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|Protecção Civil

Incêndios Rurais: quando o Risco avança mais depressa do que o Socorro

Portugal precisa de uma estratégia que alinhe meios, capacidades e organização com a geografia concreta do risco. Essa decisão, que sucessivos governos têm adiado, é agora inadiável.

Créditos Rui Minderico / Agência Lusa

O estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre os incêndios rurais, a perigosidade estrutural e as dimensões de vulnerabilidade do território, divulgado em 27 de agosto de 2026, permite colocar uma questão que ultrapassa a análise estatística da ocorrência do fogo: estará o modelo de resposta aos incêndios rurais territorialmente ajustado à distribuição diferenciada do risco e às profundas assimetrias do território?

Os dados apresentados sugerem que esta questão merece uma reflexão particularmente exigente, porque a geografia do risco não coincide necessariamente com a geografia da capacidade de resposta. Pelo contrário, verifica-se uma sobreposição preocupante entre territórios de elevada perigosidade, grande extensão florestal e de matos, recorrência dos incêndios, interface urbano-rural e maiores tempos estimados de deslocação dos corpos de bombeiros.

Entre 2020 e 2025 registaram-se 50 218 incêndios com ponto de origem identificável no território continental. Embora apenas cerca de 31% das ocorrências tenham tido início em territórios classificados como de alta ou muito alta perigosidade, estas áreas – que representam 30,6% da superfície do continente – concentraram 80,3% da área ardida, correspondente a 519,9 mil hectares.

A diferença é suficientemente expressiva para demonstrar que a dimensão territorial do problema não pode ser avaliada apenas pelo número de ignições. O que verdadeiramente distingue os territórios de maior risco é a capacidade de o fogo se desenvolver e adquirir uma dimensão potencialmente muito mais severa.

A perigosidade territorial constitui, assim, uma variável fundamental para determinar não apenas onde é mais provável ocorrer um incêndio com elevada severidade, mas também onde a capacidade de intervenção dos meios de socorro pode ser submetida a maiores exigências.

O estudo do INE deixa claro que Portugal enfrenta assimetrias profundas na cobertura territorial dos corpos de bombeiros. Os dados colocam em causa uma abordagem excessivamente uniforme da organização territorial do socorro. Se a perigosidade e a vulnerabilidade apresentam uma distribuição profundamente assimétrica, a capacidade de resposta também não pode ser avaliada exclusivamente segundo critérios administrativos ou segundo o número absoluto de corpos de bombeiros existentes.

A disponibilidade de meios, a sua distribuição territorial, os tempos de mobilização, a capacidade de reforço, a autonomia logística, a qualificação das equipas e a capacidade de comando e coordenação tornam-se fatores determinantes quando o incêndio ocorre em territórios extensos e de difícil acesso.

O problema não é, por isso, simplesmente saber quantos corpos de bombeiros existem em Portugal, mas avaliar qual é a capacidade efetivamente disponível em cada território, em que tempo pode ser mobilizada, qual a dimensão do território que cada estrutura cobre e como essa capacidade se comporta perante situações de simultaneidade de ocorrências.

O estudo do INE permite demonstrar a existência de uma sobreposição territorial particularmente preocupante entre três dimensões: elevada perigosidade estrutural, elevada concentração histórica da área ardida e menor cobertura territorial potencial dos corpos de bombeiros.

Essa sobreposição não prova, por si só, insuficiência operacional dos bombeiros, mas identifica territórios onde essa capacidade está potencialmente sujeita a maiores constrangimentos. É precisamente nesses espaços que deveriam ser aprofundados estudos sobre tempos reais de alerta, despacho, mobilização, chegada, início do ataque, reforço e capacidade de sustentação da operação.

«O estudo do INE permite demonstrar a existência de uma sobreposição territorial particularmente preocupante entre três dimensões: elevada perigosidade estrutural, elevada concentração histórica da área ardida e menor cobertura territorial potencial dos corpos de bombeiros.»

A conclusão mais importante que emerge do estudo é, portanto, que a política de prevenção e combate aos incêndios rurais não pode continuar a ser pensada apenas a partir da ocorrência do fogo. 

Se sabemos onde o fogo é potencialmente mais severo, onde se concentra a floresta e o mato, onde o território arde repetidamente, onde as populações estão em interface com a vegetação e onde os meios de bombeiros apresentam maiores tempos estimados de deslocação, então dispomos de informação suficiente para questionar se a atual organização territorial dos recursos é proporcional ao risco.

A distribuição dos bombeiros e dos meios de combate deve ser confrontada sistematicamente com mapas de perigosidade, histórico de incêndios, recorrência, população exposta, interface urbano-rural, acessibilidade viária e tempos de resposta. 
A unidade de análise não deverá ser apenas o município ou a área de intervenção de cada corpo de bombeiros, mas o território de risco e a capacidade de resposta disponível para esse território.

A tipologia atual dos incêndios rurais não respeita fronteiras administrativas nem a organização convencional das áreas de atuação. Um grande incêndio pode atravessar vários municípios, mobilizar simultaneamente múltiplos corpos de bombeiros e consumir rapidamente a capacidade disponível numa região.

Urge, pois, que a proteção civil e o sistema de resposta confiado aos corpos de bombeiros sejam finalmente resultantes de uma política pública racional, competente e territorialmente diferenciada. 

A evidência estatística, a experiência operacional e a evolução dos incêndios rurais convergem num ponto incontornável: o risco avança hoje mais depressa do que o socorro pode acompanhar.

Persistir num modelo territorial que não reflete a perigosidade real do país é perpetuar vulnerabilidades que já conhecemos demasiado bem. Portugal precisa de uma estratégia que alinhe meios, capacidades e organização com a geografia concreta do risco. Essa decisão, que sucessivos governos têm adiado, é agora inadiável.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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