Todas conhecem a estória. Um cientista fez uma experiência com uma rã. Disse-lhe: rã, salta. E a rã saltou. Cortou-lhe uma perna, e a rã saltou, menos, mas saltou. Cortou-lhe a outra perna, gritou: salta e a rã não saltou. Repetiu a experiência com dez rãs. E no final escreveu uma tese científica com o título «as rãs sem pernas são surdas».
Assim está João Miguel Tavares no Público de dia 4/6/2026. Começa no título do artigo de opinião por destacar: «Porque só há greves gerais quando o PSD governa?». No primeiro parágrafo do artigo, reconhece ter usado um título exagerado (falso, diria eu) pois terão sido dez de 12 greves gerais.
Depois começa a cortar as pernas às rãs. Que o governo de Balsemão teve duas greves gerais. Do primeiro pacote laboral não falou JMT. Claro. Podia criar-se um padrão que alguém notasse: também houve greve geral nos pacotes laborais de Cavaco Silva, Bagão Félix/Durão Barroso e de Luís Montenegro. Que estranho, de cada vez que o PSD no governo se alia ao patronato para alterar radicalmente as leis laborais a favor desse patronato, os trabalhadores lutam e fazem greves. Só pode ser coisa de comunistas. E por isso JMT grita mais alto, a ver se a rã o ouve.
Depois, continua JMT, «não houve greves gerais nos 90». Por acaso houve duas, ambas contra governos de Cavaco Silva. Contra o pacote de privatizações, uma nova alteração à lei laboral e medidas de austeridade. Mais uma vez, que estranho: a lei de privatizações, que destruiu centenas de milhares de postos de trabalho e entregou ao capital o património colectivo do povo português, a merecer uma oposição dos trabalhadores. Só pode ser conspiração comunista. E JMT grita tão alto que os vidros tremem. Mas a rã não salta.
Depois chega José Sócrates, e JMT escreve: «no que diz respeito a greves gerais, teve direito a duas, uma em 2007 porque estava a querer fazer reformas, e outra em 2010 no auge da crise que conduziu à vinda da troika». Claro que JMT não disse que aquilo a que eufemisticamente chamou «reformas» era mais um pacote laboral, uma nova revisão da legislação laboral contra os trabalhadores. Mais uma vez, havia que ocultar o padrão. Nem disse que em 2010 o governo do PS estava a aprovar PEC atrás de PEC, que eram uns programas nada simpáticos que, em nome da resposta aos efeitos da crise capitalista sobre Portugal, propunha o mesmo remédio que PS e PSD têm para todas as doenças: privatizar, precarizar, reduzir salários e direitos.
«Mais uma vez, que estranho: a lei de privatizações, que destruiu centenas de milhares de postos de trabalho e entregou ao capital o património colectivo do povo português, a merecer uma oposição dos trabalhadores.»
Depois, JMT transitou para Passos Coelho, de quem não esconde alguma reverência: «O homem governou apenas quatro anos, em condições horríveis, e foi premiado com quatro greves gerais». De facto foram horríveis, mas para quem trabalha. JMT pensa que o povo já esqueceu o roubo de salários e reformas nesse período? O ataque brutal à contratação colectiva? As privatizações criminosas? Aqueles quatro anos, três meses e cinco dias foram um inferno para o povo português. E os trabalhadores, em vez de entregar salários, direitos e empregos, lutaram. Que estranho. Qualquer pessoa percebe que se um trabalhador luta contra o roubo do seu salário e dos seus direitos, só o faz porque está a ser telecomandado pelo Partido Comunista, pois a coisa que faz mais feliz um trabalhador livre é ganhar cada vez menos, trabalhar cada vez mais, e ver o seu patrão a acumular lucros e privilégios.
Por fim, já quase afónico, JMT continua a cortar pernas: «até que o PSD regressou ao governo pela mão de Luís Montenegro, e com ele regressaram o quê? Adivinharam: as greves gerais.» Na sua absoluta seriedade, não ocorre a JMT que a rã pode precisar de pernas para saltar. Por isso esquece-se de mencionar que com o PSD/CDS regressaram... os pacotes laborais, ou seja, uma revisão massiva da legislação laboral ao serviço do patronato.
Com um pouco de seriedade, JMT teria encontrado a explicação para a discrepância estatística inicialmente apontada: governou mais tempo o PS e teve mais greves gerais o PSD. E são várias as explicações e não são aquela simplificação eficaz para produzir impactos imediatos: «a rã é surda sem pernas». Apesar de ambos os partidos desempenharem um papel convergente no processo contra-revolucionário português, ambos apostados na reconstrução do capitalismo monopolista e na submissão ao imperialismo, fazem-no de diferentes formas, para manter o povo português encurralado numa alternância sem alternativa. Nas questões laborais – que espoletaram quase todas as greves gerais – cabe ao PS manter uma parte do movimento operário politicamente organizado a apoiar o processo contra-revolucionário, e isso cria-lhe dificuldades políticas em avançar com algumas das medidas anti-laborais que afrontam directamente esse movimento operário. O PSD cumpre esse papel, e no próximo salto da alternância, o PS solidifica esse ataque ao não rever significativamente a revisão legislativa anterior. Cada pacote laboral teve resistência, e foi seguido por governos do PS que o solidificaram. É que as greves gerais – outro padrão que JMT não quis ver – no essencial responderam a ataques aos direitos e às condições de vida dos trabalhadores.
Por fim, como JMT conclui que a rã era surda, extrapolou de imediato que «isto é luta partidária pura e simples. Os trabalhadores são apenas o adereço». E por isso não viu, ou não quis ver, que a verdade é o exacto oposto: isto é luta de classes pura e simples, a luta partidária é o adereço.
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