Um dos eixos centrais das celebrações do pintor, cujos cem anos do nascimento se cumprem no sábado, vai ser o lançamento do «Prémio de Pintura – Centenário de Júlio Pomar», no valor de 5000 euros, dirigido a artistas que desenvolvem trabalho no campo da pintura.
Entre os principais destaques expositivos está a antológica «A Cola não faz a Colagem», com inauguração prevista para Abril, oferecendo uma leitura alargada e crítica do percurso do artista, segundo o programa de comemorações divulgado pelo Atelier-Museu, inaugurado em 2013 num antigo armazém totalmente remodelado por um projecto do arquitecto Álvaro Siza.
Está também prevista uma exposição itinerante internacional intitulada «Centenário de Júlio Pomar», organizada pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com o Atelier-Museu, que levará a obra do artista a diversas embaixadas portuguesas e a outros equipamentos culturais em vários contextos internacionais, de acordo com a organização.
Ainda em Abril, será apresentado «Uma obra em [Sete] partes», de João Penalva, um projecto que se desdobra por vários espaços da cidade, nomeadamente o Atelier-Museu Júlio Pomar, as galerias municipais e a Culturgest, estabelecendo um diálogo contemporâneo com o legado de Pomar, que realizou a primeira exposição individual no Porto, em 1947, e nela apresentou apenas desenhos.
O programa integra também a exposição «Pintura – Pintura: Júlio Pomar e Gabriel Abrantes», agendada para Setembro, promovendo um confronto entre duas gerações e linguagens artísticas no campo da pintura.
A programação expositiva fora de portas, que a entidade tem vindo a desenvolver, contemplará, já em Janeiro, a mostra «Robertos. Desenhos de Júlio Pomar», patente no Museu da Marioneta, em Lisboa, onde serão revelados pela primeira vez estes trabalhos do artista, indica a organização.
No plano da reflexão e do debate estão previstos um ciclo de conversas sobre arquivos, promovido pelo Banco de Arte Contemporânea e pelo Atelier-Museu Júlio Pomar, bem como um ciclo de conversas dedicado à relação entre «Arte e Inteligência Artificial», com o objectivo de aprofundar questões actuais da criação artística.
As comemorações incluem ainda vários lançamentos editoriais, entre os quais «Parte Escrita IV: Relatórios de Bolseiro de Júlio Pomar e outros documentos», reunindo os relatórios enviados pelo artista à Fundação Calouste Gulbenkian durante o período em que foi bolseiro em Paris, assim como o lançamento do volume III do «Catálogo Raisonné (Pintura) de Júlio Pomar», e uma performance da Companhia de Teatro Cão Solteiro.
Num texto sobre as celebrações, a directora do Atelier-Museu Júlio Pomar, Sara Antónia Matos, recorda a obra de um artista «sempre em transformação, que atravessou décadas, e cuja vida e legado o tornaram numa das figuras mais incontornáveis da arte portuguesa do século XX e XXI».
«A celebração de um centenário, especialmente no contexto de figuras como Júlio Pomar, é um marco de extrema importância cultural, social e histórica, desde logo porque comemorar a arte e os artistas significa, na actualidade, mais do que nunca, agir contra a destruição da memória, da história, das sociedades, da beleza, da vida», sustenta a curadora e investigadora.
No centenário de Júlio Pomar, «símbolo de longevidade intelectual, festeja-se não apenas o tempo decorrido, mas a herança cultural que sobrevive ao indivíduo e estimula as gerações futuras a relançar o seu legado de liberdade e de resistência», sublinha a curadora.
Neste âmbito, o programa de 2026 «permitirá às novas gerações conhecerem obras fundamentais do seu património artístico, possibilitará "repensar" o artista no seu contexto histórico, avaliando o modo como a sua obra influenciou a modernidade e como continua a dialogar com o presente, catalisando a publicação de novos estudos, a realização de exposições antológicas e programas complementares multidisciplinares».
Sara Antónia Matos recorda ainda o percurso de Pomar, desde o neo-realismo, como uma figura da contestação e da crítica ao regime fascista, alargando o seu mundo artístico através de colaborações que pareciam «inconciliáveis, unindo polos antagónicos, aproximando cultura erudita e cultura popular».
Júlio Pomar morreu com 92 anos e mais de 70 de carreira, «tendo trabalhado diariamente no seu atelier, tornando a arte presente na vida do dia-a-dia, o que é patente em várias obras públicas, e particularmente na Estação Alto dos Moinhos, do Metropolitano de Lisboa», refere.
«Não chegou a ver a descoberto as pinturas censuradas do Cinema Batalha, no Porto, mas elas estão cá – em 2026 e para o futuro – para nos fazer lembrar que, em muitas circunstâncias, a luta pela liberdade e pela democracia resistem às formas de opressão mais vis», comenta a responsável, recordando que Pomar foi detido pela PIDE e esteve quatro meses preso.
O Atelier-Museu abriu as portas ao público a 05 de abril de 2013 com uma colecção de cerca de 400 obras, nele depositada pela Fundação Júlio Pomar, doacção reforçada em 2014, e, em 2023, quando esta entidade cessou actividade, passou o depósito do seu acervo para propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, «para desenvolvimento e consolidação do trabalho do museu», refere ainda a directora.
Júlio Pomar instalou-se em Paris em 1963 e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966, vivendo e trabalhando entre a cidade francesa e Lisboa até à data da sua morte, em Maio de 2018, na capital portuguesa.
Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar – desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas e colagens – com intervenções artísticas em obras públicas em diversas cidades.
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