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Nenhuma casa se constrói pelo telhado

Mais do que o atraso na implementação, o facto de o programa com vista a descongestionar as áreas metropolitanas ter ficado vazio deve explicar-se por não existirem condições atractivas no Interior.

Créditos / PME Magazine

Achar que era por apresentar uma solução de rendas acessíveis (programa «Chave na Mão») que as pessoas iam a correr para um dos 165 concelhos de «baixa densidade» revela bem a falta de visão de quem tem a responsabilidade de romper com o caminho seguido até aqui.

Sendo certo que muitas famílias não têm condições de pagar uma renda que evite várias horas de deslocações pendulares, também é verdade que, encontrando a casa ideal longe dos grandes centros urbanos, pouco ou nada mais alcançam.

Desde há várias décadas que os serviços públicos deixaram de pontuar muitos territórios do interior do País. Foram maternidades e outros serviços de saúde, serviços de finanças e do Ministério da Agricultura, agências da CGD, estações dos CTT, esquadras da PSP, escolas e tribunais (alguns repostos nos últimos anos), a que se juntou o forte desinvestimento na ferrovia.

Projectado através dos seus destinos turísticos, particularmente em 2020, ano em que quase todos foram obrigados a fazer férias «cá dentro», o interior do País é bom para descansar. Encontrar trabalho é difícil, ou não fosse o abandono do aparelho produtivo, designadamente da agricultura. Por outro lado, a desigualdade de rendimentos comparativamente com o Litoral também não é um aliciante. 

A tranquilidade que se vive no Interior faz eco no desinvestimento de décadas, que deixou as pessoas cada vez mais afastadas e isoladas, havendo hoje quem não consiga sequer fazer uma chamada sem recorrer ao roaming. Enquanto o País vibra com a proximidade do 5G, há concelhos como Vinhais, no distrito de Bragança, onde, segundo dados da Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), mais de 50% dos cerca de 8 mil habitantes não têm acesso à internet e as comunicações por telemóvel nem sempre funcionam.

A vontade de povoar zonas mais desertificadas devia pressupor a assunção de políticas que verdadeiramente concorram para retirar Portugal da lista de países da Europa (são apenas oito) com menores índices de coesão, que é como quem diz, dos que não têm regiões administrativas ou outros níveis intermédios de organização do Estado. 

Querer resolver o problema das assimetrias regionais com o simples envio de pessoas para o Interior, deixando tudo como está, é começar a casa pelo telhado.  

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