Apesar de Luís Montenegro continuar a tentar esconder os contornos do negócio, a comunicação social fala de 380 milhões de euros como o valor da compra dos 13,7% do capital da REN detido pela Pontagadea. Um valor que permitiu logo fazer as contas, contrastar com o valor da capitalização bolsista a 14 de Agosto (dia em que os 13,7% valiam 325 milhões de euros) e calcular um prémio de 55 milhões de euros pagos pelo Estado português à multinacional espanhola. Ou seja, o Governo PSD/CDS negociou a compra de 13,7% do capital da REN e aceitou pagar mais 17% isto é, mais 55 milhões do que teria pago comprando na bolsa essas acções.
Porquê?
Repare-se que a Pontagadea tinha comprado as acções (12% inicialmente) por 189 milhões de euros e recebeu uma média de 4,5% ao ano em dividendos durante cinco anos, algo como 45 milhões de euros. Se as vender por 380 milhões, estamos a falar de 236 milhões de ganhos num investimento de 189 milhões: 125% de rentabilidade líquida! Em 5 anos! E precisava de um prémio para aceitar um negócio destes?
Se alguém tinha alguma dúvida sobre quem vai ganhar com este negócio, está aqui, com uma clareza absoluta: a Pontegadea.
É verdade que, na bolsa, o Estado poderia não conseguir comprar esse volume de acções. Aliás, é por isso que muitas vezes se pagam prémios na compra directa de um volume grande de acções, mas não é o que está a acontecer aqui. Desde logo, porque a posição comprada, ao contrário das situações que normalmente envolvem o pagamento de prémios, não transmite qualquer posição de controlo ou influência determinante. Depois, porque o próprio Luís Montenegro apresentou o negócio como um investimento financeiro e não se pagam prémios destes em investimentos financeiros! Porquê? Pela simples razão que o activo financeiro 13,7% das acções da REN valem, no momento imediato após a compra, menos 55 milhões de euros que o que o Estado pagou por ele. Se esta operação se consumar, os resultados da Parpública de 2026 terão de suportar um prejuízo de 55 milhões com esta operação – pagou 380 milhões por um activo que valerá no seu balanço 325 milhões. Daí o Estado ter realizado uma injecção de capital na Parpública na véspera do anúncio, para tapar este buraco.
Isto é tudo muito grave mesmo que seja feito com total lisura de processos. Mas não é difícil perceber que o pagamento deste tipo de comissões, a oferta deste tipo de prémios, é um convite aberto à corrupção.
O Estado tem instrumentos jurídicos para assumir o efectivo controlo público da REN, e deveria fazê-lo com toda a transparência. Mas nem Luís Montenegro nem o seu Governo querem isso.
Apertado pela completa incongruência do que anunciou, pela contradição dos seus próprios argumentos, o Governo tenta agora uma escapatória. Deixar de colocar a tónica desta compra nos objectivos financeiros e na redução de preços (argumento que além de ser ridículo, deixou todos os liberais aos pulos) e escolheu um caminho falso, mas ainda mais aviltante do que aquele que estava a percorrer: chamou a geoestratégia e o anticomunismo para fazer barulho no terreno, aproveitando a boleia das declarações da Embaixada dos EUA quando questionada pelo ECO: «exortamos todos os nossos aliados e parceiros a evitarem recorrer a fornecedores não fiáveis em qualquer ponto da cadeia de abastecimento energético — o que inclui quem detém e controla as infraestruturas críticas da rede elétrica e de produção de energia». É nesse sentido que vão as afirmações do ministro Leitão Amaro ao Expresso: «Governo não quer Estado Chinês a mandar sozinho na REN».
Mas também aqui a argumentação não cola: com 13,7% o Estado não «mandará» na REN (além do que já «manda» por via da regulação), mesmo que assim o queira (e não quer). Luís Montenegro já disse e redisse que não quer renacionalizar a REN. Por isso, sublinha-se que quem inquestionavelmente ganhou com o negócio foi a Pontegadea e é por não poder assumir isto que o Governo está tão atrapalhado e trapalhão.
Por fim, destacar duas coincidências: foram exactamente 55 milhões de euros o que o então governo do PS ofereceu, sem qualquer justificação real, a David Neeleman para este sair da TAP – uma coincidência que pode ser útil de cada vez que ouvirmos algum dirigente socialista fingir-se indignado com esta oferta de Montenegro; o prémio total recebido pela selecção espanhola por ser campeã do mundo de futebol foi de 55 milhões de euros – poderá alguma malta achar que é muito dinheiro por dar uns pontapés na bola, mas houve um espanhol que ganhou isso sem dar um único pontapé, só com um aperto de mão a Montenegro.
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