Na verdade, esta disponibilidade de Cotrim de Figueiredo para votar em André Ventura numa eventual segunda volta das eleições presidenciais não tem grande novidade, considerando que, politicamente, é mais o que os une do que aquilo que os separa.
Ambos pretendem reduzir o papel do Estado na sociedade, diminuir ou acabar com os apoios sociais e os serviços públicos, privatizar a Segurança Social, a saúde e a educação, entre outras malfeitorias. Aliás, o partido de Cotrim Figueiredo não esconde o apetite pela privatização da Caixa Geral de Depósitos, da RTP ou dos serviços públicos de transporte de passageiro, incluindo a CP e a Transtejo.
Os candidatos Cotrim e Ventura perseguem o objectivo de rever e descaracterizar a Constituição da República, por aquilo que ela representa enquanto importante obstáculo às pretensões da direita de, por um lado, acentuar o desequilíbrio entre o capital e o trabalho, os lucros obscenos e os baixos salários. E, por outro, restringir direitos fundamentais e aumentar a exploração da esmagadora maioria dos trabalhadores, que hoje voltam às ruas de Lisboa para exigir a retirada do pacote laboral que o Governo e o grande patronato querem implementar.
O papel do Presidente da República é o de cumprir e fazer cumprir a Lei Fundamental do País. A Constituição da República, ao contrário do que afirmam alguns, não é uma fonte de problemas, nem está distante da realidade que hoje vivemos. Aliás, as dificuldades resultam do facto de ela não ser plenamente cumprida, e de uma reiterada prática política que se afasta dos seus princípios fundamentais, permitindo que se empobreça a trabalhar e que aumentem as desigualdades, com os jovens a procurar a esperança lá fora.
Da mesma forma que o Presidente da República não pode ignorar esta realidade, também os portugueses não devem resignar-se a um discurso salvífico, por vezes travestido de modernidade, mas que esconde o perigoso caminho da degradação da democracia.
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