|Jorge C.

A geopolítica da extorsão

Assim estamos nós, países do hemisfério das recém-batizadas «democracias liberais», quando aceitamos ser reféns daqueles que provocam a violência para reclamar o nosso subsídio aos seus interesses e às suas guerras.

Créditos@MarkNaughton9

Num tempo em que ainda escapava às responsabilidades da vida adulta, os rigores do inverno estremavam a fauna que habitava os bares da cidade do Porto. As noites de tempestade deixavam os bares para os seus mais fiéis clientes e transformavam-nos em refúgios para um conforto familiar que, muitas vezes, não encontravam noutro lugar. Essa ligação familiar, contra todas as evidências de então, era efémera, mas profunda. Através dela, descobríamos realidades de um mundo inalcançável por aqueles que apelidávamos sobranceiramente de turistas – clientes de circunstância a quem não interessava o que se passava atrás da cortina de fumo. 

Nas noites de maior agitação marítima, a Ribeira do Porto era um território pouco frequentado, onde assistíamos à saída das sombras de figuras peculiares e misteriosas, homens discretos que inspiravam uma certa cautela a quem os recebia e, por vezes, algo grotescamente gravado nos seus rostos impunha às gerências uma reação entre o medo e o respeito. Aproximavam-se da porta ou do balcão dando início ao expediente – rotina diária de extorsão disfarçada de segurança. 

As práticas de segurança informal na cidade do Porto não são estranhas a quem espreitou para lá da cortina de fumo que era o pastiche britânico da cultura portuense. O monopólio dessas práticas estava sempre associado a homens que cresceram naquela geografia específica e que exerciam, de algum modo, um controlo sobre a sua violência – uma espécie de mediadores. 

Para os bairros, os bares não eram uma presença pacífica e criavam uma relação de hostilidade latente entre a população local e os clientes vindos de outras partes da cidade ou da periferia. Essa hostilidade ajudava a formular uma narrativa de insegurança e de medo, que conduzia à realização de um contrato coercivo com aqueles mediadores, garantindo a débil harmonia dentro dos estabelecimentos em troca de uma compensação periódica. O incumprimento ou a recusa desse contrato teria consequências indesejáveis, numa sugestão ameaçadora através da qual a incerteza não permitia melhores alternativas.

Há uns anos, assisti a uma conferência de um ex-chefe de um governo europeu sobre a importância de «pensar global para agir localmente». Tive sempre dúvidas sobre esta formulação globalista, pois que por diversas vezes foi a realidade da rua que me ajudou a compreender o mundo e a sedimentar conceções sobre a forma como nos relacionamos em comunidade, seja na nossa, mais restrita, seja a um nível mais amplo, com outras comunidades de outras geografias. 

Aquela realidade dos bares do Porto, com a sua segurança coerciva, não segue mais do que um modelo global de controlo e gestão da violência, que assume, no campo das relações internacionais, o papel de Defesa de nações aliadas. Promovida por organizações político-militares, a conceção de Defesa desse conjunto de nações tem uma origem muito semelhante à da segurança coerciva dos bares – a de uma ameaça virtual ou putativa, forjada e instigada por aqueles que oferecem a prestação do serviço de segurança.

Tem sido esta, de resto, a postura dos Estados Unidos da América para garantir a expansão da sua economia, superando os entraves do poder soberano de outras nações e transformando-o em ameaça ao «modo de vida» do «Ocidente». Numa narrativa subsidiária da Guerra Fria, a propaganda altamente financiada vai corrompendo a opinião pública, até que uma mentira dita muitas vezes se torne numa verdade. Os preconceitos de um passado nebuloso, de uma história contada pelos seus vencedores, ressurgem para legitimar a ideia de uma polarização do mundo, ameaçadora, de um perigo iminente contra o qual temos de nos defender.

«Tive sempre dúvidas sobre esta formulação globalista, pois que por diversas vezes foi a realidade da rua que me ajudou a compreender o mundo e a sedimentar conceções sobre a forma como nos relacionamos em comunidade, seja na nossa, mais restrita, seja a um nível mais amplo, com outras comunidades de outras geografias.»

 

Essa defesa implica, claro, a aquisição de armamento para reforçar a capacidade militar daquele que se assume como o nosso defensor e o avanço para a guerra, a ocupação e a disposição dos recursos de territórios até então inalcançáveis. Mas esta postura, agora descarada, esteve sempre presente nas instituições que ao longo de décadas têm feito um esforço para impor um determinado modelo político e económico, seja através de sanções a outros países, seja através de golpes patrocinados ou invasões ilegítimas aos olhos do direito internacional. Tudo sob um pretexto de defesa dos nossos valores ou de um velho sentimento colonialista de libertação dos pobres povos terceiro-mundistas do jugo opressor dos seus ditadores – um relativismo que já não se aplica aos nossos ditadores, como se viu na constituição da NATO, por países que, então, eram dominados por regimes fascistas, como foi o caso de Portugal. 

É esse mesmo pretexto que está, hoje, a agitar e a confundir os europeus que, tal como os clientes intermitentes dos bares da cidade do Porto, se mantiveram alienados sobre a essência da proteção de uma ameaça externa. Agora já não é no Iraque, na Líbia ou na Venezuela. Agora é o território de um dos seus aliados atlânticos que está em perspetiva de ocupação em nome da Defesa, sob aquele mesmo pretexto de uma ameaça forjada pela sua própria superioridade moral e pelas suas conceções equívocas sobre o conceito de defesa e ameaça. 

A Ribeira do Porto é, hoje, um dos destinos mais procurados por turistas de todo o mundo. Entre hotéis, alojamentos locais, restaurantes e franchisings, a face do comércio local transformou-se violentamente e os velhos bares foram desaparecendo, para dar lugar a uma oferta comercial mais adequada ao turismo. Visto de hoje, durante muitos anos, os homens que se serviram do sentimento de insegurança para ganhar alguns cobres não foram senão um instrumento de gestão do medo que permitiu que se aceitasse transformar a Ribeira num negócio. O monopólio da violência foi assumido pelas forças de segurança e pela especulação imobiliária e a cidade ficou órfã de um dos maiores símbolos da sua cultura. 

Assim estamos nós, países do hemisfério das recém-batizadas «democracias liberais», quando aceitamos ser reféns daqueles que provocam a violência para reclamar o nosso subsídio aos seus interesses e às suas guerras, dispostos a abdicar dos princípios fundadores das nossas democracias e renunciando à Paz, em nome de uma proteção da qual nem sabíamos que precisávamos, não fosse a injeção continuada de propaganda, da informação ao entretenimento. É a segurança coerciva feita «criação da necessidade», como manda a lei do mercado: «se não sabes que precisas eu mostro-te que precisas». Nos bares da cidade do Porto, os agentes da extorsão acabaram como vítimas de um jogo maior, mas na realidade das relações internacionais não há inocentes e as principais vítimas ainda estão por nascer. 

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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