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Consciência de classe: um desafio

A forma como os trabalhadores se reconhecem enquanto classe social tem assumido diferentes configurações ao longo dos anos, acompanhando as transformações, e contradições, do próprio capitalismo.

Créditos Tarsila do Amaral

A globalização veio fragmentar, em alguns casos, a antiga solidariedade operária; o neoliberalismo veio promover o individualismo, através da peregrina ideia do empreendedorismo. Todavia, e apesar dessas mudanças, continuam a existir antagonismos de classe, caso contrário a elite dominante não estaria tão preocupada em atacar e desacreditar a relação entre condição social e consciência de classe.

Eric Hobsbawm1 refere que a consciência de classe foi a grande novidade do movimento operário no início do século XIX, uma vez que deixou de ser o «pobre» a enfrentar o «rico», passando a existir uma classe específica: a classe trabalhadora, ou proletariado (Hobsbawn: 1988, 254). Tal facto deveu-se àquilo que Hobsbawn designou de «dual revolution»: a fusão dos ideais da Revolução Francesa com as necessidades e transformações da Revolução Industrial. A primeira, deu ao proletariado a confiança, a segunda, imprimiu-lhe a necessidade de uma permanente mobilização.

É certo que em termos absolutos nunca houve tantos trabalhadores como hoje. Mas também é certo que estar inserido no mercado de trabalho e receber um salário não significa partilhar a mesma condição social, muito menos a mesma identidade. Um gestor de topo de uma multinacional, um engenheiro informático em teletrabalho, ou um operário fabril a receber o salário mínimo são todos «assalariados», mas com níveis de rendimento, estilos de vida, interesses políticos e poderes de negociação radicalmente opostos. Para Lukács2, pertencer objetivamente a uma classe (ser trabalhador) não garante uma «consciência de classe», uma vez que existe uma distinção entre a consciência real (o que os trabalhadores pensam) e a consciência atribuída (o potencial revolucionário).

«É certo que em termos absolutos nunca houve tantos trabalhadores como hoje. Mas também é certo que estar inserido no mercado de trabalho e receber um salário não significa partilhar a mesma condição social, muito menos a mesma identidade.»

A verdade é que aquilo que se alterou não foi a existência de proletariado, mas as formas através das quais este se reconhece enquanto tal. A hegemonia do neoliberalismo («uma das mais poderosas e multifacetadas formas de economia política de hoje» [Rodrigues: 2022, p. 21]3) – principalmente a partir da década de 70 do século XX – promoveu a fragmentação das relações laborais através de uma cada vez maior precarização, mas também pela expansão dos serviços, o trabalho por plataformas e a crescente individualização da relação entre trabalhador e empregador. Tudo isto contribuiu para obscurecer a existência de interesses comuns entre o proletariado.

O proletariado contemporâneo pode já não ser reconhecido, nem se reconhecer, na sua imagem clássica, todavia continua a ocupar uma posição estruturalmente distinta daquela de quem detém e controla os meios de produção. A diversidade interna do proletariado contemporâneo não invalida, por isso, a existência de uma condição de classe e a importância de uma consciência de classe. A questão está em compreender como diferentes experiências de trabalho podem, e devem, ser articuladas numa consciência comum.

Apesar do capitalismo (na sua forma mais radical e selvagem: o neoliberalismo) ter tornado mais difícil a percepção de uma condição de classe comum – indo ao encontro daquilo que Mark Fisher4 diagnosticou como a privatização das nossas próprias ansiedades – a verdade é que não conseguiu eliminar as relações sociais que estão na sua origem.

O desafio político e teórico existe: consiste em procurar compreender as novas configurações do trabalho. A par disso, deverá também procurar identificar, na diversidade e fragmentação das experiências laborais, aquilo que permanece comum.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

  • 1

    Hobsbawm, Eric (1988), The Age of Revolution: 1789-1848, Londres: Abacus Books.

  • 2

    Lukács, Georg (1974), História e Consciência de Classe, tradução de Telma Costa, Lisboa: Publicações Escorpião.

  • 3

    Rodrigues, João (2022), O Neoliberalismo não É Um Slogan: Uma história de ideias poderosas, Lisboa: Tinta-da-China.
     

  • 4

    Fisher, Mark (2022), Realismo Capitalista, tradução de Vasco Gato, Lisboa: VS Editores.

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