A senhora Von der Leyen ordena que nos armemos até aos dentes, mesmo que seja preciso a saúde pública apodrecer e a escola pública desmoronar-se.
A NATO decidiu que devemos reconstruir estradas e pontes, à custa dos nossos orçamentos, de modo a que nelas possam circular os tanques da aliança a caminho de uma guerra com os russos, que temos como certa, nem que seja preciso provocá-la.
O almirante que sonhou ser presidente da República e que não hesita em expor a doutrina terrorista da NATO, porque esse é o nosso compromisso como nação, condena os jovens portugueses a morrer pela Ucrânia fascista de Zelensky para que não sejamos invadidos pelos monstros de Putin.
Costa promete o que pode e o que não pode ao mesmo Zelensky, convicto de que o cargo de presidente do Conselho Europeu lhe libertou finalmente a alma caudilhista, igualmente por causa da contumácia dos russos em quererem o que é nosso e ansiarem refastelar-se nas amenidades da «nossa civilização».
Cada um de nós, no acordar de cada dia, deve mirar atentamente a leste, pelo menos aguçar os ouvidos nessa direcção para averiguar se as hordas bárbaras já cruzaram a frente de Vilar Formoso a Elvas.
De repente, porém, parece que em vez de nos prepararmos para marchar em direcção a leste deveremos inflectir para norte, movidos pelas urgências de ir defender a Gronelândia, essa imensa massa insular repleta de riquezas cobertas por gelos e que abre as portas estratégicas para o Ártico, a promessa da moda.
Os russos mudaram de ideias? Putin decidiu fintar a NATO e a União Europeia de uma só vez e decidiu-se a entrar por norte?
Afinal parece que não, o monstro de Moscovo continua entretido a destruir paulatinamente as estruturas energéticas da Ucrânia Ocidental, a testar Oreshniks e Kalibres que fazem gato sapato dos Patriot, o orgulho da defesa área da NATO. Não consta que esteja a pensar na Gronelândia.
E quando Putin o fizer, no caso de achar que a ilha administrada pela Dinamarca é outra Crimeia, de certeza que já irá tarde: Donald Trump, pacifista militante, galardoado indirectamente com o Nobel da paz graças à generosidade e ao desapego da fascista Corina, antecipou-se e já tem as orgulhosas stars and stripes imperiais prontas para ser hasteadas no 51.º Estado da Federação.
Com amigos destes…
É verdade, estimados federalistas, fervorosos atlantistas, quem está perto de atacar território da União Europeia são os vossos queridos amigos norte-americanos. Enquanto estes se mantiveram entretidos a reintegrar a Venezuela no quintal das traseiras das Américas, sequestrando o presidente legítimo porque, afinal, o mundo ecológico vai continuar a mover-se a petróleo; enquanto tentaram, mas por ora desistiram, temerosos, de atacar o Irão de braço dado com os humanistas sionistas, vós, federalistas e atlantistas, não se incomodaram, até acharam bem. Há que repor a democracia onde ela desafia a ordem internacional baseada em regras.
«Cada um de nós, no acordar de cada dia, deve mirar atentamente a leste, pelo menos aguçar os ouvidos nessa direcção para averiguar se as hordas bárbaras já cruzaram a frente de Vilar Formoso a Elvas.»
Mas eis que a águia imperial, montada pelo intrépido Trump, levanta voo para deitar as garras à Gronelândia. Isto é, o patrão da NATO decidiu chamar a si um pedaço da bendita NATO, da querida União Europeia, por sinal – ingratidão das ingratidões – um território de uma das nações que mais rasteja perante o tio Sam, nisso se equivalendo ao obediente Portugal.
O assunto ondula ao compasso da mente flutuante de Donald Trump, mas um desfecho parece inevitável: o presidente dos Estados Unidos da América não irá desistir do controlo da Gronelândia. Via Dinamarca ou não, com acordo negociado ou pela força das armas, essa saída representará sempre uma humilhação – mais uma – para a União Europeia. Ao mesmo tempo ruirá a fachada de «aliança» da NATO, tornando-se ainda mais evidente aquilo que se sempre foi: um disfarce mal amanhado para a colonização militar norte-americana da Europa.
Há quem anteveja até que uma acção militar dos Estados Unidos contra a Gronelândia representará o fim da NATO. Antes de chegarmos a esse ponto, e caso haja mesmo agressão norte-americana, é preciso avaliar primeiro como reagirá a Europa «unida». Isto é, quais serão os países valentões que enfrentarão os contingentes militares cujas prestações e as vitórias superlativas relatadas em séries, filmes de Hollywood e nas histórias da carochinha que fazem as vezes de História Ocidental são admiradas até ao basbaquismo; e quais os países que continuarão a tratar da vida, assobiando para o lado, afinal nada têm a ver com o destino de um imenso calhau gelado lá para o norte.
Então, não estaremos apenas a assistir ao desmascaramento da NATO mas também ao finar dessa grande ficção que é o abstruso conceito de integração europeia, uma impossibilidade óbvia para quem conheça, sem sofismas, a História da Europa.
Tornou-se hábito, porque custa meter a mão na consciência e admitir a realidade de sempre, assegurar que a culpa disto tudo é da evidente demência de Donald Trump e não dos Estados Unidos da América, enquanto nação colonizadora e imperial.
Tapar o sol com a peneira não será a atitude mais inteligente, caros federalistas, estimados atlantistas. Esta é a essência do desenvolvimento dos Estados Unidos da América, sobretudo desde a queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética – altura em que o mundo estaria a entrar no paraíso; e também como consequência da criação, na mesma época, desse instrumento totalitário que se chama «ordem internacional baseada em regras» – regras mutantes ao momento, de acordo com os humores e os interesses da dominação de Washington.
Os Estados Unidos são assumidamente uma nação imperial, pelo menos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E todos os governos ocidentais, mais De Gaulle, menos De Gaulle, mais anos cinquenta menos anos oitenta, lhes prestaram vassalagem como farol da democracia, sobretudo perante a sempre terrível ameaça de leste, então a Rússia soviética, para usar da terminologia canónica da época.
A vassalagem continuou, e enraizou-se ainda mais, ao compasso do afinado coro da ordem baseada em regras, e foi assim que vimos exércitos da Europa em rebanho atrás dos libertadores americanos para o Afeganistão, para o Iraque, para a Líbia – onde afinal os soldados europeus, cobardemente, não deram o corpo ao manifesto e não morreram, ao contrário dos norte-americanos, de acordo com a tese que se tornou oficial nos Estados Unidos.
Se a demência de Trump incomoda muita gente, já a de Joseph Biden foi encarada com bonomia, apesar de – com ou sem Obama, especialista de execuções arbitrárias à distância – ter criado os atoleiros humanos da Ucrânia, da Síria, além de ter agravado ainda mais o da Palestina.
Quem ameaça a Gronelândia, quem humilha a NATO e a União Europeia, agora através de Trump, são os Estados Unidos da América. Senhores federalistas, senhores atlantistas, passem em revista, desde a guerra da Coreia, as guerras, os golpes de Estado e os episódios de repressão sangrenta, em dezenas de países de quatro continentes, promovidos pelos Estados Unidos da América quando Trump nada mandava. Limitava-se então a ser a encarnação do «sonho americano», um mega empresário de sucesso que criou um incalculável império imobiliário e financeiro apenas graças ao seu talento para o negócio e aos mecanismos sereníssimos da «livre oportunidade» onde cada um, se tiver unhas para isso – talvez seja mais adequado escrever estômago – pode ser um Donald Trump.
O presidente dos Estados Unidos é, por norma inamovível, o indivíduo que serve o complexo militar e industrial – presidente Eisenhower dixit – de acordo com o momento histórico, o desenvolvimento das necessidades e dos interesses do capitalismo imperial norte-americano. Enquanto este monstro existir, Donald Trump não é a excepção, nem um erro de casting. É mais um presidente dos Estados Unidos ao serviço do sistema que o Ocidente, sem emenda, deseja globalista.
«Se a demência de Trump incomoda muita gente, já a de Joseph Biden foi encarada com bonomia, apesar de – com ou sem Obama, especialista de execuções arbitrárias à distância – ter criado os atoleiros humanos da Ucrânia, da Síria, além de ter agravado ainda mais o da Palestina.»
Desculpem se me repito, excelentíssimos federalistas e atlantistas, mas só acordaram para esta realidade de que, afinal, são cúmplices, quando ela vos tocou pela porta na Gronelândia. Não viram nada que inquietasse o vosso paradisíaco jardinzinho quando os vossos amigos de Washington inundaram de sangue o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria, quando encorajaram ainda mais o genocídio do povo palestiniano, quando deram golpes palacianos na Bolívia, no Paraguai, no Brasil, quando organizaram e patrocinaram as chacinas de Pinochet, dos generais brasileiros, dos generais e almirantes argentinos, quando prendem o presidente legítimo da Venezuela depois de terem deixado o povo venezuelano a morrer à fome, quando continuam a encorajar o transtornado Zelensky a permitir a chacina do povo ucraniano, quando estimaram ditadores como Somoza, Marcos, Banzer, Stroessner, Franco ou Salazar e muitos outros de uma lista interminável. Esta é a essência dos Estados Unidos da América, sendo que algumas destas atrocidades ocorreram quando Trump não era nascido ou andava de cueiros ou nem lhe passava pela cabeça candidatar-se a presidente.
Não, a eleição de Donald Trump pela tão perfeita democracia dos Estados Unidos, que nos serve de exemplo, nada tem de equívoco. Tanto mais que Trump foi eleito, perdeu e voltou a ser eleito. Diz o povo português que à primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer. O povo norte-americano segue o provérbio à letra.
Será que Von der Leyen, Macron, Merz, Meloni, Costa, Starmer vão mandar os nossos jovens morrer pela Gronelândia? E como reagirão se, tomando-lhe o gosto, Trump mandar os idolatrados Seals sequestrar o rei Frederico e a primeira-ministra da Dinamarca, acusando-os de cultivar papoila do ópio na agora tão cobiçada ilha?
E sejamos francos. Trump quebra tratados, não se guia por princípios éticos, não respeita valores nem direitos, rompe alianças, trai amigos, mente compulsivamente, humilha os mais fracos, rouba riquezas alheias? Ninguém duvida. Mas não é esse o tipo de comportamento que molda hoje a «nossa civilização» superior? Quando a chanceler Merkel e o presidente Hollande, então chefes da «locomotiva europeia», confessam que assinaram os tratados de Minsk sobre a Ucrânia sabendo que não iriam cumpri-los é uma prática diferente e mentalmente mais sã das que caracterizam Donald Trump? As potências europeias não continuam a roubar riquezas das suas antigas colónias, ou onde mais lhes aprouver?
Por definição, Donald Trump chefia um país amigo, a referência, o sol que guia geoestrategicamente qualquer governo do chamado Ocidente Colectivo.
Caros federalistas, estimados atlantistas, ora com amigos assim, que vos retribuem a fidelidade – a subserviência – assaltando-vos a casa, não vale a pena queixarem-se dos inimigos.
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