Podia ter sido uma oportunidade para discutir as políticas que se materializam nas dificuldades diárias de quem vive do seu trabalho, mas o partido de Ventura optou por não beliscar a acção do Governo e centrar-se nas polémicas em torno do ministro da Administração Interna, que entrou logo de manhã no Parlamento para uma audição na Comissão de Assuntos Constitucionais.
Ao longo de mais de quatro horas e num tom mais cordato do que aquele com que vem reagindo às várias notícias em que se viu envolvido, Luís Neves defendeu a sua gestão e os resultados da sua tutela, ao mesmo tempo que admitiu «erros» formais, recusando qualquer ilegalidade ou favorecimento. O ministro foi acusado de informalidade na gestão dos processos enquanto liderou a Polícia Judiciária, de que é exemplo o famoso caso do atrelado apreendido. Admitindo que continua a faltar informação, a líder parlamentar do PCP disse que «não se compreende que não haja um espaço público» para colocar o atrelado, mas também que o ministro «não está a dar resposta» aos problemas das forças de segurança. Sobre o primeiro, Luís Neves alegou dificuldades de armazenamento «porque há cada vez mais material apreendido por todo o lado». Quanto às reivindicações dos profissionais da PSP e da GNR, anunciou que as negociações seriam retomadas este mês e que durante esta semana teria uma reunião para averiguar quantos profissionais podem recorrer ao mecanismo de aposentação.
No debate da moção de censura do Chega, esta tarde no Parlamento, a par de elogiar a prestação do ministro da Administração Interna, Montenegro anunciou a redução do IRS até ao sexto escalão e um bónus pago em Dezembro nas pensões até 1611 euros, medida que motivou um reparo do secretário-geral do PCP. «Os reformados não precisam de comprar alimentos só para o Natal, em Dezembro», disse Paulo Raimundo. Sobre o motivo do debate, Raimundo afirmou que, depois da derrota do pacote laboral, o Executivo já está a ser censurado, admitindo que, «para lá da gritaria, o Chega não vai pôr em causa a opção política» do Governo. O líder comunista confrontou ainda Luís Montenegro com o argumento que este vem usando, de que a entrada do Estado na REN pode ajudar a baixar o preço da energia, quando nada faz na Galp relativamente ao preço dos combustíveis. «Porque é que não influencia com os 8% aquilo que se impõe neste momento?», questionou. À crítica sobre a descida do IRC, que beneficia sobremodo os grandes grupos económicos, o primeiro-ministro alegou que a redução do imposto «torna a economia mais competitiva» e «paga melhores salários».
Pelo PS, José Luís Carneiro fugiu à responsabilidade de ter viabilizado o Orçamento do Estado deste ano, e de se preparar para viabilizar o do próximo, com o estafado argumento de que «os portugueses não querem uma crise política». Isto, apesar de o secretário-geral do PS considerar que o Governo do PSD e do CDS-PP tem falhado em todas as áreas vitais. Também o Livre admitiu que há motivos para censurar este executivo, que acusou de «falta de coragem» para travar os escandalosos aumentos dos combustíveis, criticando, entre outros aspectos, a privatização da TAP.
O BE, que tal como a IL e o Chega pediu a demissão do ministro da Administração Interna, acusou o partido de extrema-direita de ter deixado de fora da moção de censura «o coração da política do Governo». «Como explica que os preços dos combustíveis batam recordes, quando as empresas petrolíferas estão a ter o seu melhor momento financeiro?», perguntou a Montenegro a deputada bloquista Andreia Galvão.
Sem surpresa, a moção de censura acabou chumbada com os votos contra de PSD, IL, Livre, CDS-PP e PAN, e a abstenção de PS, PCP, BE e JPP. Apenas o proponente votou a favor.
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