvores para travar o avanço do deserto.  

Ele próprio dispensava luxos: vivia numa casa modesta e usava apenas roupas feitas localmente. Por sinal, a sua austeridade contrastava ironicamente com a «generosidade» dos governos estrangeiros: enquanto o FMI recomendava o pagamento da dívida africana, Sankara ironizava que se a pagássemos «sim, nós  morríamos, disso tenho certeza», pois só o povo sofre quando a África paga dívidas  que não foram contraídas por si. Como ele bem alertava, não há patriotismo em se  escravizar ao débito alheio. 

Desde o início, o governo de Sankara impôs reformas políticas e sociais radicais. Redistribuiu as terras e nacionalizou minas, retirando o latifúndio das mãos dos barões e dando lotes aos camponeses. Graças a isso, a produção agrícola cresceu a ponto de Burkina alcançar autossuficiência e até excedentes de cereais. Ao mesmo tempo, lançou campanhas de alfabetização (saltando de níveis miseráveis  para mais de 80%) e construiu centenas de escolas. Simultaneamente, imunizou 2,5 milhões de crianças contra pólio, sarampo, febre-amarela e outras endemias, fazendo cair drasticamente a mortalidade infantil. Outro pilar do seu projeto foram as mulheres: Sankara baniu a mutilação genital, os casamentos forçados e a poligamia, nomeou mulheres para cargos de liderança e declarou enfaticamente que «a revolução e a libertação das mulheres caminham juntas», pois «elas sustentam a outra metade do céu». Em suma, montou uma administração  socialista baseada na igualdade mudando até a própria bandeira, o hino e o nome do país para refletir a nova identidade de dignidade e honestidade. 

«Outro pilar do seu projeto foram as mulheres: Sankara baniu a mutilação genital, os casamentos forçados e a poligamia, nomeou mulheres para cargos de liderança e declarou enfaticamente que "a revolução e a libertação das mulheres caminham juntas", pois "elas sustentam a outra metade do céu".»

 

Tal programa radical virou de pernas para o ar a mesa das antigas potências  coloniais. Sankara cortou laços com o FMI e o Banco Mundial, recusou ajuda externa em nome da soberania financeira e desafiou outros países africanos a fazerem o mesmo. Criticou abertamente o sistema económico global como «uma  reconquista da África»: para ele, a dívida colonial era uma forma de domínio pós colonial, e a independência só seria real quando os países do continente deixassem  de se ajoelhar perante os seus antigos donos. Não é de admirar que Sankara fosse conhecido pela coragem de encarar o Ocidente: chegou a dizer publicamente que não havia esperança numa sociedade onde metade da população permanecia subjugada, ironizando com os poderosos que a sua lealdade estava com o seu próprio povo, não com «os senhores do mundo». Essa postura rendeu-lhe conflitos  com a França e os EUA, tanto que, logo em 1983, uma tentativa de golpe contra ele foi financiada pela França, pelos Estados Unidos, pelo Togo e pela Costa do Marfim.  

Os conspiradores foram capturados e executados. Internamente, a sua revolução também gerou resistências: latifundiários perderam privilégios, chefes locais  viram-se impedidos de cobrar tributos e de impor trabalhos forçados e muitas elites nativas passaram a acusá-lo de destruir a «ordem tradicional«. 

É aí que a história se transforma numa tragédia burlesca. À medida que o governo de Sankara ia isolando Burkina Faso no plano internacional, a crise interna alastrava. A inflação alta e a frustração das elites criaram tumultos. As  conspirações cresceram dentro do exército (onde oficiais conservadores  sonhavam com o regresso aos «velhos tempos») e fora dele. Segundo várias fontes  posteriores, até os serviços secretos da França e da CIA financiaram a rebelião anti-Sankara, recebendo apoio da Costa do Marfim e de outros vizinhos hostis. O auge dessa conspiração foi o golpe de 15 de outubro de 1987: Blaise Compaoré, colega de armas e braço-direito de Sankara, liderou os traidores que invadiram o Palácio e executaram o presidente e 12 dos seus colaboradores. Não foi derrubado em eleições ou por «clamor popular»: foi fuzilado por aqueles que diziam protegê-lo. 

E assim começou um ciclo de 27 anos de ditadura disfarçada. Compaoré assumiu o poder, restaurou os privilégios da velha classe dominante, reabriu as portas ao  FMI/Banco Mundial e desmantelou todas as conquistas sociais da era de Sankara. É irónico lembrar que, enquanto o novo «presidente da reconciliação» promovia amnistias para corruptos, Burkina Faso mergulhava novamente na pobreza e na fome. 

Décadas depois, a justiça burquinabê finalmente alcançou os responsáveis. Em 2021, Compaoré regressou do exílio para responder pelo crime; em abril de 2022, um tribunal militar condenou-o à prisão perpétua por cumplicidade no assassinato  de Sankara, juntamente com outros cúmplices do golpe. A pena foi celebrada pelos mais pobres como uma pequena forma de justiça. No entanto, essa decisão tardia não apaga o facto de que, na semana da abertura do julgamento, testemunhas liberianas denunciaram Charles Taylor e até o governo francês como verdadeiros mandantes da conspiração. Em suma, Sankara pode ter sido morto não apenas por um traidor interno, mas por toda uma rede neocolonial internacional que viu nas suas ideias um risco demasiado grande. Não por acaso, diz-se que sempre que um país africano ousa desafiar o padrão colonial, acaba por sangrar. Sankara tornou-se o exemplo máximo disso: enquanto defendia autodeterminação e independência, foi tratado como inimigo público por Uagadugu e pelas potências além-mar. 

A trajetória de Thomas Sankara demonstra que a verdadeira ameaça a uma nação não é a ditadura interna, mas sim o receio das potências externas quando um país ousa buscar a sua prosperidade soberana. Sankara acreditava que liberdade política, justiça social e independência econômica caminhavam de mãos dadas, mas a «paz ocidental» revelou-se um manto de hipocrisia por trás do qual se praticam manobras neocoloniais. Hoje, Burkina Faso enfrenta novos desafios, mas mantém vivo o legado de um líder que quis transformar sonhos coletivos em realidade. Se a Burquina de Sankara ensinaram algo, é que os verdadeiros crimes históricos sucedem quando a busca por autonomia encontra os interesses de quem pretende manter o mundo na dependência. E, ironicamente, o eco da sua voz continua a ressoar na memória de quem ainda crê que a independência não se conquista com balas, mas com a solidariedade e a coragem de ousar ser livre.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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