Risco Manipulado

Nos dias seguintes fez-se um silêncio total nos mesmos meios de comunicação social que tinham aterrorizado os portugueses quanto aos riscos associados à Festa do Avante!.

Preparação de espaços seguros de refeição, no espaço da Festa do Avante!, na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal, a 3 de setembro de 2020. A Festa do Avante! decorre entre 4 e 6 de Setembro.
CréditosJosé Sena Goulão / Agência Lusa

Na análise de risco devemos ter em consideração as duas dimensões que lhe estão diretamente associadas: o risco objetivo e a perceção do risco.

Cada pessoa ou grupo social possui uma noção subjetiva do risco, devido à noção de perigo e medo, grau de possibilidade de ocorrência dos eventos com efeitos negativos e avaliação das perdas. Esta avaliação resulta de fatores culturais e sociais que exercem influência na reação de cada indivíduo. A perceção do risco é aplicada individualmente, pelo facto de o risco ter diferentes significados para diferentes pessoas.

Existem algumas justificações para as pessoas sentirem os riscos de forma diferente, nomeadamente localização geográfica, grau de conhecimento e fatores de natureza cultural.

Por estas razões é essencial adotar estratégias adequadas para a criação de uma efetiva consciência de risco em cada cidadão.

Um dos instrumentos mais eficazes para a massificação duma cultura de risco na sociedade são os meios de comunicação social. Esta reflexão foi-me sugerida pela análise feita à forma como os diferentes meios de comunicação social portugueses trataram durante semanas a realização da Festa do Avante!, a propósito do risco associado à pandemia da Covid-19.

«Um dos instrumentos mais eficazes para a massificação duma cultura de risco na sociedade são os meios de comunicação social.»

Alguns textos publicados revelaram a arrepiante ignorância dos seus autores. Outros, evidenciaram uma vergonhosa campanha com o objetivo de denegrir a mais importante iniciativa político-cultural realizada anualmente no nosso país, bem como o PCP, que a organiza. Outros, ainda, utilizaram o importante conceito do risco para manipular a opinião pública, lançando alertas catastrofistas quanto à ameaça da multiplicação dos contágios da doença, no município do Seixal e na Área Metropolitana de Lisboa.

A verdade é que a Festa se realizou, com o exemplar cumprimento de todas as regras de segurança definidas pela Direção-Geral da Saúde. Foi um êxito.

Nos dias seguintes fez-se um silêncio total nos mesmos meios de comunicação social que tinham aterrorizado os portugueses quanto aos riscos associados à Festa do Avante!. Isto, apesar de posteriormente terem ocorrido outras iniciativas com elevada concentração de pessoas e sem as mais básicas condições de segurança, essas sim com elevado risco de contágio.

Mas os referidos meios não estiveram sozinhos nesta cruzada. Contaram com a colaboração de dirigentes dos partidos da direita e de muitos dos seus aliados, mais ou menos encobertos.

Assim fica demonstrado que, para além das duas dimensões do risco abordadas no início deste texto (risco objetivo e perceção do risco), pode agora acrescentar-se o risco manipulado, utilizado por alarmistas militantes, mal disfarçados de guardiães da saúde pública.


O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)