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|Festa do Avante!

Paulo Raimundo: «Provoquem o sobressalto, lutem pelas vossas vidas»

Perante uma plateia a perder de vista, o secretário-geral do PCP destacou a derrota do pacote laboral como prova da força dos trabalhadores e deixou um desafio à juventude: «Respondam com a vossa luta, rebeldia e sonho.»

Créditos / Festa do Avante!

No tradicional comício da Festa do Avante!, que este ano cumpriu 50 anos, Paulo Raimundo frisou que a celebração é «uma afirmação do futuro que queremos e vamos construir», recordando, no entanto, a marca deixada pelo maior evento político-cultural nacional, no País e em sucessivas gerações, «na cultura, nas artes, na afirmação dos valores de Abril e nas grandes causas da Humanidade». Simultaneamente, fez um balanço da luta dos trabalhadores e denunciou a ofensiva do capitalismo, sublinhando que «este não é um tempo para a armadilha do mal menor, que mantém tudo na mesma e alimenta ainda mais as forças e concepções reaccionárias», mas que é preciso «apontar com clareza o novo rumo que Portugal precisa».

Num discurso que alternou entre a memória da vitória alcançada contra o pacote laboral do Governo e do grande patronato e a urgência de uma resposta global à política de direita, Raimundo afirmou que «esta grande vitória dos trabalhadores é também uma vitória do PCP, do partido que nunca desistiu, que nunca vacilou». E recordou: «Trezentos e trinta dias de luta, milhares de plenários, acções, esclarecimento, manifestações, ao frio, à chuva, ao calor, de noite, de dia, de madrugada, duas greves gerais, coragem, determinação, organização, dignidade: foi esta luta, e só esta luta, que derrotou o pacote laboral». Reiterando que «a luta é o caminho da vitória», apelou a que se trave o assalto à Segurança Social, o ataque às pensões ou o prolongamento da idade da reforma. «Lutemos pelo aumento intercalar das pensões e reformas em 50 euros com retroactivo a Julho, levemos por diante a justa revindicação do direito à reforma sem penalizações, aos 40 anos de descontos», proclamou.

«Não aceitamos que aumente a exploração dos trabalhadores»

Paulo Raimundo enquadrou a luta nacional num contexto global de agravamento das desigualdades e de ofensiva do grande capital. «Numa altura onde a ciência e a técnica evoluem à velocidade da luz, em que a Inteligência Artificial e outras tecnologias se afirmam, apesar de, em grande medida, aprisionadas pelo modo de produção capitalista, e onde se alcançam níveis de produção nunca antes vistos, não aceitamos que aumente a exploração dos trabalhadores, as injustiças e as desigualdades», declarou.

Constatando que «uma dúzia de grandes capitalistas concentra nas suas mãos mais riqueza do que alguma vez foi alcançada», enquanto «oito mil crianças por dia são vítimas da fome» e milhões sofrem com doenças evitáveis, o secretário-geral do PCP afirmou que a superação revolucionária do capitalismo é, a bem da Humanidade, «a grande necessidade do nosso tempo».

Governo ao serviço dos grupos económicos e ameaça à Constituição

O discurso foi particularmente crítico em relação ao executivo do PSD e do CDS-PP, mas também ao PS, à Iniciativa Liberal e ao Chega, denunciando que a política ao serviço dos grupos económicos é incompatível com a resposta às necessidades da maioria e do País. O líder comunista alertou ainda que «o capital está sentado no Conselho de Ministros, ocupa a imensa maioria das cadeiras na Assembleia da República, procura saquear os recursos do País, quer ajustar contas com as conquistas da Revolução de Abril», contando para tal com o Governo de Montenegro, que, «em claro confronto com a Constituição, quer liquidar direitos, atacar elementos centrais da estrutura social conquistada pelo povo português e impor uma visão antidemocrática em todos os níveis da vida nacional».

«O que querem mesmo», acrescentou, «é, a mando do capital, rasgar a Constituição da República». Ao PS, deixou um recado: se voltar a viabilizar o Orçamento do Estado, não só liberta novamente o Chega, «comprometido até ao pescoço com a política em curso, de ter de o fazer, como lhe dá mais espaço para continuar a enganar o povo».

«Este é o tempo dos trabalhadores, do povo e da juventude serem protagonistas»

Num dos momentos mais vibrantes da intervenção, Paulo Raimundo dirigiu-se directamente aos jovens, que saudou como «uma expressão viva» da Festa do Avante!. Perante o cenário de precariedade, baixos salários e pressão para a guerra, desafiou-os: «Quando o sistema capitalista vos rouba os sonhos e vos esmaga as aspirações, vos empurra para o individualismo e o isolamento, vos condena aos baixos salários, precariedade e a terem uma vida pior que a dos vossos pais, quando vos impõem um presente de exploração e de sacrifícios, vos dão como receita a mentira, a demagogia e a revisão histórica, vos querem egoístas, sós, sem esperança e desorientados, quando vos querem mandar para a guerra, respondam, respondam com o vosso inconformismo, com a vossa alegria, com a vossa audácia, com a vossa criatividade, força e energia.» 

Um projecto de ruptura e esperança

Paulo Raimundo deixou claro que a alternativa não é uma mera mudança de governantes, mas «um projecto de ruptura e mudança, patriótico e de esquerda», que coloca os direitos dos trabalhadores no centro da acção política. «Este é o tempo da coragem, da mobilização e da luta pela alternativa que não abdica do País e do seu povo definirem o seu próprio caminho», afirmou. Neste sentido, convocou todos os que não se resignam e garantiu que, nos próximos dias, o PCP levará por diante uma acção de contacto e esclarecimento nas empresas e nas ruas, «pela ruptura com as injustiças que marcam as nossas vidas».

«Bem pode o primeiro-ministro falar do aumento dos rendimentos que a sua propaganda esbarra na realidade do dia-a-dia, onde os salários e as reformas são comidos pelo aumento do custo de vida», constatou Paulo Raimundo, recordando que «cada vez pagamos mais pelos combustíveis, alimentos, habitação para encher os cofres de uns poucos».

Diante de uma gigantesca plateia, o secretário-geral do PCP pediu que ninguém aceite a falta de médicos, de enfermeiros e outros profissionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que cada bolseiro e investigador exija um contrato de trabalho, que cada estudante se mobilize pela avaliação contínua, pelo reforço da Acção Social Escolar, pelo fim das propinas, pela escola pública e um ensino público, gratuito, democrático e de qualidade. Que o sector da Cultura se afirme e os seus trabalhadores conquistem a estabilidade «dos seus contratos e das suas vidas».

Mas as reivindicações não ficam por aqui. «Lutemos contra a divisão, travemos a agenda xenófoba e racista, os trabalhadores imigrantes merecem respeito, dignidade e direitos», afirmou Paulo Raimundo, voltando a apelar à mobilização de todos contra «o roubo e o brutal aumento do custo de vida». «Provoquem o sobressalto, lutem pelas vossas vidas», insistiu. 

Presente esteve também a solidariedade internacionalista com Cuba, Palestina e Saara Ocidental, e com todos os povos que «resistem à agressão do imperialismo e lutam pela sua soberania e direitos no Médio Oriente, em África ou na América Latina». Paulo Raimundo rejeitou «as pressões dos que tentam proibir e criminalizar a solidariedade», admitindo que podem ter muita força, mas não a calam.

No próximo ano, a Festa da fraternidade e da paz terá lugar nos dias 3, 4 e 5 de Setembro. 

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