|João Rodrigues

A ideologia dominante faz gala…

Met Gala, que anualmente se realiza no icónico Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e cuja entrada custa cem mil dólares por pessoa, é a expressão máxima do consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas. 

CréditosSarah Yenesel / EPA

No Twitter, um anónimo designou-a por «espetáculo insano protagonizado por sociopatas ricos e alienados». Nela houve espaço para a atriz-milionária Sarah Paulson enfrentar os poderosos. Fê-lo num vestido de tule cinza da coleção Outono/Inverno 2026, reveladoramente chamada The One Percent, da Matières Fécales, previamente apresentada nas passerelles de Paris, complementando o vestido com uma nota de um dólar transformada em mascarilha, metáfora da cegueira do dinheiro. 

Este foi um dos momentos marcantes da Met Gala, que anualmente se realiza no icónico Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e cuja entrada custa cem mil dólares por pessoa (trezentos e cinquenta mil dólares por mesa). Trata-se da expressão máxima do consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas, o que já apodei de porno-riquismo (Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, março de 2018). 

Já não é a primeira vez que alguém se coloca naquela gala em preparos pretensamente críticos, mas tão funcionais que se não existissem tinham de ser inventados pelo sistema. A cada vez mais integrada Alexandria Ocasio-Cortez já ali se pavoneou, em plena pandemia, de vestido branco, com uma garrida inscrição a vermelho: «tax the rich» (taxar os ricos).

O sistema não absorve todas as críticas, ao contrário do que pareceu afiançar uma certa «teoria crítica», de resto sob suspeita, cada dia mais fundada, de não ter passado de uma racionalização bem financiada da impotência coletiva. Adora, isso sim, todos os seus simulacros performativos, tão fáceis de mercadorizar. O poder do capital requer exibição para ser material; a componente mediática de ofensiva ideológica destina-se a alimentar aspirações e sonhos impossíveis, a criar desejos inúteis e fúteis, já o sabemos há muito. Uma certa dissensão performativa ajuda ao espetáculo, dando-lhe um certo drama, uma ilusão de acomodação plural.  

Patrocinada pelo bilionário Jeff Bezos e pela esposa, que terão comprado por dez milhões de dólares o direito de serem seus presidentes honorários este ano, a gala é todo um documento cultural despudorado da civilização-barbárie capitalista, sinal poderoso da validade da fórmula de Warren Buffet: «tem havido uma luta de classes e a minha classe venceu». Esta declaração realista foi feita precisamente a propósito da substancial redução da progressividade fiscal nos EUA. De facto, no período de maior crescimento da produtividade da história do país, a seguir à Segunda Guerra Mundial, a taxa marginal do imposto, que incidia sobre o último escalão do rendimento, chegou a um máximo de 91%, em 1960, até descer, meio século mais tarde, para os 35%, como bem assinalou o economista social-democrata Robert Reich.  

Discípulo de Thomas Piketty, o economista Gabriel Zucman, por sua vez, tem identificado a concentração de riqueza no topo resultante dessa vitória, sem a qual a exibição de anéis avaliados em mais de três milhões de dólares seria mais difícil: se no início do século XX, 0,00001% das famílias mais ricas detinham uma riqueza equivalente a 4% do rendimento nacional, hoje estima-se em 12% o peso dessa riqueza. Estamos a falar de 19 famílias norte-americanas. Não por acaso, segundo uma avaliação da Americans for Tax Fairness, os contributos dos bilionários para as campanhas eleitorais passaram de 16 milhões de dólares, em 2008, para 2,6 mil milhões de dólares, em 2024. A diferença está na decisão, tomada em 2010 pelo Supremo Tribunal, de impedir, em nome da liberdade de opinião, qualquer limite a esta compra de poder político. Uma decisão liberticida, confirmando que no capitalismo sem freios e contrapesos a democracia é cada vez mais um logro. 

«Patrocinada pelo bilionário Jeff Bezos e pela esposa, que terão comprado por dez milhões de dólares o direito de serem seus presidentes honorários este ano, a gala é todo um documento cultural despudorado da civilização-barbárie capitalista, sinal poderoso da validade da fórmula de Warren Buffet: "tem havido uma luta de classes e a minha classe venceu".»

 

Entretanto, os trabalhadores da Amazon projetaram na penthouse nova-iorquina de Bezos, avaliada em cerca de cento e vinte milhões de dólares, um vídeo gigante. Nele, a septuagenária Mary Hill, trabalhadora de um armazém, denuncia os salários de miséria, lembrando um facto básico de economia política: a riqueza de Bezos depende dos trabalhadores e o que «nós demos, nós podemos tirar».  Obviamente, isso só se fará com organização sindical e política à altura e não é por acaso que os bilionários fazem investimentos colossais na repressão do movimento sindical. Os mastodontes empresariais não são espaços «tecnofeudais», como alguns nos querem fazer querer, são espaços onde vigora o autoritarismo capitalista mais puro, numa sociedade capitalista dura, marcada pela compulsão de mercado. Apesar de tudo, a encarniçada luta dos trabalhadores consegue
vitórias. Numa batalha laboral que durou quase um ano, conseguiu-se fazer o primeiro primeiro sindicato num armazém da Amazon, precisamente na região de Nova Iorque, em abril de 2022, abrindo um precedente tímido, mas promissor.  

E o que é isto tem a ver connosco? Tudo. Em primeiro lugar, sabemos, pelo menos desde o início do século XX, que as desigualdades internas mais entrincheiradas no centro do sistema estão associadas ao imperialismo mais mortífero. Em segundo lugar, a palavra distopia foi inventada para dar a ver este destino. É que, por cá, esta é a forma de economia política a que os nossos milionários-herdeiros aspiram e é para poderem imitar esta gala que pagam aos liberais até dizer chega. Dificultar ainda mais a organização dos trabalhadores e a ação sindical, como pretendem com o pacote laboral, é parte desse caminho. De resto, pensai, sei lá, em Paula Amorim: é a encarnação do capitalismo de herdeiros, do capitalismo fóssil, graças à ruinosa privatização da Galp de que beneficiou o seu já falecido pai, e do capitalismo do luxo, ou não permitissem os super-lucros que arrebanha todas as aventuras no consumo conspícuo e no rentismo fundiário, com marcas como a Amorim Luxury e correlativos empreendimentos imobiliários.  

Num gesto de que Eric Hobsbawm foi o pioneiro, logo em 1990, e que se tornou um marcador da visão crítica do «breve século XX», o historiador Josep Fontana, no livro El siglo de la revolución: Una historia del mundo desde 1914 (2017, Editorial Crítica), cita Karl Kraus traduzido diretamente do alemão, num texto de 1920, aparentemente de homenagem a Rosa Luxemburgo, assassinada um ano antes: «Que Deus preserve o comunismo para sempre, para que esta ralé — os capitalistas — não se torne ainda mais desavergonhada (...) e para que, pelo menos, tenham pesadelos ao irem dormir.»

Fontana defende que, desde os finais dos anos 1970, «a ralé pode dormir tranquila, sem medo da revolução, decidida a recuperar tudo o que havia cedido»: «o resultado foi este mundo em que vivemos hoje, onde a desigualdade cresce desenfreadamente, com a estagnação económica como dano colateral». Mas a história está cheia de contradições e de lutas que necessariamente irrompem: «o apogeu da desigualdade significa necessariamente o começo do fim do sistema que a engendrou», defendeu. A escolha luxemburguista continua diante de nós: «socialismo ou barbárie». A ideologia dominante faz gala de ofuscar esta escolha, mas aqui estamos.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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