Comandos Operacionais da Defesa da Civilização Ocidental – CODECO. «Civilização Ocidental» não tentava sequer esconder do que se tratava. Esta «civilização ocidental» que aclamavam defender refere-se aos banqueiros, aos latifundiários e aos padres que abençoavam as mãos da PIDE, e que para a defender valia tudo: ora granadas, petardos ou dinamite.
Documentada, a lista dos seus actos representa uma cronologia consistente da instrumentalização do medo como modo de violência política: uma bomba plantada na Igreja da Graça, tiros contra esquadras da PSP, rebentamento de explosivos na Casa de Angola, ataques explosivos contra sedes do PCP, uma granada contra a livraria do Diário de Notícias, ou o rebentamento de cargas explosivas na FIL, em vésperas do início da primeira Festa do Avante!. Ou seja, terrorismo que atuou com impunidade quase total, entre 1975 até à sua dissolução oficial em 1982.
«Os CODECO nasceram do CDS»
Em Janeiro de 1982, o jornal O Diário entrevistava um ex-guarda-costas do presidente do CDS, Diogo Freitas do Amaral, que resumira a coisa sem rodeios: «Naquele partido só se falava de armas e bombas», confirmando que «os CODECO nasceram do CDS».
Semanas depois, o mesmo jornal entrevistava outro operacional, Luís Ramalho, que acrescentava que «os CODECO constituíam o "braço armado" do partido». Em seu direito, Freitas do Amaral sempre negou qualquer relação e processou o jornal. Na prática, a factualidade da sua afirmação deve-se à ausência de qualquer condenação penal que confirmasse uma ligação orgânica de facto entre o partido e o grupo terrorista.
Contudo, que fique também registado que no decorrer desse mesmo ano de 1982, que, já sem préstimo para quem os criou, os CODECO voltam-se contra o próprio CDS, fazendo explodir uma bomba de fraca potência junto à sua sede de Oeiras. Assim, verifica-se que não é a história de uma organização que se infiltrou por acaso num partido, mas sim a história de uma máquina de matar que foi engenho de um partido que a pôs a trabalhar e mais tarde a tentou apagar.
A Morte do Padre Max
A 2 de Abril de 1976, na Cumieira, em plena campanha eleitoral, um carro-bomba accionado por sistema de relógio matou o padre Maximino Barbosa de Sousa, o Padre Max, candidato da União Democrática Popular (UDP), e a jovem estudante Maria de Lurdes, que seguia no mesmo carro.
«O mandante, segundo Gaspar: Carlos Ribeiro, «membro do MDLP e do CDS», e guarda-costas de «destacadas personalidades», entre elas o general Galvão de Melo. A versão foi corroborada, junto do Jornal de Notícias, por outro nome da mesma rede: António Silva Santos, «dirigente do CDS e membro da rede bombista».»
Décadas mais tarde, fruto de investigações jornalísticas, um deles confessou. Manuel Gaspar, também conhecido por «o Puto» ou «comandante Paulo», mercenário e operacional da CODECO, contou ao biógrafo Ricardo Saavedra, no livro O Puto, que foi ele quem colocou e accionou a bomba, com um cúmplice, Carlos Favas, por encomenda paga dias antes.
O mandante, segundo Gaspar: Carlos Ribeiro, «membro do MDLP e do CDS», e guarda-costas de «destacadas personalidades», entre elas o general Galvão de Melo. A versão foi corroborada, junto do Jornal de Notícias, por outro nome da mesma rede: António Silva Santos, «dirigente do CDS e membro da rede bombista». O cónego Eduardo Melo, financiador e coordenador do apoio eclesiástico à rede no Norte do país, chegou a ser julgado pela mesma morte, mas, no fim, acabou absolvido.
No todo, nem a confissão de Gaspar nem a de Silva Santos levaram alguém a tribunal.
Meio século depois, o assassinato do Padre Max e de Maria de Lurdes continua exactamente como estava naquela noite de 2 de Abril de 1976.
A Tragédia de Camarate
Quatro anos depois da Cumieira, surge Camarate. A 4 de Dezembro, o Cessna 421 em que seguia o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa explodiu-se no ar, resultando na morte de ambos. À X Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate, três homens confessaram a autoria: Fernando Farinha Simões, José Esteves e Carlos Miranda. No próprio relatório da Comissão é registado, sem hesitação, a organização a que os três confessos diziam pertencer desde 1975: a CODECO.
Segundo estas confissões, que a própria Comissão classificou como uma «versão muito discutível dos eventos», vinculada por «animosidade, incoerência e bipolar postura dos depoentes», o engenho explosivo terá sido fabricado em casa de José Esteves, por Carlos Miranda, com 200 mil dólares entregues por Frank Sturgis, agente americano da CIA, para «o derrube de um pequeno avião». O alvo declarado seria Amaro da Costa, que investigava o tráfico de armas para o Irão dias antes da sua morte.
«Por fim, o que ficou não é uma coincidência: a mesma CODECO de que Manuel Gaspar, confesso autor da bomba que matou Padre Max e a jovem estudante Maria de Lurdes, é a mesma dos três homens que confessaram ter fabricado a bomba da Tragédia de Camarate. Nenhum dos dois crimes teve um único condenado.»
A própria Comissão, criada por proposta do PSD e do CDS depois de estas confissões terem vindo a público, pediu à CIA informações sobre os nomes citados pelos confessos. A CIA nunca respondeu, um silêncio que o PCP, na Assembleia da República, classificou como prova do «grau de subserviência» do PSD e CDS-PP ao seu «não muito fiel amigo» norte-americano. Um detalhe final que o relatório regista sem grande alarido é de que, cinco dias depois de Camarate, já com o Governo AD/PSD/CDS-PP em funções, a exportação de armas para o Irão prosseguiu.
Ficou a incerteza sobre se foi essa a bomba, fabricada por Esteves e Miranda, ou «outra, mais sofisticada, alegadamente fornecida pela CIA», que efectivamente derrubou o avião. Sabe-se ainda que o relatório da X CPITC reafirma que a queda do Cessna se deveu a um atentado, e não a um acidente. Sabe-se, no fim, que ninguém foi julgado.
Por fim, o que ficou não é uma coincidência: a mesma CODECO de que Manuel Gaspar, confesso autor da bomba que matou Padre Max e a jovem estudante Maria de Lurdes, é a mesma dos três homens que confessaram ter fabricado a bomba da Tragédia de Camarate. Nenhum dos dois crimes teve um único condenado. E a organização que os uniu nasceu, segundo os seus próprios operacionais, dentro de um partido que continua, até hoje, a sentar-se no parlamento português e a fabricar a democracia em que vivemos.
«Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa», segundo o relato de Mário Tomé, dirigente da UDP, quando lhe perguntaram o que se tinha passado. E é, ainda. A democracia que, meio século volvido, deixa por punir quem plantou a bomba.
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